O conceito de doença mental é um mito, diz autora de estudo anti-psiquiatria no Canadá

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Bonnie Burstow é professora na Universidade de Toronto, onde recentemente lançou o primeiro programa de estudo sobre antipsiquiatria, área na qual é bastante conhecida.
Burstow e outros defensores da antipsiquiatria questionam se o que conhecemos hoje como “doenças mentais” são realmente doenças ou apenas sentimentos normais de todo ser humano. Com isso, questionam o conceito de “normalidade”, o tratamento psiquiátrico convencional e o uso desenfreado de medicamentos para tratar tais “doenças”.
Segundo a professora, a maneira mais adequada de tratar as pessoas seria por meio de terapias baseadas na fala, ao invés de ter o poder de encarcerar e tratar pessoas contra a vontade quando são consideradas mentalmente doentes.
Nesse sentido, o movimento antipsiquiatra têm muito em comum com o movimento antimanicomial, que advoga pelo não-isolamento de pessoas com transtornos mentais da sociedade, pelo fim dos manicômios e pelo tratamento humanizado dessas pessoas.
No entanto, a antipsiquiatria ainda não é bem aceita entre os psiquiatras. Grande parte deles acreditam que estamos perto de ver comprovada a influência da genética nas condições de saúde mental, coisa que a antipsiquiatria também rejeita.
Ainda que esse movimento perca a força com o tempo, ao menos está levantando a discussão sobre formas alternativas de tratamento, em uma sociedade em que cada vez mais pessoas são diagnosticadas com depressão e tratadas por meio de medicamentos antidepressivos.

Link para a notícia: http://www.bbc.com/portuguese/geral-40104287?ocid=socialflow_facebook
Link para notícia sobre aumento nos casos de depressão: https://nacoesunidas.org/oms-registra-aumento-de-casos-de-depressao-em-todo-o-mundo-no-brasil-sao-115-milhoes-de-pessoas/
Link para notícia sobre aumento na venda de medicamentos antidepressivos: http://noticias.r7.com/saude/venda-de-antidepressivos-no-brasil-cresce-com-o-aumento-de-casos-ligados-a-depressao-14032017

 

Enviado por Mariana Sati de Mattos.

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3 pensamentos sobre “O conceito de doença mental é um mito, diz autora de estudo anti-psiquiatria no Canadá

  1. Obrigada por compartilhar essa matéria, Mariana! Urge discutirmos sobre questões de sanidade mental, ainda tão envolta em tabus.
    Gostaria apenas de destacar e tecer alguns comentários sobre o seguinte excerto da matéria:

    “A psiquiatria entende coisas como biológicas quando elas não o são. Quando dizemos ‘saúde mental’, isso significa que os problemas das pessoas têm relação com doenças”, critica Burstow, que, em sua visão, “não são doenças”.

    Fiquei incomodada com a associação direta de Burstow entre saúde mental e doença. Conforme temos trabalhado constantemente em aula, o conceito de saúde vai muito além de doença. Recobro aqui o preâmbulo da Constituição da OMS: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”
    Dessa forma, penso que, antes do rechaço ao termo “saúde mental”, devemos ressignifica-lo e romper com os tabus que o cercam. Creio que esse processo na verdade confirmaria o movimento anti-psiquiatria e reafirmaria as críticas de Burstow à medicalização. Exatamente porque se associa “saúde mental” a estado de doença que se recorre amplamente aos remédios, e não a outras formas de busca ativa por bem-estar. Na sociedade moderna, em que adoecer é proibido (https://saudeglobal.org/2017/06/05/o-conceito-de-doenca-mental-e-um-mito-diz-autora-de-estudo-anti-psiquiatria-no-canada/), se já se recorre a medicamentos para pequenas dores físicas diárias, que dirá para as dores da alma, envoltas em grande preconceito.
    E nesse estado de coisas, a indústria farmacêutica se beneficia ainda mais, lucrando sobre o desespero de curar rapidamente desequilíbrios que não necessariamente requerem artifícios químicos. Ademais, os remédios têm potencial de dependência, rendendo-lhes pacientes cativos.
    Isso reforça o “poder assustador” da psiquiatria: quando o indivíduo não é “curado” sequer pelos medicamentos, é encarcerado contra sua vontade, tirando-lhe daquilo que poderia auxiliar seu processo de recuperação – o contato com outras pessoas.
    Não nego aqui a necessidade do uso de medicação. Mas concordo com a autora: associa-se com “doença” muitas condições que não deveriam ser tratadas como tal e que, por consequência, não demandariam tratamento por medicação.
    Nesse sentido, elogio a recente incorporação de tratamentos de práticas integrativas e complementares ao SUS (http://saudejur.com.br/portaria-autoriza-sete-novos-tratamentos-integrativos-no-sus/). Sem negar a “medicina tradicional”, ainda dominada pela lógica da medicalização que tanto interessa à indústria farmacêutica, o SUS ressignifica a “medicina alternativa”, integrando-a ao conjunto de serviços prestados à população: sessão de arteterapia, sessão de meditação, sessão de musicoterapia, entre outros.

  2. Achei interessante a comparação que você fez entre o movimento antipsiquiatria e o movimento antimanicomial, Mariana! Eu acho que esse paralelo pode ser feito também quando se considera o fato de que a “doença mental” do modo como ela é abordada hoje integra a figura estigmatizada do louco-criminoso, que possui noções pejorativas a respeito das condutas que são consideradas “desviantes” tanto dentro da psicologia/psiquiatria quanto dentro do direito. Se sobre o indivíduo a que a sociedade chama “criminoso” já recai uma carga muito grande de estigmatização, o que gera a sua exclusão do convívio em sociedade através das penas de reclusão, imagine-se aquele que é “louco e criminoso”.

    As soluções que a lei dá nessa situação são baseadas na medição de um conceito absolutamente desprovido de bases científicas ou mesmo estudos empíricos sobre a sua efetividade, sendo ele a “periculosidade” do indivíduo considerado inimputável. O resultado é que são decretadas a esmo centenas de internações em manicômios judiciários que obviamente não foram estruturados para qualquer tipo de acolhimento de pessoas, e sim para recluir os indivíduos do modo como a psiquiatria e o direito prescrevem, o que, a meu ver, é exatamente o ponto em que a professora Burstow toca.

    Nesse sentido, eu acho bastante pertinentes os argumentos suscitados pela professora, principalmente no que tange à nomenclatura que tanto a psiquiatria quanto o direito utilizam. Quando ela diz que “estremece” quando ouve as palavras “saúde mental”, suponho que seja no sentido de chamar a atenção para as partículas de tachação e preconceito contra aquilo que a biologia estudou até hoje como “anormalidade”. Eu acredito que rever todo o sistema manicomial implica, antes de tudo, a revisão (e correção) da própria psiquiatria em si.

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