Estigma e incompreensão social: quais os entraves ao combate efetivo da depressão? – por Jéssica Vaitanan

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A depressão tem sido considerada um dos maiores transtornos à saúde enfrentados no século XXI. A Organização Mundial da Saúde (OMS) constatou que a doença tem aumentado sua abrangência nos últimos anos em escala global, com estimativa de crescimento de 18,4% entre 2005 e 2015, segundo dados divulgados em 2017. O Brasil, especificamente, tem se posicionado entre os países com maior número de depressivos, com taxa de 5,8% da população (11,5 milhões de casos), retendo a maior incidência entre os países da América Latina [1]. A OMS define depressão como um “transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de interesse, ausência de prazer, oscilações entre sentimentos de culpa e baixa autoestima, além de distúrbios do sono ou do apetite”, podendo, em última instância levar ao suicídio [2].

Apesar da proeminência contemporânea do tema, observa-se um baixo investimento em tratamento do distúrbio, sendo estimado pela OMS que, em média mundial, 3% do orçamento governamental em saúde é investido no tratamento de depressão. Paralelamente, apesar da existência de tratamentos efetivos para a doença, em alguns países, menos de 10% dos depressivos recebem esse tratamento e isso se dá frequentemente por razões infraestruturais, mas pode também ser resultado do estigma social atrelado a distúrbios mentais.

Desse modo, mais que refletir sobre a depressão, esse post buscará explorar o estigma  e o preconceito associados à essa doença, que produz um impacto extremamente profundo em indivíduos e em sua inclusão social. Por não ser visualmente constatada, pessoas que sofrem com a depressão são frequentemente mal compreendidas e seus sintomas não são levados com tanta seriedade, sendo muitas vezes tratados como uma característica ‘passageira’ ou resultado de falta de esforço do indivíduo em lidar com seus sentimentos. Há quase uma culpabilização do indivíduo pelo seu quadro depressivo, que é continuamente descaracterizado socialmente como um transtorno, gerando preconceitos, estigmatização e, em um nível mais avançado, passa a impactar na autoimagem do indivíduo, resultando em um auto estigma. Nessas circunstâncias, muitas pessoas em depressão se sentem envergonhadas e acreditam que terceiros reagiriam negativamente caso elas buscassem ajuda, de acordo com um estudo divulgado em 2006 (Barney at al.) [3]. Trago uma publicação do Buzzfeed que traduz de maneira bastante elucidativa as diferenças sociais de tratamento entre doenças físicas e mentais – é essencial que esse tema seja discutido [4]: https://www.buzzfeed.com/kirstenking/como-as-pessoas-tratam-doeneas-mentais-vs-como-el?utm_term=.frbwLmkv4#.hmzEbrZxz

Inscrita à noção de estigma, vale destacar uma grande incompreensão do transtorno quanto à maneira como cada pessoa o desenvolve. Como qualquer doença, a vivência do distúrbio e seus sintomas se expressam de maneiras diferentes em cada indivíduo e, frequentemente, a sociedade acaba por generalizar e estereotipar a noção de depressão – como se para provar que se encontra em quadro depressivo, a pessoa devesse estar o tempo todo em crises de tristeza, impossibilitada de sair de casa. Qualquer um que já conviveu de maneira próxima com alguém com depressão sabe da complexidade do transtorno mental, nenhum dia é igual ao outro e há, frequentemente, períodos de maior estabilidade emocional seguidos por crises mais graves, e, para muitas pessoas, sua associação com ansiedade e/ou síndrome do pânico. Do mesmo modo, pessoas que já estão em tratamento para a depressão podem ter períodos de melhora e de recaídas. Tentativas de rótulos e questionamentos à respeito de distúrbios mentais são extremamente problemáticos e acabam por simplificar erroneamente o processo subjetivo ao qual cada pessoa com depressão está passando, desincentivando que ela busque tratamento ou sinta-se à vontade para falar sobre a questão.

O problema se aprofunda ainda mais quando o estigma se encontra internalizado em instituições das quais pessoas com distúrbios de saúde mental dependem. Muitos casos de depressão culminam na incapacidade de exercer atividade laboral, de modo que o trabalhador precisa recorrer ao INSS para solicitar auxílio-doença. Segundo dados do Brasil, em 2016, a Previdência Social registrou 75,3 mil  casos de afastamento do trabalho por depressão [5]. Contudo, para que haja concessão do auxílio, o segurado precisa passar por uma perícia médica que não conta com um profissional especializado em transtornos mentais. Segundo o psiquiatra Alberto Carvalho, coordenador da Comissão de Ética da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), “existe despreparo desses médicos no que se refere à capacidade de atestar ou não a capacidade para o trabalho. Sabemos que é impossível uma perícia especial para este tipo de paciente, mas seria interessante que um perito psiquiatra pudesse atender esse trabalhador, para evitar erros de avaliação, que se multiplicam pelo país” [6].

