“Eu, Daniel Blake”: austeridade e saúde em moldura kafkiana – por Rebeca Lemos

“Outro mundo é possível e necessário”. É assim que Ken Loach finaliza seu discurso frente a uma fortíssima ovação do público após receber o mais importante prêmio do Festival de Cannes em 2016, a Palma de Ouro por “Eu, Daniel Blake”. Vivemos num “mundo perigoso”, sublinhou o diretor à ocasião; “o cenário de austeridade impulsionado por ideias neoliberais pode nos levar ao desastre”. Para Loach, uma das tradições da sétima arte é apresentar um cinema engajado, que ‘representa o povo à frente dos interesses dos poderosos’. Essa tônica política permeia todos os seus cinquenta anos de carreira. Sempre dando voz aos vulneráveis frente a desmandos e arbitrariedades, os últimos anos lhe oferecem inúmeras razões para continuar ativo em sua militância atrás das câmeras. Em “Eu, Daniel Blake” ele denuncia o impacto da austeridade e a reforma do sistema de proteção social na saúde e no bem-estar da população e seu ônus desproporcional que recai sobre aqueles mais vulneráveis, que são envoltos numa exasperadora e humilhante burocracia de moldes kafkianos de um Estado absolutamente apático e deliberadamente ausente.

– A partir daqui, o texto contém spoilers.

A projeção começa com a tela escura, que se estende durante o diálogo telefônico de Daniel e Amanda. Amanda é a responsável por avaliar a elegibilidade de Daniel para o seguro financeiro ao trabalhador, uma vez que ele sofrera um ataque cardíaco durante o trabalho e fora desaconselhado por seus médicos a retornar às suas atividades: “o senhor consegue levantar seus braços na altura do bolso da camisa? Consegue pressionar um botão? Consegue ajustar um despertador? Já sofreu perda de controle que o levou à incontinência do intestino? ” As perguntas predefinidas continuam e, irritado, Daniel retruca Amanda, que descobrimos ser a atendente de um serviço que fora recentemente terceirizado pelo governo: “já respondi isso no seu formulário de 52 páginas. Você tem meus laudos médicos. Podemos falar do meu coração?”

O progressivo desmanche do Estado frente a ofensiva neoliberal e o sofrimento das vítimas que ficam no caminho são captados de modo preciso ao longo da película, que retrata duas jornadas de resistência que se cruzam em Newcastle, cidade inglesa: Daniel Blake, um pacato senhor de 60 anos que, vendo-se impossibilitado de retornar ao trabalho por recomendações médicas e temporariamente sem renda, reivindica perante ao Estado seu direito ao seguro financeiro e Katie, desempregada e mãe solteira de dois filhos, Dylan e Daisy, recém transferidos de um albergue para pessoas sem-teto da capital inglesa para Newcastle, uma vez que, de acordo com o governo, não há lugares para alojá-los temporariamente em Londres.

Daniel tem seu seguro financeiro negado em primeira instância e espera, num quadro de ansiedade e depressão, a data da audiência da sua apelação “antes que morra de fome”, como destaca em uma das mais icônicas cenas do filme; Katie, num mesmo quadro de fragilidade de sua saúde mental, vê a prostituição como a única maneira de alimentar seus filhos. Em meio a esse cenário, a câmera sutil de Loach capta, nas mesmas ruas de Newcastle pelas quais caminham a dupla, a presença dissonante de belas propagandas que divulgam pomposas mercadorias. Ao escancarar a coexistência desses mundos, o diretor nos acena que não se trata de um tempo de escassez econômica como nos faria acreditar a ideologia neoliberal, e que de alguma maneira justificaria a situação pela qual passa a dupla protagonista; Daniel e Katie vivem, sobretudo, numa sociedade de extrema desigualdade.

Exacerbação da desigualdade essa que é apontada pela literatura como uma das nefastas consequências das medidas de austeridade. Stuckler, um dos expoentes da literatura que sublinha os perigos que a agenda neoliberal representa para a saúde da população dos países que a ela se engajam, destaca, juntamente com Labonté em “The rise of neoliberialism: how bad economics imperils health and what to do about it” como as medidas de austeridade, especialmente os cortes nos sistemas de saúde e de proteção social, são opções econômicas ética e empiricamente injustificáveis pois, além de não serem a melhor maneira de estimular o crescimento econômico, promovem iniquidades sociais, aumentando a pobreza e desigualdade, determinantes sociais da saúde, que afetam sobretudo a população mais vulnerável, aqui representada por Daniel e Katie.

A narrativa de Loach reforça essa literatura ao nos expor como a austeridade é uma questão central na saúde pública de nosso tempo. Da diminuição do Estado frente às imposições dessa agenda neoliberal, o diretor foca no desmanche do sistema de proteção social e sua consequência na saúde daqueles mais vulneráveis: assistimos atônitos ao completo declínio do bem-estar social, mental e físico da dupla protagonista, frente a uma agoniante incapacidade de reação.

A despeito de tudo, no entanto, Daniel e Katie procuram resistir. E é isso que carrega o título da obra: o “Eu” de reafirmação de identidade; como um grito de desespero do indivíduo frente ao Estado a e brutalidade do sistema econômico. Vale ressaltar que o roteiro assinado por Paul Laverty surgiu a partir de histórias coletadas em bancos de alimentos, centros de empregos e alojamentos e representa assim, a história de muitos Danieis e Katies cujas existências, com a expansão da agenda neoliberal, certamente não se limitam ao cenário inglês. E é nesse sentido que uma segunda leitura do título da obra nos é permitida (muito tangível sobretudo frente a atual conjuntura nacional), onde o “Eu” se define como uma figura além de Daniel Blake; uma figura passível de ser incorporada por cada um de nós, cada vez mais reféns dessas políticas neoliberais.

Daniel não sobreviverá a seu desolador e humilhante ocaso frente à espiral burocrática do Estado e sua jornada acaba com um ataque cardíaco minutos antes de sua tão aguardada audiência de apelação, frente às pessoas que “tinham sua vida na palma da mão”. Representação do ‘verdadeiro custo da austeridade’[1], a jornada de Daniel chega ao fim com a exposição da injustiça de sua morte absolutamente evitável. “Daniel tinha muito mais a oferecer e o Estado fez com que ele morresse precocemente” diz Katie na ocasião do funeral de seu amigo, antes de ler o discurso que ele havia preparado para apresentar em sua audiência: “Não sou um número de CPF ou um clique numa tela. Paguei o que devia com orgulho, nada a menos (…) meu nome é Daniel Blake. Sou um homem, não um cão. E, como homem, exijo meus direitos. Exijo que me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão. Nada mais e nada menos”.

Escancarada tal realidade, as palavras de Loach quando da premiação em Cannes adquirem uma forte substância. “Outro mundo é possível e necessário”, e é ao lado dessas vozes de oposição à globalização neoliberal que estão as “evidências e a ética”, sublinha Stuckler.

Por Rebeca Lemos, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

Referências

[1] Smith, James. “The real cost of austerity”. The Lancet, Volume 388 , Issue 10062 , e17

Labonté R, Stuckler D (2016) The rise of neoliberalism: how bad economics imperils health and what to do about it. J epidemiol Community Health 2016; 70:3 312-318.

Premiere.fr, « Un autre monde est possible, et même nécessaire: à Cannes, le discours engagé de Ken Loach en intégralité » 22 de maio de 2016. Disponível em: http://www.premiere.fr/Cinema/News-Cinema/Un-autre-monde-est-possible-et-meme-necessaire-a-Cannes-le-discours-engage-de-Ken [acesso em 10/06/2017]

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