“E o bebê robusto virou um homem que ainda não sabe comer” – por Marcelo Caldeira Barbosa

Antes de completar um ano, eu já detinha um título bastante peculiar: Segundo Lugar em um Concurso de Robustez Infantil. Esse feito me rendeu foto em um jornal, bastante orgulho para a família, sabe-se lá quantos apertões nas bochechas, um estranho atestado de saúde e de, digamos, fitness infantil.

Interessa bastante dizer concurso não era promovido por uma instituição qualquer, mas por um Centro de Saúde, órgão estatal de atendimento à população e pertencente ao sistema de previdência social daquela época. Sim, vão-se mais de quarenta anos desde essa vitória, mas o fato serve de um começo bastante pictórico para este texto.

Não é preciso muita elucubração para perceber que, naquela época, o indicador primeiro de saúde infantil era o peso e a gordura que o bebê pudesse ter acumulado. Esse critério de então colide frontalmente com os critérios que, talvez, um concurso de moldes semelhantes teria hoje em dia. Não precisamos aprofundarmo-nos a fim de notar que a percepção médica sobre saúde mudou; as noções a respeito de nutrição adequada também se alteraram consideravelmente. Mas será que, hoje, já detemos o conhecimento necessário sobre as questões afetas à nutrição, sejam elas consideradas em relação a crianças ou a indivíduos adultos? Comer é, talvez, a mais básica das necessidades humanas, e, afinal, quanto sabemos de fato sobre o quê e como comer?

Na dietética, vemos paradigmas surgirem com a mesma velocidade com que são desbancados, e somos, a todo tempo, bombardeados por informações, não raramente divergentes e mesmo antagônicas, acerca do que é certo e do que não é. Vemos, atônitos, uma dança das cadeiras onde brigam carboidratos e lipídios, onde o café ora entra e ora sai. Vemos a gordura animal ressurgindo, depois de ter tido sobre seu pescoço o pé das gorduras vegetais (hidrogenadas ou não). Presenciamos o ovo recebendo absolvição, ao mesmo tempo em que o glúten e a lactose tomam vestes de vilões absolutos. Leite, hoje, não pode! Dieta das frutas, dieta das proteínas, dieta da redução calórica, vegetarianismo, produtos diet e produtos light, edulcorantes artificiais, alimentos orgânicos ou processados, vegetais transgênicos – o rol dentro do qual temos que optar é imenso.

A indústria alimentícia movimenta cifras gigantescas no mundo e tem sua produção orquestrada por modismos, por interesses econômicos escusos, pela estética, e enfim, por elementos culturais de toda sorte.

Um caso interessantíssimo que vem ao encontro de nossa discussão aqui neste texto é o que trata da batalha épica “gordura versus açúcar”, consideradas suas influências negativas em problemas cardíacos e coronarianos. Por bastante tempo, os lipídios figuraram como vilões absolutos, ao mesmo tempo em que a influência do açúcar sobre tais problemas foi mitigada ou mesmo desconsiderada. Pesquisas atuais conduzem adequadamente (?) essa concepção ao status de mito. Investigações históricas indicam que a indústria açucareira americana teria investido, sobretudo na década de 60 do século passado, quantias substancias em institutos de pesquisas renomados para, de algum modo, forçar seus resultados a indicarem a correlação entre ingestão de lipídios e problemas cardíacos, isentando de qualquer culpa o açúcar. (Ao final do texto são indicados alguns links que narram o fato histórico e novas pesquisas que parecem desbancar os achados de então.)

Nesse turbilhão de informações e de desinformações, o indivíduo comum, o homem médio, o leigo, encontra-se perdido. Ora, se estivermos de acordo com o entendimento da própria OMS e entendermos a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, que não consiste apenas na ausência de doença ou de invalidez”, seremos obrigados, imediatamente, a ponderar sobre o papel da ciência da Nutrição em relação à saúde, de forma generalizada, e, também, sobre se este papel vem sendo desempenhado a contento por ela.

O mundo se vê cada vez mais abarrotado de indivíduos obesos e sedentários, hipertensos e que detêm índices de bioquímica sanguínea indesejáveis; também sobem os números relacionados à diabete e a outros problemas metabólicos de modo sistemático.

É nesse panorama que o cidadão comum, distante da academia e de suas pesquisas, ressente-se pela falta de informações abalizadas ou pelo excesso de informações truncadas e incorretas. A oferta de opções corre a passos bem mais largos que a produção de conhecimento formal ou, ao menos, bem mais rapidamente do que este último consegue ser popularizado. Então, parece-me muito claro que seja necessário, e com bastante urgência, que a ciência permeie a blindagem dos laboratórios e assuma seu papel de esclarecimento, cumprindo sua função social. É preciso que seu caráter profilático seja posto a serviço da população, sobrepujando todo e qualquer interesse que não o da saúde da população.

O bebê robusto virou um homem que se vê imerso em um mundo frenético, bombardeado pela propaganda e por ofertas tentadoras. Considerada sua vida, suas necessidades e suas possibilidades, em um quadro de características cada vez mais industriais, o que ele deve fazer? Cabe à ciência dizer… O homem adulto, nesse campo, ainda se comporta como bebê.

* Marcelo Caldeira Barbosa é licenciado, mestre e doutor em Física. Atualmente, trabalha como Perito Criminal e é graduando do Curso de Direito, além de ser um glutão, que come, inadvertidamente, tudo e qualquer coisa que lhe apareça pela frente.

Links de Interesse para Acompanhamento do Texto:

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/10/28/acucar-e-apontado-como-vilao-pelo-seu-colesterol-alto-nao-a-gordura.htm

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/09/13/industria-do-acucar-influenciou-pesquisa-cientifica-de-harvard-diz-estudo.htm

https://www.theguardian.com/society/2016/apr/07/the-sugar-conspiracy-robert-lustig-john-yudkin

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39625621

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/03/ciencia/1478190576_159601.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s