13 Reasons Why – O tratamento do suicídio pela mídia e a saúde de todos nós – de Camila Sousa

13-reasons-why-personagens-netflixMuito se tem falado sobre 13 Reasons Why, a mais recente série original da Netflix. Baseada em um livro homônimo escrito por Jay Asher, a narrativa gira em torno dos motivos pelos quais a protagonista Hannah Baker opta pelo suicídio.

No Manual para Profissionais da Mídia  a respeito da prevenção do suicídio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) cita uma das primeiras associações entre os meios de comunicação de massa e o suicídio através da publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe. A partir dessa obra foi possível observar o aumento de relatos de suicídios reais cometidos através da imitação do método utilizado pelo personagem da ficção, culminando na expressão “Efeito Werther”.

Na penúltima página do documento, a OMS resume, em um quadro, uma série de recomendações sobre o que NÃO deve ser feito nos casos de exposição do suicídio pela mídia, a fim de evitar esse efeito. São elas:

  • Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas.
  • Não informar detalhes específicos do método utilizado.
  • Não fornecer explicações simplistas.
  • Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso.
  • Não usar estereótipos religiosos ou culturais.
  • Não atribuir culpas.

Nos parágrafos seguintes, vamos buscar mostrar como a série ignora as recomendações negativas do manual da OMS e, para isso, será preciso discutir diversos aspectos da trama presentes nos 13 episódios (então se você não assistiu e não deseja saber o que acontece, não leia a partir daqui).

 

> AVISO DE SPOILERS <

 

  • Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas.

Já no primeiro episódio descobrimos que Hannah reflete bastante sobre os motivos que a levaram a tomar a decisão pelo fim da sua vida. Ela lista e organiza suas razões de forma a relacioná-las com pessoas específicas em sua vida. Assim, a jovem grava uma série de 7 fitas cassetes (com lado A e lado B), resultando em 13 gravações, mas deixando o 14° lado vazio (fato importante no fim da trama). A história, então, gira em torno das fitas deixadas pela protagonista ao planejar sua morte, que podem ser comparadas às cartas suicidas.

 

  • Não informar detalhes específicos do método utilizado.

A OMS afirma que a descrição de detalhes do método na ficção deve ser evitada porque influencia a maneira como os suicídios são realizados. Mesmo assim, os realizadores da série optaram por detalhar e representar fielmente o suicídio de Hannah, justificando essa escolha pela finalidade de deixar o público desconfortável. (FONTE = https://www.buzzfeed.com/krystieyandoli/por-que-o-autor-de-13-reasons-why-defende-as-cenas?utm_term=.jsqmOE63l#.st0YqEOj8). Há uma dura crítica quanto a esse aspecto, que compara as cenas (tanto as de suicídio quanto as de abuso sexual) a tutoriais, um “passo a passo” para a execução desses atos. Com essa exibição, os idealizadores da série pretendem atingir os agressores, tentando sensibilizá-los para a situação da vítima (que sofre bullying, cyber-bullying, abuso sexual, violências físicas e psicológicas), mas acabam sendo pouco empáticos com aqueles que vivenciam tais situações e/ou lutam para a superação delas. (Para ler mais sobre empatia na série =  http://ovelhamag.com/assista-ou-nao-13-reasons/)

 

  • Não fornecer explicações simplistas.

Há grande detalhamento dos motivos que levam Hannah à sua decisão, com destaque para o comportamento das pessoas a sua volta, mas pouco se explora sobre os possíveis transtornos mentais (como a depressão, por exemplo) e os tratamentos dessas condições – a OMS recomenda que sempre se demonstrem essas relações e se enfatize a tratabilidade delas.

 

  • Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso.

A trama representa Hannah como uma alguém que busca uma vingança em sua morte, uma forma de causar dano aos demais, em vez de alguém que busca aliviar a sua própria dor, o que pode novamente ser desconfortável para quem se encontra em situação de vulnerabilidade emocional.

Os poucos personagens que enfatizam o momento de luto são seus pais (com destaque para a mãe, Olivia Baker – brilhantemente representada por Kate Walsh). Os demais parecem mais preocupados em isentar-se do sentimento de culpa e, para isso, chegam até acobertar Bryce Walker, o abusador.

 

  • Não usar estereótipos religiosos ou culturais.

Os estereótipos culturais estão em toda parte, desde a escolha das músicas* aos personagens clichês de high school norte-americanos (os atletas, os nerds, as cheerleaders, os góticos – mais especificamente a personagem Skye, entre outros).

