A mulher que fugiu para salvar dois bebês intersexuais de seus próprios pais

“Há cinco anos, uma parteira no Quênia ajudou uma criança que tinha órgãos genitais masculinos e femininos a nascer.”

No Quênia, em certas comunidades, crianças intersexuais são consideradas sinais de mal presságio, trazendo maldição para a família e vizinhos. Ao salvar a criança do pedido proferido pelo pai de matá-la, Zainab estava desrespeitando as crenças tradicionais de seu povo. Mesmo com estatísticas sobre a incidência de intersexuais não confiáveis, médicos acreditam que no país seja a mesma de outros países – aproximadamente 1,7% da população.

Embora as condições de nascimento estejam mudando no país, com mulheres optando por hospitais ao dar à luz, até pouco tempo havia uma norma entre as parteiras sobre como lidar com bebês intersexuais. “Elas costumavam matar essas crianças”, diz Seline Okiki, diretora do Ten Beloved Sisters, grupo de parteiras tradicionais do oeste do Quênia; “Se um bebê intersexual nascia, automaticamente era visto como maldição e não poderia viver. Já era comum entre as parteiras – elas matavam as crianças e diziam às mães que o bebê havia nascido morto.” Okiki ainda afirma que, embora de forma velada, esse costume ainda acontece em regiões mais rurais.

Georgina Adhiambo, diretora-executiva da ONG Voices of Women, que trabalha para reduzir o estigma contra pessoas intersexuais no Quênia, afirma que o tema ainda é tabu, considerando que é uma comunidade muito religiosa. Ainda assim, a endocrinologista pediátrica Joyce Mbogo, que faz parte de uma nova geração de médicos que lidam com problemas de desenvolvimento sexual, afirma que a atitude quanto a crianças intersexuais já está mudando. “Temos um novo grupo de pais que estão dispostos a procurar ajuda. A internet é acessível até em áreas rurais, então eles podem pesquisar e procurar saber do que se trata.”

Mesmo que Zainab tenha cuidado dessas duas crianças e se recusado a matá-las, existe um costume quanto a essa questão que, para muitos, é difícil não seguir. Trata-se de uma questão delicada pois entra em conflito o debate entre, não apenas dos direitos humanos e da criança, assim como dos intersexuais, e o estigma sobre esse grupo, que se revela ligado à cultura e religião desse povo, de maneira conflituosa com a intervenção externa à luz de convenções internacionais. No entanto a matéria traz, além desse debate, um exemplo de uma mudança na qual esse tabu é levantado pelos membros da própria sociedade.

Enviado por Julia Granato

Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39852313>

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