O normal e o patológico: uma reflexão contemporânea no campo da psiquiatria – por Gabriela Crespo

    No decorrer dos últimos anos, vem ocorrendo um fenômeno de divulgação massiva de transtornos psicológicos e psiquiátricos. Com o boom de diagnósticos que tal divulgação acarretou, veio o boom de drogas para acompanhar os tratamentos das patologias psiquiátricas. Contudo, estariam os diagnósticos e os subsequentes tratamentos com medicações psicoativas sendo empregados de maneira proporcional e correta? Qual o limite do normal e do patológico na sociedade contemporânea no que tange a saúde mental? E como isso é ressignificado no complexo cenário da atualidade?

     A teoria que o médico e filósofo Canguilhen apresenta em sua obra ‘’O Normal e o Patológico’’ dialoga diretamente com a referida reflexão. O autor afirma que o dualismo do considerado normal e patológico é, sobretudo, orquestrado por interesses – há um interesse na instituição de certas características ou indivíduos como ‘’normais’’, assim como há interesse na segregação e estigmatização daqueles considerados como ‘’patológicos’’ ou ‘’não-normais’’. E, de fato, muitos estudiosos e figuras importantes da medicina alegam que há grande interesse tanto por parte da indústria farmacêutica quando por parte de médicos psiquiatras em aumentar a ‘’clientela’’ de doentes.

    Bonnie Burstow, professora associada da Universidade de Toronto, é uma das estudiosas que endossam a afirmação. Simpatizante da anti-psiquiatria, um movimento que busca desmistificar a atuação da psiquiatria na atualidade, Bonnie afirma que o conceito de saúde mental que construímos ao longo das últimas décadas deve ser desconstruído, gerando uma compreensão mais ampla do estado mental humano.

    Tal feito se dá por meio da desconsideração das chamadas ‘’doenças’’ mentais. Burstow afirma que há o reconhecimento de condições como a ansiedade ou esquizofrenia; contudo, esse reconhecimento não se dá pelo modo convencional da patologização, mas da categorização em espectros de percepção de mundo pelos seres humanos. Assim, para fins de tratamento, não há a prescrição de drogas usuais, mas sim um tratamento não-convencional ‘’combinado’’: o paciente conversa e exprime seus pensamentos ao terapeuta, porém não limita-se a isso – o círculo social do paciente também é levado em conta no tratamento, buscando envolver e desenvolver suas conexões significativas a fins de complemento da terapia e de desenvolvimento pessoal.

    A professora entende que um tratamento que cuida não só do individual mas também das conexões é de suma importância no âmbito da real saúde mental: ela argumenta que as pessoas tidas como doentes na esfera da psiquiatria se sentem assim pois não conhecem o que outros indivíduos sentem, se sentindo sozinhos, vulneráveis e anormais; por meio das conexões e da compreensão seria possível atenuar comportamentos tidos como psiquiatricamente atípicos, melhorando a qualidade de vida e a aceitação dos pacientes.

    Apesar de não ter ligação direta com a professora Burstow, O psiquiatra contemporâneo Gabor Mate corrobora as falas de Bonnie e o movimento da anti-psiquiatria como um todo – defende em seus trabalhos que há um contínuo de personalidades, não pessoas ‘’normais’’ e ‘’acometidas por patologias’’. Segundo o médico e estudioso, a ação primordial tratando-se das ditas patologias psicológicas e psiquiátricas é, de fato, a aceitação no círculo social do indivíduo, não a sua medicação e subsequente adequação aos padrões de normalizados de vida e relacionamentos – Mate levantou em seus estudos que o melhor lugar para ser esquizofrênico, por exemplo, não está no mundo desenvolvido, com seus médicos de ponta e seus remédios ultrassofisticados; mas sim em aldeias na África ou na Índia, onde os membros da tribo aceitam o indivíduo esquizofrênico e o integram na comunidade por meio de cânticos e outros costumes inerentes àquela sociedade.

    É possível – e importante – também questionar de maneira mais filosófica a questão da saúde global pela dinâmica do capitalismo vigente. A massificação de sentimentos e pensamentos nos torna mais produtivos e consequentemente melhores consumidores; taxando aqueles que ‘’fogem’’ ao padrão como seres patológicos, estamos não só alimentando a indústria big pharma, mas também perpetuando a lógica capitalista básica – afinal, não somos plenamente produtivos ou vigorosamente consumistas quando estamos frequentemente ou profundamente tristes, distraídos ou preocupados.

    A divulgação e conscientização acerca dos ditos transtornos psiquiátricos são sumamente importantes para o avanço da saúde global – afinal, para que todos possam gozar do maior estado de bem-estar possível, é necessário que se conheça o maior número de condições inerentes ao ser humano possível para que possa haver aceitação e consequentemente uma maior abrangência do estado de plenitude. Contudo, a problematização acerca do conceito de saúde mental e de normalidade também é de igual ou maior importância no referido contexto. Afinal, o que não é a normalidade além de um padrão benéfico e lucrativo para uma pequena parcela da população do globo?  O ato da contestação da normalidade é importante não só para uma melhor aceitação e integração das particularidades de cada um ao todo, mas também – e principalmente – como um reconhecimento de nossa natureza humana e da retomada de nossas características de seres munidos de uma complexidade de sentimentos, não apenas de desejos de consumo.

Por Gabriela Crespo, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

Fontes:

http://www.bbc.com/portuguese/geral-40104287?ocid=socialflow_facebook (Entrevista com a professora Burstow)

https://www.youtube.com/watch?v=8_j5mmBa4mw (fala do psiquiatra Gabor Mate sobre o mito da normalidade)

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