*”Hey, Hey de Neil Young (citada na carta de suicídio de Kurt Cobain) e Love Will Tears Us Apart, cantada por Ian Curtis, vocalista do Joy Division que se matou em 1980”. (FONTE = http://revistatrip.uol.com.br/tpm/13-reasons-why-netflix-selena-gomes-cvv-centro-de-valorizacao?utm_source=facebook&utm_medium=tpm&utm_campaign=13-reasons-why-netflix-selena-gomes-cvv-centro-de-valorizacao)

 

  • Não atribuir culpas.

A culpa é o sentimento central da trama. Até o episódio 11 ficamos presos pela pergunta: “por que Clay está nas fitas?”. Sabemos que ele não se sente culpado até saber da existência das gravações, mas após começar a escutar as primeiras e receber a confirmação de seu amigo Tony de que há uma fita para ele, o jovem passa a questionar o seu papel no suicídio.

O foco maior nos agressores de Hannah e na trama de acobertamento (o famoso passar pano) não traz uma discussão sobre consentimento ou uma reflexão sobre as consequências de ações a todos os envolvidos. Vemos a culpa levar o personagem Alex Standal a querer tirar a própria vida, enquanto Bryce Walker, o abusador sexual de duas personagens essenciais para a narrativa, admite que cometeu estupros, mas não parece ser afetado ou se arrepender por suas ações.

Além das recomendações negativas da OMS, a Sociedade Americana para a Prevenção do Suicídio nos traz Recomendações Sobre Como Informar Suicídios (Link de acesso = http://afsp.org/wp-content/uploads/2016/01/recommendations.pdf) que poderiam ter sido empregadas na narrativa para atingir o objetivo de aumentar a busca por ajuda e, consequentemente, evitar a existência de novos fins trágicos como o de Hannah Baker.

As duas sugestões que destacamos são positivas, ou seja, dizem respeito ao que deve ser feito. A primeira recomenda o tratamento de casos de suicídio como casos de Saúde Pública, em vez de como casos criminais. A segunda é uma sugestão de incluir histórias de esperança e recuperação, além de informações sobre como superar os pensamentos suicidas.
Direcionadas principalmente para as mídias online, blogueiros e jornalistas no geral, essas orientações podem ser aplicadas também às ficções, como em 13 Reasons Why. Talvez a história, nesse aspecto, pudesse explorar a personagem Skye, que nos é apresentada como alguém que possa ter sobrevivido a tentativas suicidas – sua história, no entanto, não é aprofundada, sabemos apenas da existência das suas cicatrizes nos pulsos.

Camila Sousa é graduanda em Relações Internacionais da USP e aluna da disciplina Saúde Global

 

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7 pensamentos sobre “13 Reasons Why – O tratamento do suicídio pela mídia e a saúde de todos nós – de Camila Sousa

  1. Há quem defenda a série, dizendo que esta está realizando um grande papel na quebra de tabu em relação ao bullying, LGBTfobia, abuso sexual e todos os outros temas os quais a série toca – no entanto, muito na linha de seu texto, Camila, acredito que ”13 Reasons Why” se assemelha mais a um ”passo-a-passo” do suicídio do que uma cartilha de conscientização. Há uma romantização extrema da trama, inteiramente centrada na morte de Hannah – eu pessoalmente fiquei consternada quando vi uma publicação do Buzzfeed compilando os ”melhores memes sobre 13 Reasons Why”. Como uma série sobre um tema tão sério origina memes engraçadinhos?
    Outro ponto é que, desde o ”boom” da série, o CVV (Centro de Valorização da Vida) vem recebendo cerca de duas vezes mais ligações do que o comum. Há quem diga que é um efeito positivo – contanto, não há evidências de que o aumento no contato se relacione diretamente com um maior impedimento no volume de suicídios. Existem ainda alguns relatos circulando pelo Facebook de tentativas de suicídio ligadas diretamente à série: adolescents teriam tentado tirar a própria vida após assistirem episódios de ”13 Reasons Why”.
    Ao meu ver, um dos únicos reflexos positivos que a série trouxe foi a sua campanha de divulgação para o Brasil, na qual famosos, como o blogueiro Hugo Gloss, expõem sua história de ”superação” de contemplação de pensamentos suicidas e de efeitos do assédio moral e do bullying sofrido, provendo assim incentivo e informação útil para aqueles que sofrem com tais problemas.

