A Epidemia de Sífilis no Brasil: uma abordagem a partir dos Determinantes Sociais da Saúde – por Thiago Ferreira

Como vimos em uma das aulas da disciplina Saúde Global, no que tange as principais questões relacionadas à justiça na saúde global, um dos temas de grande relevância são os determinantes sociais da saúde. No atual contexto brasileiro, no que diz respeito à saúde pública, uma patologia se destaca em meio ao debate a cerca dos determinantes sociais é a sífilis. A sífilis é uma doença sexualmente transmissível (DST) que pode apresentar várias manifestações clínicas, podendo ser transmitida por meio da relação sexual sem o uso da camisinha com uma pessoa infectada ou pelo contágio da mãe infectada para a criança durante a gestação ou o parto. Essa ultima possibilidade de transmissão está inserida dentro de um contexto reconhecido como uma epidemia pelo Ministério da Saúde em outubro de 2016. Entre as possíveis complicações resultantes da sífilis congênita estão o parto prematuro, má-formação do feto, cegueira, aborto espontâneo, surdez, deficiência mental e/ou morte ao nascer são as possíveis complicações resultantes da doença.

Dados emitidos recentemente no Boletim Epidemiológico de 2016 do Ministério da Saúde indicam que em 2001, a sífilis congênita estava presente em um em cada mil bebês nascidos vivos no Brasil e que em 2015 esse número saltou para 6,5 em mil no Brasil e 12,4 em mil no Rio de Janeiro, o estado mais afetado. Nesse cenário, o Rio de Janeiro se apresenta como a região mais afetada pela epidemia anunciada. Atualmente há o registro de 15 casos a cada mil nascimentos no estado, o dobro da média nacional, que é de 6,5 casos a cada mil nascimentos. Na principal maternidade da Baixada Fluminense, que faz até 20 partos por dia, 40% dos recém-nascidos estão contaminados por sífilis congênita.

Nos últimos anos, por parte do Ministério da Saúde, é apresentada a retórica de que um aumento no número de casos registrados se da por inúmeros fatores, entre eles estão as melhorias em vigilância e diagnóstico, o que, segundo o ministério, explicaria aumento elevado de casos diagnosticados nos últimos ano. Entretanto, o aumento dos casos é observável em maternidades e serviços pediátricos, no país, o que não invalida uma preocupação existente que exige uma resposta por parte do Estado.
A sífilis se apresenta como um problema complexo, que, de fato, não possuí uma causa só, mas sim um conjunto de fatores. Possivelmente o principal deles é a falta de assistência médica de qualidade, principalmente a mulheres durante o pré-natal, o principal problema relacionado ao grande número de casos na Baixada Fluminense. Em meio a esse cenário, a diferença entre classes leva as mulheres mais pobres a serem as mais atingidas, pois, não possuem acesso ao pré-natal e, quando tem, a qualidade é muito baixa, ao passo que são atendidas por profissionais pouco preparados, em relação ao pré-natal realizado por grávidas com maior poder aquisitivo.

É possível também constatar que faltam informações a cerca da profilaxia e do tratamento da sífilis para a população, sobretudo àquela que carece de acesso a informação. Diferentemente da divulgação de informações relativas à AIDS e ao vírus HIV, há pouca disseminação acerca da sífilis no país. Com o aumento do número de casos diagnosticados nos últimos anos, essa epidemia deve sair das sombras, ao passo que passem a ser necessários maiores gastos com saúde de emergência, em razão dos distúrbios resultantes da doença.

Mesmo que atualmente os custos ao Estado, dos exames para prevenção da doença, sejam baixos, o fator geográfico é por vezes uma barreira ao processo que leva ao diagnóstico. A distância e os custos do transporte até clínicas e hospitais, são empecilhos a diversas mulheres que necessitam realizar os exames, o que acarreta tanto em possíveis erros de diagnóstico como em atrasos nos resultados dos exames.

Outro determinante social está relacionado à questão de gênero. Muitos homens não levam a sério porque não apresentam sintomas ou dizem que não têm tempo para ir ao hospital. Cerca de 10% dos parceiros de gestantes infectadas seguem o tratamento até o fim.

Crianças com sífilis congênita carregam o peso de variados distúrbios e o estigma de uma doença que apresenta um tratamento avançado, em comparação a outras doenças congênitas e/ou sexualmente transmissíveis. Na maioria das vezes, determinantes sociais são os principais responsáveis pela dificuldade na prevenção e no tratamento. O uso de camisinhas é pouco difundido em regiões isoladas dos grandes centros urbanos, o que leva não apenas a proliferação da sífilis, mas também de outras DSTs.

É possível observar, assim, o cunho social da epidemia de sífilis no Brasil: Há uma grande dificuldade em tratar do tema DSTs no Brasil, em razão, sobretudo, da falta de educação sexual entre a sociedade. Outra questão problemática é o machismo presente em nossa sociedade, de modo que a mulher, ao engravidar, mesmo que tenha o diagnóstico em mãos e descubra que tem a doença, continua vulnerável, pois os homens com quem tiveram relações sexuais por vezes não se tratam.

Esses determinantes sociais ficam evidentes a partir do momento que observamos o perfil das dezenas de gestantes com sífilis que chegam aos hospitais da Baixada para dar à luz: negra, jovem, com baixa escolaridade e renda. Ademais, de acordo com o Ministério da Saúde, 26% das gestantes contaminadas no Estado do Rio têm entre 15 e 19 anos.

A disseminação de uma doença conhecida da comunidade médica mundial há muitos anos e com prevenção e tratamento que apresentam baixo custo e que são consideravelmente eficientes apresenta, sobretudo, causas sociais. Do ponto de vista da saúde pública, a sífilis é uma doença que une estigma social, desinformação, desigualdade de gênero e baixos investimentos na área da saúde pública.

Esse artigo teve como base notícias emitidas por veículos da imprensa, relatórios anuais e boletins emitidos pelo Ministério da Saúde.

Por Thiago Ferreira Vieira, graduando da USP e aluno da disciplina Saúde Global

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2016/10/20/ministro-da-saude-admite-que-brasil-vive-uma-epidemia-de-sifilis.htm

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/sifilis-contraria-metas-de-saude-avanca-no-brasil-21460238?loginPiano=true

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/04/12/baixada-fluminense-enfrenta-explosao-de-sifilis-congenita.htm

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/sem-informacao-ou-tratamento-gravidas-transmitem-sifilis-bebes-21460159#ixzz4kOWgvC5T

http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/outubro/31/2016_030_Sifilis-publicao2.pdf

http://www.who.int/reproductivehealth/topics/rtis/syphilis/en/

http://www.aids.gov.br/pagina/sifilis

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