Órgão da ONU estima que custo social da zika pode alcançar R$ 5,6 bilhões

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A Coluna de Marcelo Leite, repórter da Folha, apresenta uma estimativa realizada pelo Pnud, que indica que a epidemia de zika no Brasil teria um elevado custo social no curto e longo prazos. Apesar de basear-se em modelos matemáticos questionáveis (uma das estimativas supõe que 73% da população seria infectada), a pesquisa alerta para custos que geralmente não são contabilizados pelo governo. A decisão recente de declarar o fim da emergência do zika, por exemplo, não reflete o custo social que as vítimas, o sistema de saúde e o país ainda terão de enfrentar. Isso sem contar o sofrimento incalculável dos doentes e seus familiares, já que esse valor, como aponta o colunista, não tem preço.

Veja a notícia na íntegra:

Quanto custaram ao Brasil a epidemia de zika e os casos resultantes de microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré? Algo entre R$ 3,3 bilhões e R$ 5,6 bilhões entre 2015 e 2017 – nos melhores cenários.

Esse seria o custo só de curto prazo. Se incluídos os de longo prazo, como cuidados do sistema de saúde e da família com as crianças e os doentes, a conta subiria para um valor de R$ 14 bilhões a R$ 40 bilhões.

Ainda há o pior cenário. Neste caso, o país perderia um total de R$ 15 bilhões, no curto prazo, e R$ 142 bi, tudo somado, a perder de vista.

Esta última perspectiva é muito improvável. Ela supõe que 73% da população seria infectada, coisa que só se viu na Polinésia Francesa, ilhas com uma população diminuta, de cerca de 285 mil pessoas, concentrada num território homogêneo, que facilita a propagação do vírus.

As estimativas sobre o Brasil são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Em parceria com o Crescente Vermelho e a Cruz Vermelha, o órgão da ONU produziu o relatório “Avaliação do Impacto Socioeconômico do Vírus da Zika na América Latina e no Caribe”, que está disponível na internet em espanhol e em inglês.

Para a região toda, América Latina e Caribe, o custo de 2015 a 2017 subiria para algo entre US$ 7 bilhões (R$ 23 bilhões) e US$ 18 bilhões (R$ 59 bilhões). Isso considerando uma taxa de infectados na população de no máximo 20%.

Os autores do estudo puseram na conta vários tipos de gastos, como os realizados para diagnosticar e tratar pessoas com sintomas, assim como a assistência mais imediata aos bebês nascidos com microcefalia e a suas mães.

O custo maior, entretanto, desponta nos cálculos referentes ao longo prazo. Aqui o que mais pesa são os meses ou anos de trabalho perdidos pelos indivíduos afetados por sequelas cerebrais e o afastamento do mercado de trabalho, temporário ou permanente, de seus parentes –quase sempre as mães.

Evidentemente, o estudo não quantificou todo o sofrimento vivido pelos doentes e seus familiares. Isso, afinal, não tem preço.

Para o restante, há os gastos governamentais voltados a mitigar os efeitos sociais da epidemia (se não faltar dinheiro e se a burocracia conseguir fazer que ele chegue às mães).

O relatório registra em tom elogioso o pagamento, no Brasil, de um salário às famílias de crianças microcéfalas. Contudo, anota também que o valor corresponde a apenas um sexto do ônus real da perda de renda que recai sobre o domicílio.

Não têm faltado reportagens, por outro lado, sobre as agruras enfrentadas pelas mulheres pobres do Nordeste para obter o benefício –sem mencionar o difícil acesso a especialistas, como neurologistas, fisioterapeutas e fonoaudiólogos.

Isso tudo serve para que ponham as barbas de molho todos aqueles tomados de alívio quando o governo federal e a Organização Mundial da Saúde retiraram o status de emergência conferido à zika. Em realidade, o drama apenas começou.

