A medicalização da alimentação – por Juliana Caires

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A alimentação tem sido, ultimamente, um assunto que tem transitado entre a ciência e o senso comum. Para mim, a alimentação sempre fez referência aos deliciosos almoços/jantares fartos, cercados por boa companhia e boas conversas; ou ainda, à cultura local de onde cresci, ou de lugares para os quais viajei. Não consigo desassociar a comida desses aspectos social, histórico e cultural.

É possível notar, contudo, a transformação da alimentação de um ato prazeroso, que remete à vida social, histórica e cultural (tanto pessoal, familiar, quanto local) para uma atividade que precisa ser “cuidada, controlada, adequada, balanceada” – dentre outros adjetivos que acabam por fazer referência a dietas específicas. Tal cuidado é fruto tanto de uma preocupação com o bom estado de saúde, quanto com a concretização estética e física que seria gerada por esse estilo de vida dito saudável.

A consequência disso é que passamos a comer calorias, nutrientes, e outros parâmetros científicos/biológicos, mas não comida. Come-se apenas o que não contém glúten, nem farinha branca, nem açúcar, nem sódio, nem conservantes, nem lactose; o carboidrato é demonizado – e a cada dia, um novo alimento se torna o principal vilão da saúde humana. É importante dizer que, muitas vezes a motivação de tais cuidados, não é uma alergia ao glúten/intolerância à lactose, ou diabetes, ou colesterol; as razões normalmente incluem prevenção de doenças e objetivos estéticos (“isso causa / aumenta as chances de desenvolver a doença X”, ou “isso incha a barriga”, ou “aquilo retarda o metabolismo”, entre outras justificativas).

Em outras palavras, a alimentação tornou-se “funcional”. Esse fenômeno tem sido apontado por especialistas como “medicalização da alimentação”. Idealizamos uma alimentação que, baseada em instruções científicas e nutricionais, melhore nossa saúde – e portanto, possua poder medicamentoso e nutrientes que respondam a demandas fisiológicas do nosso corpo.

Nesse pequeno artigo, pretendo refletir sobre a origem dessa medicalização, a partir dos autores Georges Canguilhem e Michel Foucault, estudados na disciplina de Saúde Global (na aula sobre “segurança e saúde global”); posteriormente, pretendo discutir um pouco sobre como a expansão do conhecimento científico sobre os alimentos, a atuação socialmente esperada de alguns profissionais de saúde, bem como as indústrias alimentícia e farmacêutica, associadas à midialização/publicidade de “estilos de vida saudáveis” fortalecem tal fenômeno.

Georges Canguilhem, em O normal e o patológico (1943), demonstra como a definição do que é patológico e anormal deriva da convenção do que é o “normal” – que, mesmo quando amparada por métodos objetivos, é subjetiva. Em um espectro linear, o que é patológico coloca-se na extremidade oposta do que seria considerado bom e ideal. Ou seja, sendo o “normal” a extensão e expressão da norma, ele requer fora dele tudo o que lhe escapa e foge das exigências que a normalidade em questão representa.

A definição do que constitui uma alimentação saudável é feita por meio de regras nutricionais, logo, o “normal” é cientificamente definido. O conjunto dessas regras compõe o que Foucault denomina “formação discursiva”, que se transforma em estratégia de poder sobre os corpos. Nesse sentido, pode-se mesmo associar a normalização/medicalização da alimentação no contexto do biopolítica de Foucault do governo da vida. Em outras palavras, o discurso da alimentação saudável é um discurso que exerce poder sobre nós, e tal poder se deve ao seu embasamento no conhecimento desenvolvido e propagado pela ciência ao longo do tempo. A norma é ditada e embasada pela ciência.

Essa definição do que é o “normal” ou adequado torna-se uma idealização, já que cada indivíduo é único, biológica e fisiologicamente. Por outro lado, o “normal” torna-se um parâmetro pelo qual as pessoas passam a ser medidas, classificadas, julgadas – podendo ser aceitas ou não a partir disso. Assim, consideramos uma alimentação ideal aquela biológica e cientificamente saudável – isto é, a partir da definição dos nutrientes que possui e suas funcionalidades no organismo. Claramente, isso ignora o sujeito e a relação entre comida e relações familiares, culturais e históricas.