Sem um profissional ligado à questão psiquiátrica, o resultado da perícia pode ser influenciado por estigmas sem que o perito seja capaz de avaliar de maneira efetiva a situação do trabalhador, o que se torna um problema ainda maior para as pessoas com depressão e gera maior incômodo ao passar por situações de pressão da avaliação pelo INSS. O diretor sindical da Associação Nacional dos Médicos Peritos (ANMP), Luiz Carlos Argolo, defende o trabalho dos peritos, afirmando que “não fazemos uma análise assistencial ou médica. Não entramos no detalhe da doença. Ultrapassamos esse limite para saber se a doença afeta a vida funcional. E é exatamente assim com o doente psiquiátrico. Não é preciso uma perícia diferenciada para eles. Somos preparados para constatar se qualquer trabalhador está apto ou não para o trabalho”.  É extremamente problemático, a meu ver, acreditar que é possível avaliar a situação mental do paciente sem conhecer bem a doença, em si. Ao mesmo tempo, há uma pressão declarada do governo em reduzir os seus gastos diminuindo as concessões por auxílio doença ou por invalidez [7], o que vai contra a possibilidade do indivíduo em procurar ajuda e exigir seus direitos. Ligando a questão com o que discutimos no curso de Saúde Global, o corte orçamentário para auxílios-doença da Previdência Social se relaciona estritamente com políticas de austeridade, que são adotadas como solução para recessões econômicas, mas acabam por aprofundar os problemas infraestruturais ligados à saúde.

Nesse ponto, gostaria de citar um caso de 2014 no qual uma segurada que estava recebendo auxílio devido ao seu quadro de depressão teve seu benefício cortado após postar fotos aparentemente ‘feliz’ nas redes sociais. Em seu post no Facebook, ela compartilhou fotos de um passeio e afirmou que estava “se sentindo animada” e afirmando que “este ano está sendo mais que maravilhoso” e isso foi considerado motivo suficiente para que seu benefício fosse revogado. A justificativa dada pela Advocacia-Geral da União foi de que um quadro depressivo grave impossibilita uma pessoa de realizar passeios ou emitir frases de otimismo [8]. Independentemente do mérito da decisão ou se a pessoa em questão estava apta a voltar para o trabalho, há 3 pontos a serem considerados: (1) Julgar a saúde mental de alguém por publicações em redes sociais não tem validade alguma, sendo a justificativa para corte do benefício pautada em uma visão extremamente estigmatizada da depressão. Como eu disse anteriormente, há altos e baixos de uma pessoa em quadro depressivo, há também graus variados da doença e, acima de tudo, uma palavra otimista ou um sorriso no rosto não excluem a possibilidade de alguém possuir transtorno depressivo; (2) A falta de perícia por profissionais especialistas em psiquiatria é um grave problema para a confirmação adequada do quadro depressivo; (3) Há uma completa invasão de privacidade e confusão entre vida privada e profissional. As situações a que uma pessoa se submete nessas duas esferas sociais podem envolver pressões muito diferentes e é absurdamente subjetivo atrelar sua capacidade ou não de retornar às suas atividades laborais à ‘performance’ alcançada na vida particular de um indivíduo em depressão. Inclusive, muitas vezes a depressão é desencadeada pelo estresse e pressão impostos no ambiente de trabalho, o que leva o título de síndrome de burnout (tema já abordado em notícia anterior divulgada no Blog) [9].

Figurando essa situação de estigma e falta de compreensão da depressão, concluirei meu texto sublinhando a importância de campanhas que questionem essas posturas altamente prejudiciais ao combate ao transtorno depressivo. A OMS lançou uma campanha esse ano que traz justamente a necessidade de se falar mais à respeito da doença por meio do slogan “Let’s talk” (em português, “Vamos falar”) [10]. Precisamos desmistificar a imagem que se tem da depressão e falar abertamente sobre ela. Enquanto continuarmos tentando encaixar a depressão e a pessoa que sofre com esse transtorno em enquadramentos e estereótipos supostamente objetivos à respeito do distúrbio,  continuaremos alimentando o estigma da depressão e impossibilitando que pessoas consigam receber o tratamento adequado. Nesse círculo vicioso, consagramos a depressão como uma das grandes questões sociais incompreendidas do século XXI.

(http://www.who.int/campaigns/world-health-day/2017/posters-depression/amro/en/ )

Por Jéssica Vaitanan, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global.

[1] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-02/depressao-brasil-tem-maior-prevalencia-de-casos-na-america-latina

[2] http://www.who.int/mental_health/management/depression/who_paper_depression_wfmh_2012.pdf

[3] http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1080/j.1440-1614.2006.01741.x

[4]  Buzzfeed é um canal midiático online com grande alcance popular. Desse modo, a veiculação da temática pelo Buzzfeed pode expandir o debate social ligado ao preconceito associado a distúrbios mentais.

[5] http://www1.folha.uol.com.br/sobretudo/carreiras/2017/06/1889868-brasil-e-segundo-pais-que-mais-perde-dinheiro-com-a-depressao-no-trabalho.shtml?cmpid=facefolha

[6] https://extra.globo.com/noticias/economia/a-batalha-de-doentes-psiquiatricos-contra-inss-19729337.html

[7] https://oglobo.globo.com/economia/governo-vai-editar-medida-provisoria-para-mudar-auxilio-doenca-19666349

[8] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/06/1638471-inss-corta-auxilio-por-depressao-a-mulher-que-pos-foto-feliz-na-web.shtml

[9] https://saudeglobal.org/2017/06/12/brasil-e-segundo-pais-que-mais-perde-dinheiro-com-a-depressao-no-trabalho/

[10] http://www.paho.org/world-health-day/

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