Relatório sugere medidas diante de mudança climática em São Paulo

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Reunidos, pesquisadores de universidades e representantes de secretarias municipais de São Paulo contribuíram para produção do documento – Foto: Paulo Pinto via Fotos Públicas 

Jornal da USP – Texto entregue para secretaria ambiental de São Paulo nasceu de workshop organizado por grupo de pesquisa – Por Rafael Oliveira – Editorias: Ciências Ambientais, Ciências Humanas

Como a cidade de São Paulo vem se portando em relação às mudanças climáticas e o que pode ser feito para aumentar a capacidade de adaptação da megalópole? São esses os dois principais questionamentos que um relatório encaminhado no início de fevereiro à Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA) procura responder.Produzido por Gabriela Marques Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em colaboração com a professora Maria Carmen Lemos, da School of Natural Resources and Environment da Universidade de Michigan, e a arquiteta Laura Ceneviva, da SVMA e secretária executiva do Comitê de Mudança do Clima e Ecoeconomia, o relatório baseia-se nas discussões promovidas durante oworkshop Mudanças climáticas e o processo decisório na megacidade de São Paulo.

O evento, que ocorreu na FSP no final de 2016, uniu servidores de diferentes secretarias municipais de São Paulo e pesquisadores de diversas universidades — a maior parte deles integrante do CiAdapta.

CiAdapta

Projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenado por Gabriela, o CiAdapta – Cidades, Vulnerabilidade e Mudanças Climáticas: uma abordagem integrada e interdisciplinar para análise de ações e de capacidade adaptativa teve início em 2015. Desde então, tem se estabelecido como uma rede de pesquisadores interessados no tema, com participação de atores das mais variadas ciências humanas e ambientais. Além da presença de pesquisadores da USP e da Universidade de Michigan, o projeto conta com colaboradores da Unesp, da Unifei, da Ufes, da Ufam, da UFPR, da UFRGS e da UFRN.

Um projeto anterior de Gabriela tinha como foco a cidade de São Paulo. Já no CiAdapta, o enfoque ampliou-se e passou a abranger outras grandes cidades brasileiras, como Manaus, Natal, Vitória, Curitiba e Porto Alegre. Segundo a pesquisadora, em termos metodológicos, o projeto se divide em três etapas, que acontecem simultaneamente.

A primeira delas é a aplicação de um questionário aos técnicos e gestores das diferentes secretarias municipais das cidades estudadas, objetivando “entender as respostas que as cidades dão para as questões climáticas e que elementos ou variáveis interferem em uma maior ou menor capacidade de adaptação dessas cidades”.

Além disso, o CiAdapta tem como um de seus objetivos refinar o índice de vulnerabilidade socioclimática desenvolvido por dois pesquisadores do grupo, David Lapola, da Unesp, e Roger Torres, da Unifei. O indicador leva em consideração, basicamente, dados como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a densidade populacional e as projeções climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) para médio e longo prazos.

“Apesar do índice ter norteado a escolha de quais cidades estudar, as variáveis que ele considera não necessariamente trazem a complexidade do mundo real”, explica a professora da FSP, ao expor que um dos desafios do projeto é garantir um índice mais refinado, que capte melhor a variabilidade socioclimática.

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Gabriela Marques Di Giulio, professora da FSP: meio ambiente e mudanças climáticas são temas considerados importantes pela população, mas falta internalizar as questões e levá-las para o cotidiano – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Uma das formas de aprimorar o índice se encontra na outra etapa do projeto: a realização de workshops com os técnicos e gestores das cidades estudadas. São Paulo, a cidade piloto, foi justamente a primeira a receber um evento do tipo.

Relatório

Com base nas discussões promovidas no workshop, foi construído o relatório entregue à SVMA. Segundo a professora Gabriela Di Giulio, o texto levanta seis pontos centrais para a discussão do tema mudanças climáticas em São Paulo, relacionando-os com a literatura sobre o tema e em uma linguagem palatável e acessível.

O primeiro é a incorporação das projeções climáticas e dos dados na elaboração de ações a serem realizadas na cidade, com foco nas políticas no-regrets. “São aquelas políticas que, independentemente de ter algum efeito sobre a questão climática, têm efeitos em várias frentes, e as cidades podem investir nelas que só tende a melhorar. São medidas alinhadas à questão ambiental, mas que possibilitam efeitos em outras questões”, explica.

O segundo ponto levantado pelo texto é a “necessidade de conhecimento mais aprofundado tanto sobre o impacto das mudanças climáticas na cidade quanto em relação a quais respostas e que elementos interferem na capacidade de adaptação da cidade”. O terceiro aspecto, bastante debatido pelos técnicos no evento, é a união entre a necessidade de se adaptar à questão climática com uma transformação econômica. “Escolhas na cidade que priorizem tanto a descarbonização, que a gente está chamando de ‘economia verde’, quanto o atendimento aos interesses da população numa perspectiva de melhorar a qualidade de vida”, aponta Gabriela.

Outra recomendação do relatório entregue à SVMA é a necessidade de se utilizar do peso econômico e político que a cidade de São Paulo tem nacional e internacionalmente para chamar a atenção para a questão climática, “para servir como exemplo para outras cidades”. Além disso, o texto sugere a criação de uma instância institucionalizada e vinculada à Secretaria do Verde e Meio Ambiente para tratar da questão da mudança do clima, com o “estabelecimento de uma plataforma que integre conhecimentos e ações das secretarias municipais e oportunize maior diálogo e interação com instituições de pesquisa”.

Por fim, uma última questão trazida pelo documento é o momento de transição política. Segundo a professora, “é a oportunidade de aproveitar o momento para incorporar essas perspectivas e projeções climáticas na estrutura normativa da administração pública”.

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