    Fontes das informações mencionadas:
    http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2017/04/06/serie-13-reasons-why-fez-pedidos-de-ajuda-ao-cvv-dobrarem.htm
    https://www.buzzfeed.com/javieraceves/jajajana-baker?utm_term=.anxyjzQ7o#.yq1Ov6opn
    https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/13-reasons-why-personalidades-participam-de-campanha-da-netflix-contra-bullying-e-assedio/

  2. Simplesmente: adorei. Concordo muito em todos os aspectos abordados, desde as recomendações da OMS que praticamente não são foram consideradas até as sugestões feitas no final do post. Cheguei a ver muitas notícias sobre os pontos negativos dessa série, mas nenhuma com tanto embasamento quando esta.
    Porém, também cheguei a ver muitas notícias exaltando a série e recomendando-a, originadas de blogs voltados ao mesmo público da série, adolescentes, e que têm uma grande influência, como a Capricho, o que me deixa bastante preocupada.
    Precisamos falar sobre suicídio, precisamos falar sobre depressão e precisamos falar sobre diversos outros assuntos abordados no decorrer da série. Não é atoa que a OMS lançou uma campanha no Dia Mundial da Saúde sobre saúde mental, com a necessidade de se falar sobre a depressão sendo o tema de maior destaque.
    Entretanto, o que não deve se esquecer é que precisamos ser responsáveis na forma de abordagem desse e de muitos outros temas, o que ao meu ver, não ocorreu com a série 13 Reasons Why.

  3. Excelente seu texto é vai ao encontro de uma questão que me chamou a atenção na série que foi justamente a trilha sonora. Ela não trás nomes fortes da musica pop teen atual (ou talvez traga, mas como desconheço então, rsrsrs), mas traz bandas as que você mencionou e outras, muitas de pos-punk (o que carrega ainda mais as coisas e potencializa os aspectos perigosos e que a série passa por cima).

    Você cita Neil Young (que me passou batido) e Joy Division, que inclusive era uma banda que o Alex gostava ao ponto de ter um poster no seu quarto. Acredito que você lembra o que ele fez no final da série.

    Contudo o que me chamou a atenção para a trilha foi a música Cowards Starve (que surge quando Clay está sendo forçado a beber) e que pressiona de forma bizarra (assim como essas correlações ao Neil Young e Joy Division) ainda mais aqueles que por ventura estejam navegando nessa ideia de tirar a própria vida.

  4. A notícia é muito bem elaborada e promove questionamentos importantes em relação ao debate de um tema delicado tratado pela série. Gostaria de abordar alguns pontos que considerei relevantes para a discussão.

    A série é complexa. O suicídio é complexo. Penso que, algumas vezes, ao sermos colocados diante dessa complexidade, temos a tendência de externalizar os culpados ao invés de focalizar no principal parasita que consome os que sofrem com depressão: nós. Não tenho dúvidas que o suicídio é um tabu, e talvez essa tentativa de condenar a série, de culpabilizar o “jogo da baleia azul”, seja uma manifestação inconsciente, resultado do tratamento social inadequado que é reservado a esse difícil assunto.

    Não sei dizer se a série é prejudicial àqueles que se encontram numa situação semelhante à de Hannah Baker. Não me coloco numa posição confortável o bastante para afirmar ou negar isso. Acredito que a depressão se manifesta nas pessoas de diferentes maneiras e em diferentes níveis: alguns ficam violentos, outros se isolam, entre outros milhares de comportamentos que podem refletir uma saúde emocional debilitada. É possível concluir que “13 Reasons Why” é “mais” irresponsável que outros conteúdos diariamente acessados pelos jovens e que tratam de questões essencialmente vazias, que não se predispõem a elaborar um debate relevante, mas que por outro lado veiculam padrões sociais desgastados numa tentativa desastrada de impor a felicidade?

    De acordo com OMS, o suicídio já mata mais adolescentes que a AIDS. A organização também afirma que entre pessoas de 15 a 29 anos, o suicídio é a segunda principal causa de mortes ao redor do mundo. O Mapa da Violência de 2014 apontou uma alta no índice de suicídio de 15,3% entre jovens no Brasil, no período de 2002 a 2012.

    A própria OMS já disse que o suicídio precisa “deixar de ser tabu”. As recomendações da organização da OMS poderiam, quem sabe, serem entendidas não como regras fundamentais, mas sim analisadas caso a caso. Quero dizer: a recomendação de “Não usar estereótipos” quando transportada para a abordagem da série em retratar o cenário estudantil dos EUA deve ser relativizada, pois é extremamente necessário denunciar o ambiente hostil do “High School” norte-americano, que estimula a competitividade por meio de notas em prol da conquista de vagas e bolsas (qualquer semelhança com a USP é mera coincidência), e no qual os “perdedores” seguem sofrendo nas mãos dos “populares” (atletas, cheerleades, etc).

