Brasil é segundo país que mais perde dinheiro com a depressão no trabalho

Depressao-no-Trabalho

A matéria trata do aumento nos casos de depressão causada pelo estresse no ambiente de trabalho (síndrome de burnout) registrado no Brasil e permite uma reflexão sobre as consequências na saúde e no bem-estar nos trabalhadores nos dias atuais.

Gostaria apenas de pontuar duas questões que achei relevante no texto e que dizem respeito ao viés escolhido para tratar a questão das pessoas que sofrem de depressão, nomeadamente a “produtividade”. Acredito que elas nos ajudam a refletir sobre a relação entre saúde e o sistema capitalista.

A manchete “perde dinheiro” já deixa claro que a preocupação é com aquilo que a economia (e, por conseguinte, os patrões) deixam de ganhar quando funcionários de empresas desenvolvem quadros depressivos causados pelo estresse a que são submetidos no ambiente de trabalho. As perdas econômicas são sobrepostas às perdas “humanas”: pessoas desenvolvendo patologias que, para seguir na analogia, são na verdade sintomas de uma doença sistêmica, de um sistema de exploração de mão-de-obra cada vez mais injusto e desumano.

Ao analisar o enquadramento dessa notícia, isto é, a forma como a autora (de forma intencional ou não) escolheu abordar o aumento nos casos de depressão entre trabalhadores e trabalhadoras, podemos inferir que há um perigoso viés “economicista” ao se tratar questões de saúde. E, sobretudo nesse caso específico, doenças que são desenvolvidas pela própria interação dos trabalhadores com esse sistema do “lucro máximo e a todo custo” são abordadas de forma a legitimar o próprio sistema, uma vez que não se questiona a exploração por trás dessas patologias.

Link para a notícia: http://www1.folha.uol.com.br/sobretudo/carreiras/2017/06/1889868-brasil-e-segundo-pais-que-mais-perde-dinheiro-com-a-depressao-no-trabalho.shtml?cmpid=facefolha

Enviado por Daniel Almeida.

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5 pensamentos sobre “Brasil é segundo país que mais perde dinheiro com a depressão no trabalho

  1. Daniel, sem dúvida esse é um tema extremamente central no mercado de trabalho brasileiro e pouco abordado sob enfoque humanístico. Frequentemente, a doença é tratada de um ponto de vista econômico e a relação causal entre doença e trabalho é deturpada – considera-se a doença como grande causadora de prejuízos econômicos, sem salientar que ela é consequência das condições mentalmente insalubres para grande parte dos trabalhadores brasileiros, incluindo estresse, longas jornadas, pressão e até mesmo assédio. Para aprofundar o problema, quando o trabalhador desenvolve depressão, há uma série de fatores que dificultam que ele tenha acesso ao auxílio doença pelo INSS:

    (1) O governo já anunciou diversas medidas para tornar mais rígidas as concessões de auxílio doença e auxílio por invalidez (https://oglobo.globo.com/economia/governo-vai-editar-medida-provisoria-para-mudar-auxilio-doenca-19666349 ) – atitude pautada em questões puramente econômicas para reduzir gastos do governo com a previdência social, desincentivando que os trabalhadores busquem tratamento e seus direitos;

    (2) A perícia à qual o servidor deve se submeter não conta com profissional especializado em transtornos mentais, o que abre espaço para erros de avaliação quanto à real capacidade daquela pessoa em exercer atividades laborais;

    (3) O estigma social da doença é extremamente forte, tratado como sinal de fraqueza e como culpa própria do indivíduo que desenvolve o quadro depressivo.

    Tudo isso reforça a falta da abordagem da questão como tema de saúde pública. E, enquanto a depressão não for tratada como tal e continuar sendo vista como prejudicial economicamente, não chegaremos ao cerne do problema, instituindo um círculo vicioso. Condições de trabalho geram quadros depressivos, que são vistos como um prejuízo econômico e não são tratados do ponto de vista de saúde pública. Sem foco na saúde, não se corrige causas estruturais e mais pessoas desenvolverão depressão.

