A série ‘Dear White People’ tem a ver com a realidade dos negros no Brasil?

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A polêmica em torno da série “Dear White People” começou antes mesmo de sua estreia, em 28 de abril, no catálogo da Netflix. Quando o primeiro trailer da série foi lançado, ainda em fevereiro, a plataforma foi acusada por seus assinantes de promover “racismo reverso” contra pessoas brancas.
A produção, baseada em um filme homônimo lançado em 2014, aborda o dia a dia de estudantes negros em uma grande universidade norteamericana. No entanto, a série trata de questões que vão além das dificuldades que jovens negros enfrentam no ambiente universitário, como a violência a policial e os problemas de autoestima e aceitação das mulheres negras.
Embora a trama seja ambientada nos Estados Unidos, é possível traçar vários paralelos com a realidade brasileira. No Brasil, de acordo com o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, divulgado em 2016, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos.
No entanto, a violência não é o único fator a influenciar a maior taxa de mortalidade entre a população negra. Além da desigualdade econômica, que faz com que essa população tenha menor poder financeiro para pagar por um plano de saúde privado, pessoas negras enfrentam a discriminação social também no sistema público de saúde, seja pela negligência na hora do atendimento, seja pela distribuição desigual da rede do sistema de saúde, que está mais concentrada em regiões de classe média, enquanto a população negra concentra-se em regiões periféricas.
Além disso, o racismo pode exacerbar outros fatores de risco para a saúde. O estresse causado pelo desemprego, por trabalhos em condições insalubres, dificuldades financeiras e violência no ambiente de trabalho, situações ainda mais comuns entre a população negra, é apenas um deles.

Link para a notícia sobre a série: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/11/cultura/1494514148_349387.html

 

Links para as matérias sobre relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens e sobre racismo e acesso à saúde:
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/por-que-o-negro-tem-menos-acesso-saude-do-que-o-branco-no-brasil.html


Enviado por Mariana Sati de Mattos.

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4 pensamentos sobre “A série ‘Dear White People’ tem a ver com a realidade dos negros no Brasil?

  1. Considero o seu post bastante pertinente e importante de ser abordado. A série aborda situações sobre o racismo que estão sim relacionadas ao Brasil, sem dúvidas. Há muitas questões históricas, políticas e sociais que fazem com que a realidade de um negro americano seja diferente de um negro brasileiro. Porém, diferente até que ponto? A série expõe obstáculos enfrentados por um jovem negro em um ambiente acadêmico, em uma universidade e… Quão longe isso está do Brasil? Absolutamente nem um pouco. Confirmo isso com essa notícia publicada pela folha de São Paulo (http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1855107-aluna-negra-e-da-periferia-supera-preconceitos-para-estudar-na-poli.shtml?cmpid=compfb), sobre uma aluna da Escola Politécnica da USP que relata algumas de seus obstáculos enfrentados. Além disso, a violência policial é outro ponto exposto na série que está fortemente relacionado com a realidade de um negro brasileiro, como um estudo realizado pelo Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar, publicado no site da UOL (http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/70082/estudo+sobre+violencia+policial+revela+racismo+institucional+na+pm+de+sp+assista+ao+video.shtml).
    Além dessas situações levantadas, muitos outros pontos abordados na série apresentam paralelos com a realidade de um negro brasileiro. E, o fato dessa série ter gerado tanta polêmica e ter sido acusada de promover um “racismo reverso” só confirma uma realidade social, em que tanto a sociedade americana quanto a sociedade brasileira apresentam dificuldades em se reconhecer racistas, que é um ponto também abordado no decorrer da série. Acredito, por tanto, que essa série veio sim para incomodar, mas esse incômodo é necessário/fundamental para a reflexão dos comportamentos da nossa sociedade em relação aos negros, bem como dos nosso próprio comportamento (pessoal) no combate ao racismo.

  2. Gostaria de trazer um pouco desta questão da saúde mental da população negra universitária para a realidade brasileira. Em maio explodiu a campanha #NãoéNormal nas redes socais em que alunas(os) explorarem questões ligadas à saúde mental na universidade, saíram algumas noticias a respeito e no mesmo mês 5 casos envolvendo suicídio em universidades brasileiras; 2 e uma tentativa na UFMG – moradores da moradia estudantil – e 2 suicídios na UnB – ambos LGBTs, ou seja minorias na universidade por orientação sexual e classe, dessa forma a universidade ainda é um espaço absurdamente burocrata, tradicionalista e violenta. A saúde mental precisa ser debatida com seriedade, qualidade, profundidade, etc na Universidade para a elaboração de politicas estudantis para que as instituições não adoeçam seus membros. A cultura da acadêmica contribui diretamente para o sofrimento emocional e psíquico das pessoas que estão envolvidas com ela. O debate que é necessário ser levantado é o de que é possível existir produção excelência sem que a classe discente adoeça.

