Como a obra de Caio Fernando Abreu retratou a epidemia de HIV dos anos 80

Nexo – Juliana Domingos de Lima

A descoberta do vírus HIV foi tratada timidamente pela literatura brasileira da época. Abreu assumiu o desafio de levar o assunto para a ficção

FOTOS DE BOB WOLFESON EM CENA DO DOCUMENTÁRIO 'PARA SEMPRE TEU, CAIO F.', SOBRE O ESCRITOR

FOTOS DE BOB WOLFESON EM CENA DO DOCUMENTÁRIO ‘PARA SEMPRE TEU, CAIO F.’, SOBRE O ESCRITOR

Em 1994, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicou uma série de quatro crônicas em sua coluna no jornal “O Estado de S. Paulo”. Seus títulos eram “Primeira, Segunda e Última carta para além dos muros”, publicadas entre 21 de agosto e 18 de setembro daquele ano; a última delas, “Mais uma carta para além dos muros”,  saiu em dezembro de 1995, dois meses antes da morte do autor, que havia descoberto ser portador do vírus HIV dois anos antes.

Elas contam, em “estágios” e com interlocução direta com o leitor, a angústia e sofrimento do diagnóstico da doença, o cotidiano no hospital e as reflexões a respeito da morte que passam a tomar conta do paciente.

As cartas publicadas na imprensa, assim como alguns contos dos escritor, como “Depois de Agosto”, retratam um momento histórico (no qual o tabu e a desinformação relativos ao vírus prevaleciam) de forma “emocional e chocante, conquistando muitos leitores e marcando a literatura brasileira dessa época”, segundo o artigo “Nos limites entre o real e o ficcional: a Aids na obra de Caio Fernando Abreu”, de Letícia Gonçalves Ozório Silva, publicado na revista acadêmica “Criação e Crítica” em 2016.

Autoficção e intimismo

Segundo o artigo de Letícia Gonçalves Ozório Silva, os depoimentos sobre o vírus HIV são raros na literatura brasileira, mesmo entre escritores soropositivos. Ela aponta como explicação para esse “silêncio” o desconhecimento, preconceito e a exploração sentimentalista da mídia acerca da doença no período de sua descoberta, responsável por desmotivar escritores da época a se dedicarem a  textos pessoais sobre o assunto.

Nesse contexto, Caio Fernando Abreu não só o fez como adotou um estilo confessional e delicado, como define a pesquisadora. Na maioria das vezes, a AIDS aparece de forma implícita, intimista e pessoal.

“Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Quando souber finalmente o que foi, essa coisa estranha, saberei também esse jeito. Então serei claro, prometo. Para você, para mim mesmo. Como sempre tentei ser. Mas por enquanto, e por favor, tente entender o que tento dizer.”

Parágrafo de abertura da “Primeira carta para além dos muros”

Crônica publicada no “Estado de S. Paulo” em 21 de agosto de 1994

A decisão  de incorporar o tema ao texto de forma subliminar dialoga, segundo a pesquisadora, com a escolha de abordá-lo de forma diferente em relação à narrativa romanesca dos noticiários. Abreu evitou que a doença fosse protagonista da história.

Mesmo que a experiência pessoal do autor tenha contribuído de alguma forma para que ele  decidisse a tratar do tema, não há consenso entre os críticos literários  se o texto de Caio Fernando Abreu é autobiográfico ou ficcional.

“Muitas vezes, sua obra foi tratada pela crítica como autobiográfica, pelo fato de o autor transpassar nela vivências e gostos que, para quem conhece um pouco de sua biografia, são pessoais”, diz o artigo de Ozório Silva.

A presença do autor no estilo dos contos, seja na fala do narrador, nas ações do enredo ou nas experiências de personagens – como a luta contra a ditadura militar e a descoberta da condição de portador do vírus HIV – pode conduzir a essa classificação. Mas também a uma outra: a de “autoficção”. Nesse gênero, em vez de traduzir à risca situações da biografia do autor, suas experiências pessoais e subjetividade estariam expressas nas características de personagens criadas por ele, na ficcionalização, em sua produção literária, de fatos e acontecimentos reais.

O estudo de Ozório Silva mostra que o rótulo de “autobiográfico” trazia outros, como o de “literatura gay”, que incomodavam o escritor. A redução de sua produção a apenas um tema, ou à sua condição de soropositivo, lhe dava a impressão de que seus livros não eram levados suficientemente a sério pela crítica.

Essa produção foi marcada, segundo o artigo publicado na revista “Criação e Crítica”, por temas que chocavam e confrontavam o leitor, “tocando na ferida da sociedade”: homossexualidade, drogas, loucura, violência e prostituição eram alguns deles.  O autor atribuía o silêncio da Academia e da crítica em relação a sua obra ao desconcerto com  aquilo que ele definia como “não-literário” e pop em sua obra, sem reverência a autores reconhecidos da literatura.

“Caio Fernando Abreu fez parte da geração que de 1960 a 1980, no Brasil, levou adiante os movimentos de liberação cultural e sexual, por meio, sobretudo, da contracultura. Referências às várias manifestações da sexualidade, bem como às drogas, aos artistas pops, ao movimento hippie, entre outros ícones da contracultura são recorrentes em sua obra, desde o início de sua carreira. Num gesto político, Caio Fernando Abreu incorpora em sua obra diversas manifestações culturais características de seu tempo”

No artigo “A AIDS nas crônicas de Caio Fernando Abreu”

Escrito por Milena Mulatti Magri e publicado na revista “Estação Literária”

O foco da mídia na vida pessoal do autor desviava, segundo a opinião dele próprio, a atenção de sua obra. O diagnóstico da doença do escritor tornou-se um assunto da mídia, mais do que sua escrita.

“Sinto que houve, primeiro, quando me declarei soropositivo, um espanto, depois um movimento meio de solidariedade, misturado de piedade com escândalo. E acho que Ovelhas Negras não recebeu atenção crítica. Ganhou muita nota, teve muita entrevista e aí os caras só queriam saber sobre AIDS, era um absurdo. Aí parei de falar. Depois [de aparecer no programa] do Jô Soares, parei. Porque o meu trabalho literário continua. […] O resto da crítica falava sobre um escritor com AIDS e tal, inclusive nas críticas da reedição de Morangos Mofados. O texto não foi levado em consideração”

Caio Fernando Abreu

Em entrevista a Marcelo Bessa

Memória coletiva

Nos anos 1960 e 70, a produção literária brasileira retratou a repressão e a resistência da juventude no contexto da Ditadura Militar.  A década de 1980, como define o artigo, foi um período de melancolia e descrédito. É nesse contexto, até sua morte na metade da década de 1990, que Caio Fernando Abreu escreve.

Uma contribuição importante do autor é a perspectiva única e própria dada, por meio da literatura, a um acontecimento no momento em que ele se desenrolava. É o que diz o professor Antônio Hohlfeldt no livro “Conto Brasileiro Contemporâneo”.

Esse retrato tornou Caio Fernando Abreu, diversas vezes, uma das vozes que contaram a história de sua geração, segundo o artigo escrito por Letícia Gonçalves Ozório Silva.  “A história da doença do autor representou, de certa forma, uma perspectiva da história da AIDS no Brasil, pois a produção literária do escritor faz parte da memória coletiva”, escreveu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s