    Com isso, há de se pensar: talvez devêssemos pôr fim à caça às bruxas (“13 Reasons Why”, “baleia azul”) e cuidar da bruxa que existe dentro de nós.

    • Oi, Victor, concordo com a sua afirmação sobre a complexidade do suicídio, mas discordo quando diz que a condenação da série e do “jogo da baleia azul” sejam manifestações inconscientes que resultam do tratamento social inadequado ao suicídio. Pelo contrário, a grande maioria das críticas que li tem consciência e defendem a mudança desse tratamento social, assim como a OMS e a Sociedade Americana para a Prevenção do Suicídio, que cito brevemente ao final do texto. (Além disso, mais um texto sobre o assunto foi postado no blog, fica aqui o link: https://saudeglobal.org/2017/04/25/papai-noel-baleia-azul-e-mais-que-treze-motivos-por-marcelo-caldeira/).

      Acredito também que não devemos nos isentar da crítica simplesmente porque existem outros conteúdos mais ou menos irresponsáveis direcionados aos jovens. Dizer que as recomendações da OMS devem ser “analisadas caso a caso” significa relativizar o trabalho do Departamento de Saúde Mental da organização. Já na primeira página do documento lemos que “ele foi preparado como parte do SUPRE (Suicide Prevention Program), a iniciativa mundial da OMS para a prevenção do suicídio”, portanto essas regras têm uma razão de existir: a prevenção do suicídio. Assim, no caso que você escolheu, não faz sentido a intensa exploração de um estereótipo de High School norte-americano já muito trabalhado com a finalidade de denuncia-lo. Pra mim, a própria Hannah é uma das poucas personagens que foge desse estereótipos, mas mesmo sendo a protagonista ela é pouco aprofundada, na medida em que não se explora a possibilidade dela sofrer com algum transtorno mental, por exemplo.

      Quanto ao efeito potencialmente prejudicial da série, devemos levar em consideração a opinião de profissionais da área e ter empatia com as pessoas que sobreviveram ao suicídio (tanto uma tentativa própria quanto de pessoas próximas). A maior preocupação dos realizadores da série deve ser com esses indivíduos, uma vez que eles é que estão sendo retratados e podem ou não se sentir ofendidos com o que está sendo mostrado ali. Pessoalmente, convivo com uma pessoa que hoje consegue falar mais abertamente sobre os pensamentos suicidas que já teve no passado (inclusive tentativa), mas que optou por não assistir a série por medo de alguma influência negativa que coopere para o retorno desses pensamentos. Outro caso pessoal é de alguém que perdeu seu melhor amigo aos 14/15 anos de idade, viu a série e se incomodou com a representação dos personagens.

      Enfim, o fato de estarmos discutindo o assunto já é um avanço na direção da mudança do tratamento que o suicídio precisa ter, e isso é um mérito da existência da série. 🙂

  5. Pingback: A era da auto destruição | Saúde Global

  6. Oi camila! Muito legal seu post sobre a série e a averiguação das recomendações da OMS sobre o tema, eu pessoalmente tendo a concordar que o resultado dela é mais um desserviço à questão do suicídio que um verdadeiro advocacy. Nesse sentido, a Nova Zelândia, em abril, através de seu Classifications Body, proibiu menores de 18 anos a assistirem a série. A Nova Zelândia tem as as maiores taxas de suicídio de adolescentes dentre os países da OCDE. Segundo parecer da autoridade, a série teria “mérito significante” por tratar de problemas que são altamente relevantes para o público jovem — como bullying e violência sexual. Contudo a entidade também se mostra extremamente preocupada em relação a forma fatalística que o suicídio de Hannah foi montado. A morte da protagonista é representada não apenas lógica, mas como uma solução inevitável. Além disso, a série mandaria uma mensagem errada para aqueles que sofreram violência e abuso sexual sobre o seu futuro e o seu valor.

    a reportagem inteira pode ser vista aqui: https://www.theguardian.com/world/2017/apr/28/13-reasons-why-new-zealand-bans-under-18s-from-watching-suicide-drama-without-adult

    Enfim, parabéns pelo post, é preciso falar do tema e ter empatia!

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