O que “Bem-Vindo à Mary-Gomont” pode nos ensinar sobre Atenção Primária à Saúde e Mobilidade Internacional de Profissionais de Saúde – por Maria Alice Vellame

Inspirado em uma história real, o filme francês “Bem-Vindo a Marly-Gomont”1 (2016) é uma obra que arrebata o telespectador ao abordar questões sobre o racismo de uma forma nítida e acessível combinando a isso uma tônica mais leve e carregada de sensibilidade. A história se inicia em 1975 e narra à trajetória de Seyolo Zantoko, um médico congolês que acaba de se formar pela faculdade de medicina de Lille (França) e teme retornar a seu país de origem, que passava pelo regime autoritário do General Mobuto. A fim de manter-se longe do que acontecia no Zaire, Zantoko decide então aceitar uma proposta de emprego feita por um prefeito para trabalhar em uma pequena cidade no interior da França, que há tempos não conseguia um médico que aceitasse e se mantivesse no posto e que jamais havia recebido negros como habitantes anteriormente.

Ao chegarem em Marly-Gomont, Zantoko e sua família são recepcionados com olhares de assombro e perplexidade. Apesar da energia e da dedicação de Seyolo, o preconceito e a descrença da população sobre o protagonista e sobre a sua competência esvazia novamente o único consultório médico da cidade, dessa vez não por falta de profissional, mas por obscurantismo da população. A partir de então, o filme passa a mostrar o empenho, o entusiasmo e as peripécias que Zantoko empreende para conquistar o respeito da população local com o propósito de conseguir de fato exercer sua profissão na região e cessar o preconceito que ele e sua família enfrentavam, tanto em virtude de sua cor quanto em relação a sua origem.

Embora o filme apresente como ponto fulcral a temática do racismo, achei particularmente interessante o pano de fundo pela qual narrativa se desenvolve: a falta de médicos em regiões mais distantes e pouco povoadas. O filme não intenta aprofundar em detalhes mais técnicos, políticos ou burocráticos, já que este não é o seu objetivo enquanto obra, mas sim a história de Seyolo; contudo o fato de haver a figura de um representante do Estado (prefeito) em busca de um profissional que aceitasse o posto de médico de uma cidade de pequeno porte lança luz para um problema básico do Estado ao revelar uma deficiência real que muitas cidades enfrentam acerca de atenção primária à saúde2. Lugares muito afastados, pouco povoados e considerados periféricos como Marly Gomont são vistos como pouco atrativos pela a classe médica nacional de um país no geral, a qual não vê grandes estímulos em atuar em áreas destes tipos. Desse modo, atender às necessidades de saúde de modo regionalizado, sejam elas de viés profilático ou de viés emergencial, e de forma contínua e sistematizada, torna-se um grande desafio.

Concomitante a isso, o filme evidencia outra problemática que tange às possíveis soluções para o déficit de médicos de uma localidade que é trazer estrangeiros para atuar internamente no sistema de saúde. O fato de o prefeito ter contratado um médico africano para atuar em um país europeu, deixa a população incrédula de suas capacidades, que o identifica quase como um “não-médico” por conta de uma discriminação racial e também cultural, ainda que ele tivesse a mesma formação que os demais médicos franceses e possuísse um diploma francês. Esses preconceitos acabam por gerar uma enorme dificuldade de relacionamento tanto no que concerne à relação médico x paciente para Zantoko, quanto ao que toca às questões de adaptação social para sua família.

Ainda que o filme não adote um viés político sobre essa questão de saúde aqui levantada, ele pode suscitar essa reflexão de forma sutil. O que “Bem-Vindo à Marly-Gomont” nos mostra é a história real de um médico que conseguiu vencer as adversidades frente a um impasse básico de saúde e tudo que se entrepõe a isso nos anos 1970 e que ainda vemos e vivenciamos nos dias de hoje. Apesar de considerado um filme do gênero dramático, “Bem-Vindo à Marly-Gomont” consegue ser leve e delicado e apresenta reflexões profícuas em vários âmbitos, sem cair em grandes clichês.

Publicado por Maria Alice Vellame

1Filme disponível no catálogo do Netflix

2Fonte:http://www.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/ateprisau.html

FICHA TÉCNICA

Data de lançamento 28 de outubro de 2016

Direção: Julien Rambaldi

Elenco: Marc ZingaAïssa MaïgaBayron Lebli mais

Gêneros DramaComédia

Nacionalidade França

Duração: 96 minutos

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