  2. Oi Daniel, gostei muito do assunto da notícia! Quando estou indo para a aula, observo as pessoas ao meu redor no transporte público e imagino a hora em que acordaram para estarem a caminho do trabalho, e que muitas vezes tem uma jornada superior a 10 horas por dia. E lendo sua notícia me veio a cabeça a jornada de trabalho dos funcionários da empresa Google, que é bem famosa por tentar manter seus funcionários satisfeitos com o ambiente em que trabalham.
    Acho legal a ideologia deles pois se atentam a fatores como: o espaço físico, onde a própria arquitetura propicia integração e mobilidade fácil; valorização de diferentes ideias e diferentes raciocínios, destacando diferentes perfis e princípios; a união da ética e do lucro, visando o bem-estar e o desenvolvimento do funcionário para além do lucro financeiro; entre outros.

    Existe uma página em que a empresa explica a sua ideologia, e pode ser acessado por esse link: https://www.google.com.br/about/.

    Abraços,

  3. Legal Daniel, obrigada pelo envio da notícia!
    A relação entre saúde e resultados econômicos lembrou-se a tese de Stuckler e Basu, trabalhada em aula. Na obra “A Economia Desumana: Porque Mata a Austeridade”, os autores relacionam decisões politico-econômicas com resultados catastróficos em saúde pública. O inverso também é real: condições piores de saúde afetam o resultado econômico de um país. Nesse sentido, políticas austeras impactam não só a saúde das pessoas, como também a saúde da economia, atrasando a recuperação do equilíbrio econômico.
    Tanto no caso da austeridade, quanto no caso da notícia sobre saúde mental dos trabalhadores, embora argumentos economicistas devam ser muito menos expressivos e convincentes do que argumentos voltados para a saúde e o bem estar das pessoas, eles também me parecem úteis, na medida em que reforçam uma mesma evidência e sugerem soluções semelhantes. Resta saber se esses argumentos serão ouvidos pelos operadores econômicos, para o seu próprio bem.
    Abs

  4. Saúde mental realmente é um tema em alta de forma que esta semana mesmo assisti a um vídeo a respeito de como as novas gerações estão adquirindo cada vez mais a doença. São inúmeras as causas: o aumento de stress nos grandes centros urbanos, péssima alimentação, rotina de trabalho, o estado de vigilância permanente, a necessidade de reconhecimento, aumento da competição, diminuição do tempo livre, mídias sociais…
    Eu acredito que doenças como depressão sejam de extrema difícil mensuração, de forma que eu não acredito ter a notícia um viés necessariamente economicista. Apenas uma forma de tentar alertar as pessoas para a gravidade da situação. Outro problema é a banalização do uso de remédios por pessoas que optam por escolher o caminho mais fácil, ao invés de mudar de hábitos e mudar suas relações ou Estilo de vidas tóxicos e não alinhados com o sentido de vida do indivíduo. A própria invenção de doenças é algo socialmente construídos como vimos em aula e não podemos deixar que novas formas de organização produza novas formas de doença de forma a tentar padronizar comportamentos e aumentar a produtividade sem atacar a raiz do problema, que com certeza tem fundamento psicológico.
    É obvio que não podemos banalizar a questão da depressão, mas o fato é que estamos lidando com algo sistêmico, principalmente em centros urbanos que resultam uma série de externalidades negativas para todos, de difícil mensuração.

  5. Ao ler a notícia, assim como você, questionei o viés pelo qual o problema é tratado, mas embora a parte do ser humano seja relegada a um segundo plano em prol de uma lógica econômica e produtivista, infelizmente, é assim que a questão é tratada pela maioria do mercado de trabalho. A saúde física e mental do trabalhador é considerada importante apenas no que se refere ao quanto esta pessoa poderá agregar e produzir para a companhia, muito embora isso seja colocado com uma roupagem de melhoria de saúde e estilo de vida daqueles que lá trabalham.
    Em muitos casos, além da questão da produtividade, a questão é vista em termos muito práticos como cifras financeiras, uma vez que quanto mais saudável o trabalhador for, menos a empresa vai gastar (O título da notícia deixa essa lógica bem clara), pois pessoas mais saudáveis não acabam se afastando do trabalho para tratamento ou utilizam menos o plano de saúde empresarial, reduzindo o que deve ser pago para os convênios médicos. Também nessa lógica, funcionários mais saudáveis são mais produtivos e dessa forma é possível reduzir a quantidade de pessoas que realizam determinada função e por consequência reduzindo custos às custas de empregos de pessoas.

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