Alimentação Saudável na Feira da Reforma Agrária – por Lucas Vaqueiro

No início de maio, a II Feira Nacional da Reforma Agrária buscou debater um tema da moda: alimentação saudável e comida de verdade. Na conferência — promovida em São Paulo dentro das programações do evento–, foram chamados João Pedro Stedile, Alexandre Padilha, Bela Gil, Letícia Sabatella e Pepe Mujica para discutir as relações entre alimentação e modelo de cultivo da terra.

João Pedro Stedile, dirigente nacional do MST, abriu a conferência traçando um panorama histórico da luta pelo alimento e combate à fome no mundo. Stedile destacou o trabalho do médico, geógrafo e embaixador Josué de Castro para o entendimento da fome como uma consequência das relações sociais e econômicas e não mais um determinismo.

Após a Primeira Guerra Mundial, populariza-se o conceito de Segurança Alimentar que, ao longo do tempo, vai amadurecendo e englobando novos diplomas internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e o Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, positivando o direito à alimentação adequada. Deste comprometimento intergovernamental de que a fome é política e o seu combate deve ser uma prioridade dos Estados, desdobram-se o Programa Mundial de Alimentos criado em 1961, a Declaração de Roma sobre Segurança Alimentar de 1996, e os Objetivos do Milênio.

Stedile trouxe também a importância do conceito de soberania alimentar, ou seja o direito de todos os povos a decidir sobre as suas políticas alimentares. A soberania alimentar procura colocar em pé de igualdade aqueles que comem com aqueles que produzem os alimentos, onde existe o direito a uma alimentação saudável que respeite o ambiente e todas as pessoas. Ao contrário da Segurança Alimentar que historicamente se traduziu na ajuda emergencial e no aumento da produção, o conceito se verifica na escolha efetiva do que cultivar, como cultivar, o que destinar ao mercado externo/interno e quais recursos naturais empregar.

O agronegócio baseado no monocultivo, no latifúndio e no uso intensivo de transgênicos e agrotóxicos é responsável também por uma padronização dos alimentos, onde o mundo come uma mesma “ração” baseada no trigo, milho, arroz e soja. Segundo pesquisa do Instituto Nacional do Câncer, cada brasileiro consome em média 5 litros de agrotóxicos por ano. Nesse sentido, Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde, salienta que o direito à alimentação é o direito de procurar outros caminhos, é o direito à diversidade da comida, é proteger nossa cultura e nossa identidade.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2006 com segunda edição em 2014 durante a gestão de Padilha, entende a alimentação como multifatorial. Ele busca respeitar as bases biológicas e culturais da alimentação, priorizando o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados e entendendo que a alimentação adequada e saudável deriva de sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável.

A chef Bela Gil, na conferência, defende que alimentação saudável é aquela que não apenas faz bem para nosso próprio corpo, mas também à terra e ao produtor. Para ela, a cozinha vai muito além do prato, é uma ferramenta de mudança política, econômica, social, ambiental e de saúde. Visando sua concretização como ato político, é preciso poder escolher o que comer, contudo este ainda é um privilégio restrito a uma parcela da população brasileira e mudanças estruturais são necessárias para atacar o problema. Segundo a culinarista, essas mudanças passam pelo cuidado com a terra, pela educação no campo e sobretudo pela reforma agrária.

Outra mudança estrutural necessária é uma revisão da necessidade de agrotóxicos para produzir alimentos. Tal necessidade seria, segundo Bela Gil, um mito: a produção no mundo é suficiente, o problema seria a distribuição desigual dos alimentos. A agricultura familiar que representa outro modelo de produção diferente do agronegócio produz 70% dos alimentos da população brasileira. Ainda sobre agrotóxicos, a relatoria especial para alimentação das Nações Unidas declarou que o uso de pesticidas são uma preocupação global de direitos humanos e pedia o emprego de técnicas sustentáveis na produção de alimentos. Como medida de mudança estrutural, a culinarista defende a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos.

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e “campesino de alma e de ofício”, finalizou a conferência salientando que a luta pela terra é a luta por uma civilização distinta. Segundo Mujica, o mundo pode mudar, para isso devemos acumular gerações de lutadores que sonham com uma civilização melhor. Lutar por uma alimentação saudável é, portanto, é seguir nesse caminho.

Por Lucas Vaqueiro, graduando da USP e aluno da disciplina Saúde Global

Para saber mais:

https://www.nexojornal.com.br/explicado/2016/09/02/Mundo-produz-comida-suficiente-mas-fome-ainda-%C3%A9-uma-realidade

http://www.fao.org/docrep/003/w3613p/w3613p00.htm

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

http://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=21306&LangID=E

http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/artigos/2014-1/direito-humano-a-alimentacao-adequada-e-soberania-alimentar

http://contraosagrotoxicos.org/sdm_downloads/pnara-politica-nacional-de-reducao-de-agrotoxicos/

 

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