  3. De fato a série aborda diversos temas comuns a realidade de estudantes negros no Brasil. Como o Gabriel cita no comentário acima, a Universidade, por vezes, pode ser um ambiente perverso (segue um vídeo do Canal Muro Pequeno que nos instiga a refletir sobre essa situação e a campanha #NãoÉNormal – https://www.youtube.com/watch?v=kZiUP1aG16Y). Me preocupa a quantidade de colegas que eu conheço com problemas de ansiedade, depressão, sensação de incapacidade, distúrbios alimentares… Nesse cenário, estudantes de grupos minoritários podem ser expostos ainda mais.
    Estudamos nas aulas de saúde global que alguns determinantes sociais influenciam o modo como vivenciamos experiências de saúde e doença, além do grau de exposição a fatores de risco que precisamos lidar. Em seminário sobre depressão realizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)[1], especialistas alertaram que o preconceito e a exclusão tornam negros, pessoas trans e indígenas mais propensos a desenvolver transtornos mentais. Como aponta a professora Jaqueline de Jesus, do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), “ser negra ou negro no Brasil, em função do racismo, significa ter problemas de saúde mental constantes”.
    A Universidade não nos isola do mundo, por isso estudantes com esse perfil podem ser expostos a diferentes situações, pra além dos possíveis casos de racismo explícito de colegas ou/e professores. Nesse cenário de discussão de Cotas em Universidades Estaduais de São Paulo, por exemplo, nos deparamos com declarações infelizes sobre a suposta redução da qualidade das Universidades pela entrada desses alunos (ver o exemplo da UNICAMP http://cartacampinas.com.br/2017/05/professor-da-medicina-da-unicamp-critica-cotas-com-slogan-do-reacionario-donald-trump/). Situações como essas faz estudantes negros refletirem sobre como serão recebidos naquele espaço, potencializando a sensação de insegurança já inerente à exposição a situações novas.
    Por vezes, a discussão sobre etnia esbarra em outras questões, tal como permanência estudantil (alguns estudantes moram longe da faculdade e precisam lidar com rotinas exaustivas no transporte público, outros são pressionados a trabalhar para contribuir nas despesas de casa, etc).
    Claro que a Universidade não poderia dar conta de toda pressão que a sociedade nos impõe, mas seria interessante investir em programas de orientação psicológica em horários e locais acessíveis, permanência estudantil e campanhas sérias de combate à estigmatização. Lembrando que o combate ao racismo estrutural é muito mais do que lutar contra discursos de ódio, mas também refletir sobre como essa realidade influencia o modo como esses alunos vivenciam a Universidade de modo a agir de maneira sensível a essas questões.

    Referência:
    [1] ONU Brasil. Preconceito contra minorias aumenta chances de ter depressão, dizem especialistas. 07 de Abril de 2017. Disponível em: (https://nacoesunidas.org/preconceito-contra-minorias-aumenta-chances-de-ter-depressao-dizem-especialistas/).

    Sugestão:
    A Aliança Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos tem um guia para estudantes que vale a pena dar uma olhada (https://nami.org/collegeguide) – não encontrei iniciativa semelhante no BR.

  4. Gosto bastante de séries e acredito que ultimamente elas venham moldando boa parte da opinião de setores da classe média e classes elevadas, que possuem pouco ou nenhum contato com temáticas relacionadas a grupos minoritários. Certamente, o fato de você nascer negro, já te imputa uma série de determinantes à sua saúde uma vez que essa população é majoritariamente marginalizada e vítima de preconceito durante atendimentos. A questão aqui volta a da saúde mental. Um filme que assisti do qual não me recordo tem a seguinte passagem:
    Mamãe, o que é minoria?
    São pessoas que tem que trabalhar o dobro para receber metade. E você é negra, então terá que trabalhar o triplo!!
    Isso é um exemplo de como a saúde mental negra pode ser afetada, desde o vestibular até o mercado de trabalho, em todos os âmbitos da vida.
    A série é importante para mostrar que não hoje, existe uma diferença entre ter nascido branco e ter nascido negro, com reflexos distintos dependendo do gênero que você tenha nascido. Saúde está relacionada a questões sócio-econômicas e já está na hora de incluirmos essas interseccionalidades ao abordar o tema nas escolas e nas mídias de entretenimento.

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