É preciso falar sobre a saúde dos moradores de rua – por Nathália Saffioti Rezende

Os indivíduos que se encontram em situação de rua são vítimas constante de preconceitos e de negligências por parte do Estado e da população civil. Quando se pensa nessa população, observa-se que a mesma é reconhecida pela sociedade de forma majoritariamente negativa, quando não, invisível. A invisibilidade é um dos maiores problemas que assola os moradores de rua, como aborda o próprio Ministério da Saúde, e o que os impede de terem seus direitos reconhecidos.

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Diariamente, o preconceito contra essa população é manifestado através de xingamentos e agressões em que comumente ouve-se palavras como “vagabundo”, “maloqueiro” e “mendigo” para definir os indivíduos que se apresentam nessa situação. Porém, o que poucos têm conhecimento, é que essas definições influenciam a forma como os próprios moradores de rua se percebem e se enxergam, sendo essa uma questão levantada pelo Ministérios da Saúde em seu documento “Saúde da População em Situação de Rua”, trazendo a importância de resgatar a identidade desses indivíduos, fazendo-os perceber que são seres humanos e que nada os diferencia em relação a seus direitos.

O projeto social Entrega por SP
Levantando esse questionamento, o projeto Entrega por SP surgiu em julho de 2013. Inicialmente, o principal foco de doação do projeto era a de cobertores, visto o período com alto índice de morte de moradores de rua que a cidade apresentava, resultante do frio extremo. Hoje, o projeto conta com a doação de muitos outros itens, como sanduíche, garrafa d’água, bolacha, preservativo, cobertor, escova de dente, pasta de dente, sabonete, meia, papel higiênico e absorvente. Porém, o cuidado oferecido pelo projeto não está baseado apenas na saúde física dos moradores de rua, mas, também, na saúde mental. Dessa forma, o projeto busca despertar “sentimentos de amor, carinho e amizade” entre os colaboradores/voluntários do projeto e os respectivos cidadãos que moram nas ruas, como abordam em sua página na internet.

A ação do projeto ocorre mensalmente e a concentração é feita na Praça Charles Miller, de onde grupos se dividem e seguem para outras áreas da cidade. Não existem grandes restrições para aqueles que desejam participar do projeto como voluntários na ação, estes precisam ter, apenas, idade superior a 18 anos. Os outros requisitos que o projeto pede a seus voluntários está relacionado ao seus ideais e disposição, sendo necessário ter disposição para passar uma madrugada nas ruas de São Paulo e ir às ruas conhecendo e acreditando no projeto. Para conhecer melhor os ideais que levam os voluntários e organizadores do projeto a se disponibilizarem, pelo menos, uma vez ao mês para oferecer um pouco de cuidado, atenção e reconhecimento aos moradores de rua, durante as madrugadas frias de São Paulo, assista o vídeo a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=5d-i8KU-cDY

Um retrato da saúde dos moradores de rua
Dados levantados pelo Ministério da Saúde, mostram que grande parte da recusa dos moradores de rua a ida a centros de saúde é consequência de um desconforto sentido pelos mesmos em relação à casos de mau atendimento ou negação deste, tanto em hospitais quanto em outras unidades de saúde. A confirmação desse dado se deu pelo levantamento de uma Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, em que 18,4% dos entrevistados disseram já terem passado por experiências negativas, em que foram impedidos de receber atendimento na rede de saúde.

Atitudes iguais ou semelhantes a essas abordadas, ressaltam a capacidade dos determinantes sociais de agir e modificar até mesmo a própria assistência à saúde, que deveria ser um direito oferecido a todos os indivíduos. Essa população, além de apresentar grande vulnerabilidade à violência física e mental e alimentação incerta, não convive em condições de higiene aceitáveis, possuem pouca disponibilidade de água potável, privação de sono, afeição e, ainda, enfrentam dificuldade de adesão a tratamento de saúde por consequência, principalmente, do desconforto sofrido. O documento “Saúde da População em Situação de Rua” aborda que os problemas mais recorrentes nessa população são problemas nos pés, infecções, DST – como HIV/Aids –, gravidez de alto risco, doenças crônicas, consumo de álcool e drogas, saúde bucal e tuberculose.

O quadro de saúde de um morador de rua não é um quadro simples, o “Manual Sobre o Cuidado à Saúde junto a População em Situação de Rua” aborda a importância do trabalho multi e interdisciplinar para atingir melhores resultados frente ao atendimento à essa população, “uma vez que na rua, nenhum aspecto mais daquela vida pose ser abordado individualmente”. É necessário olhar os moradores de rua como pessoas que além de viverem uma situação precária, possuem muitas potencialidades e direitos. É necessário abraçar suas lutas por direitos. É necessário um olhar mais cidadão.

Por Nathália Saffioti Rezende, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global.

 

Referências:
Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Saúde da população em situação de rua: um direito humano. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Link para acesso: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_populacao_situacao_rua.pdf

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Manual sobre o cuidado à saúde junto a população em situação de rua. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Link para acesso: http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/geral/manual_cuidado_populalcao_rua.pdf

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