Filhas irão sofrer com os cortes de gastos na saúde

Nessa quinta-feira (15/06), o jornal NY Times publicou um editorial comentando sobre o provável efeito dos cortes propostos pelos republicanos no orçamento do Medicaid – programa governamental de seguro de saúde para famílias e indivíduos com recursos limitados (a redução seria de 25% em dez anos). O efeito seria devastador, pois asilos, serviços domiciliar ou comunitário para os idosos correspondem a quase ⅔ dos gastos do programa. Sem acesso a esse recurso, a responsabilidade do cuidado provavelmente recairá sobre as “crianças-adulto”, principalmente sobre as garotas das famílias. O jornal cita um estudo feito pelo Centro de Pesquisas sobre Aposentadoria do Boston College (Center for Retirement Research at Boston College), segundo o qual ao menos uma criança-adulto em cinco provê cuidado a pelo menos um parente idoso na vida. As garotas consomem tanto tempo nesse tipo de cuidado quanto cônjuges, e tanto quanto filhos, enteados, netos e outros parentes combinados. Mulheres são mais suscetíveis a se retirarem ou reduzirem sua participação no mercado de trabalho devido a essa demanda extra por cuidado, realidade que afeta seu planejamento financeiro e saúde mental. O jornal chama atenção para o fato de que trata-se de um sistema já deficiente, portanto, o corte de gastos apenas faria implodir um sistema já sobre estresse.

Essa reflexão de certo modo espelha parte da discussão no Brasil hoje sobre a reforma da previdência e cortes nos gastos públicos. A autora Sophie Harman, que estuda os papéis de gênero na crise do Ebola, alerta para o fato de que as mulheres em momentos de crise podem atuar como “absorvedoras de choque”, isto é, se empenhar em funções de cuidado e bem-estar quando o Estado, o empregador ou o indivíduo já não pode pagar por esses serviços. As mulheres acabam por absorver esse ônus por meio da auto-exploração, produzindo bens e serviços não remunerados em domicílio. O jornal finaliza o editorial afirmando que se preocupações com a prosperidade e a dignidade conduzissem o planejamento de políticas públicas, os gastos com o programa de seguro seriam maiores, não o contrário. Poderíamos acrescentar também a sugestão de incorporar o ponto de vista da mulher no planejamento dessas políticas, tomando a precaução de questionar a feminização do cuidado.

New York Times. Daughters Will Suffer From Medicaid Cuts. 15 Jun 2017. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2017/06/15/opinion/medicaid-health-care-bill-daughters.html?nytmobile=0&_r=0&module=ArrowsNav&contentCollection=Opinion&action=keypress&region=FixedLeft&pgtype=article>

Enviado por Cristiane Pereira
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