Agora imagine quanto teria custado ao país controlar efetivamente o mosquito Aedes aegypti, coisa que nunca logrou fazer. Ninguém sabe ao certo quanto se gasta com dengue, chikungunya e febre amarela (igualmente transmitidos pelo Aedes), mas decerto será menos do que se despendeu até aqui.

Alguém precisa fazer essa conta.

 

Link para a notícia: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2017/05/1887891-orgao-da-onu-estima-que-custo-social-da-zika-pode-alcancar-r-56-bilhoes.shtml 

Enviado por Juliana César.

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2 pensamentos sobre “Órgão da ONU estima que custo social da zika pode alcançar R$ 5,6 bilhões

  1. Muito interessante! Certamente a dúvida que fica é quem pagará esse custo, pois o cuidado com uma criança com microcefalia exige muito da família que a acolhe. Considerando o impacto financeiro direto, os custos adicionais com saúde podem pressionar o orçamento familiar ao ponto de empobrecer a família (são os denominados gastos catastróficos). Entre os custos indiretos, podemos citar a precarização do trabalho dos pais e especialmente das mães, que podem se afastar do mercado de trabalho ou aceitar trabalhar em condições desfavoráveis a fim de dar conta da criação da(o) filha(o). Realidade que é bastante preocupante quando consideramos que os afetados pelo vírus são predominantemente pessoas já em situações vulneráveis.
    O relatório elogia as políticas de redistribuição de renda, mas nós devemos ficar atentos a continuidade desses benefícios. Em tempos de cortes de gastos e reforma da previdência, incorrer em mais gastos em uma emergência que já “não existe” pode soar pouco promissor para o governo atual. Sugiro aqui a leitura de uma reportagem do nexo sobre a inclusão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) na reforma da previdência. O BPC é uma alternativa de assistência à qual as famílias atingidas poderiam recorrer, no entanto, o governo considera restringir ainda mais o acesso.

    Matéria do nexo:
    O que é o BPC, um dos itens mais polêmicos da reforma da previdência

  2. Achei muito interessante o artigo e o estudo realizado pelo Pnud por trazerem elementos novos que nos fazem questionar o tom de normalidade proporcionado pela declaração do fim emergência nacional, apontando os custos sociais de curto e longo prazo da epidemia do vírus Zika. Entretanto, sempre tenho ressalvas quando me deparo com análises de “custo social” que se baseiam apenas em números e valores. Para mim, o custo social da epidemia de Zika e microcefalia no Brasil vai muito além das altas despesas do governo, ou daquilo que se deixará de arrecadar. Não podemos quantificar o sofrimento das mulheres em situação de vulnerabilidade que durante a gestação tiveram que conviver com a angústia psicológica de não saber se seu filho nasceria com algum tipo de malformação neurológica ou que, após o nascimento da criança, não contaram com amparo necessário por parte do governo, como o acesso, por meio da rede pública de saúde, à estimulação precoce e outros cuidados que seriam fundamentais para o desenvolvimento da criança.
    Também me causou certo incômodo que, no fim do texto, o autor passa a impressão de que a solução para que o poder público fosse tão afetado pelos altos gastos com a epidemia de Zika teria sido o efetivo controle do mosquito Aedes aegypti. A informação de que o país nunca logrou controlar o Aedes está equivocada: em 1948 o país realizou uma campanha bem sucedida de erradicação do mosquito, conseguindo eliminar a febre amarela urbana e impedir a circulação do vírus da dengue até 1981. O fato de o mosquito ter voltado a circular em território brasileiro após ter sido erradicado indica que o combate ao Aedes pode não ser o suficiente para enfrentar a Zika e outras viroses que tem o mosquito como vetor. A verdade é que o surto de Zika no Brasil está muito relacionado a nossas deficiências e desigualdades estruturais de saneamento básico e de saúde pública, e a única forma de efetivamente diminuir os custos sociais com a Zika e outras epidemias que assolam o país é investindo em políticas públicas que aprimorem esses serviços.

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