Nesse aspecto, destaco o papel de três atores importantes: os profissionais da saúde, a indústria alimentícia e a mídia.

O primeiro ator denominei como “profissionais da saúde”, mas, com esse termo, quero me referir à visão da sociedade sobre o papel desses profissionais, em especial nutricionistas; acreditamos que os mesmos possuem a atribuição de definir comportamentos e normas para uma vida saudável, e a partir de suas recomendações buscamos seguir essa “receita”.

O segundo ator, a indústria alimentícia e farmacêutica, se aproveita do conhecimento científico em termos de alimentação para justificar e lançar novos alimentos / suplementos que visam melhorar a saúde, ou potencializar um estilo de vida saudável, dietas ricas em determinados nutrientes, etc. – quem nunca viu uma propaganda que coloca diante dos nossos olhos um produto que vai nos ajudar a cuidar da nossa saúde com muito mais sabor, que ainda oferece praticidade para um dia-a-dia super ocupado?  Incluo duas sugestões de propagandas que exemplificam um pouco do que acabo de descrever: uma da indústria alimentícia, e outra da indústria farmacêutica. O terceiro ator que destaco é a mídia, que inclui influenciadores digitais, que veiculam frequentemente o discurso da vida saudável associada a uma vida mais feliz e a um corpo perfeito (e aqui a normalização da alimentação se estende à normalização estética).

Como os discursos de todos esses atores sempre se justificam pelo conhecimento científico, eles possuem um poder sobre as pessoas.

Para resumir tudo isso, cito um trecho do artigo “A racionalidade nutricional e sua influência na medicalização da comida no Brasil” (VIANA, Marcia Regina et al):
“A alimentação, antes tomada como ponto de encontro familiar – a refeição – agora é concebida como uma das vias de conquista da ‘saúde’, a qual se deslocou para a prática (mágica) de consumir elementos que, a título de serem eficazes no melhoramento fisiológico, desincumbem sujeito e sociedade de resoluções existenciais de maior empenho.”

Destaco que, de forma alguma quero dizer que não devemos nos importar com nossa alimentação; a alimentação é um determinante da saúde, e pode ter efeitos tanto positivos quanto negativos na saúde como um todo. Muitas pessoas com problemas de saúde podem realizar tratamentos eficazes a partir da mudança de hábitos alimentares. O problema para o qual quis chamar a atenção é que, ainda que inconscientemente, a concepção de alimentação saudável tem sido orientada por uma visão científica de saúde, que, além de não questionar, se reduz à busca de cura ou prevenção de patologias. Ignorar aspectos sociais, culturais, históricos e a relação de prazer ao se alimentar de forma alguma pode ser considerado saudável.
Assim, concluo com um trecho essencial do artigo “O discurso sobre a alimentação saudável como estratégia de poder” (KRAEMER, Fabiana Bom et al):
“Não considerar a subjetividade, a interioridade, as histórias de vida, os laços afetivos, as relações familiares, as dimensões culturais locais, regionais e globais e o cenário político e econômico que envolvem a alimentação é caminhar na contramão dos novos contornos do que se considera saúde”.

Por Juliana Caires, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

Referências

KRAEMER, Fabiana Bom; PRADO, Shirley Donizete; FERREIRA, Francisco Romão  and  CARVALHO, Maria Claudia Veiga Soares de. O discurso sobre a alimentação saudável como estratégia de biopoder. Physis [online]. 2014, vol.24, n.4 [cited  2017-06-17], pp.1337-1360. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312014000401337&lng=en&nrm=iso

VIANA, Marcia Regina et al. The nutritional rationale and its influence on the medicalization of food in Brazil. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2017, vol.22, n.2 [citado  2017-06-17], pp.447-456. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232017000200447&lng=pt&nrm=iso

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