“O pulso ainda pulsa” – por Daniel Almeida

O PULSO AINDA PULSA

Lançado em 1989, o álbum “Õ Blésq Blom”, da icônica banda do rock brasileiro Titãs, traz a canção “O Pulso”, de autoria de Arnaldo Antunes, que será aqui apresentada, seguida de uma breve reflexão sobre a patologização da vida, de acordo com algumas ideias que figuram obra “O Normal e o Patológico” de Georges Canguillem, de 1943.

Link para o vídeo com a música:

https://www.youtube.com/watch?v=hi0WbKNAGXQ

O pulso ainda pulsa

O pulso ainda pulsa

Peste bubônica, câncer, pneumonia

Raiva, rubéola, tuberculose, anemia

Rancor, cisticercose, caxumba difteria

Encefalite, faringite, gripe, leucemia

O pulso ainda pulsa

O pulso ainda pulsa

Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia

Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia

Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria

Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania

O corpo ainda e pouco

O corpo ainda e pouco

Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia

Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia

Brucelose, febre, tifoide, arteriosclerose, miopia

Catapora, culpa, carie, câimbra, lepra, afasia

O pulso ainda pulsa

O corpo ainda e pouco

Ouvindo e refletindo sobre essa canção, impossível não pensar em algumas ideias de Canguilhem, que problematiza o conceito de “normal” e de “patológico”. O autor trouxe para o campo da filosofia uma questão que sempre fora central às ciências médicas e biológicas. Afirma que o pensamento científico sempre esteve atrelado ao espírito de uma época, isto é, sempre foi datado e dotado de preconceitos e ideias de seu tempo. Neste sentido, temos que o que um quadro “patológico” está sempre fazendo oposição ao que é considerado “normal”. Em outras palavras, pode-se dizer que o “normal” precisa do “anormal” para existir como tal. Desta forma, surge das ideias do filósofo e médico francês uma série de estudos críticos à “patologização da vida”, cuja tônica é sempre de se questionar o espírito da época que define o “normal” e o “patológico”. Discipulo de Canguilhem, Michel Foucault tem uma série de estudos sobre saúde mental e sexualidade que estão baseados nessa desconstrução proposta pelo autor.

Pensando agora nos dias atuais, vivemos num sistema onde grandes corporações farmacêuticas movimentam bilhões todos os anos e desempenham um significativo papel na economia capitalista contemporânea. E a existência de doenças é do interesse de quem vende tratamentos para elas. A letra da canção escolhida para este post pode ser entendida, assim, como uma crítica à “patologização da vida”. A bela e profunda poesia de Arnaldo Antunes apresenta uma série de patologias clínicas (peste bubônica, câncer, pneumonia etc.), intercaladas com patologias da alma (rancor, estupidez, ciúmes, cleptomania, hipocondria, culpa etc.). Interessante notar como há algumas patologias que podem ser encaradas como “híbridas”, isto é, tanto podem ser interpretadas como doenças ou questões emocionais, tais como “raiva” e “paralisia”. Há uma linha muito tênue entre aquilo que é “patológico” e o que é “normal”, enfim.

E o pulso ainda pulsa.

E o corpo ainda é pouco.

Referência:

SAFATLE, Vladimir. O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de //Georges Canguilhem. Sci. stud.,  São Paulo ,  v. 9, n. 1, p. 11-27,    2011 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662011000100002&lng=en&nrm=iso>.

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