Estupro coletivo compartilhado: a união do machismo com a busca por likes

debora

“Quem assiste não são só esses violentadores, mas uma audiência que quer ver o crime”

Para especialistas, estupros coletivos seguidos da divulgação da cena, como o que vitimou menina de 11 anos em Recanto das Emas, é resultado da combinação de uma cultura machista com o desejo de ser popular na internet

Correio Braziliense, Rebeca Oliveira –  O estupro coletivo de uma menina de 11 anos por um adulto de 20 e quatro adolescentes, no Recanto das Emas, chocou não só o Distrito Federal, mas todo o país — o assunto se manteve como um dos mais comentados no Twitter neste sábado (14/1), um dia depois de o crime, que ocorreu na terça-feira, ser divulgado. Além da brutalidade do episódio, chama a atenção também o fato de os suspeitos do crime terem filmado a ação e a divulgado pela internet, de maneira semelhante a um caso ocorrido no Rio de Janeiro, em maio do ano passado.
Para a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética Direitos Humanos e Gênero, há dois pontos que chamam a atenção neste crime. “O estupro coletivo talvez possa ser explicado de duas maneiras. A primeira é como um fenômeno que sempre existiu e nós não sabíamos. Certamente, ele não é tão comum como o estupro de um homem a uma única mulher, ou como os estupros que acontecem na casa ou na rede de pessoas conhecidas. Mas, agora, (o estupro coletivo) ganha as notícias e a nossa atenção”, analisa.

A especialista prossegue dizendo que a segunda maneira de explicar o episódio é percebendo que o estupro coletivo e individual têm a mesma origem, que seria uma compreensão equivocada e injusta de que homens têm direitos sobre o corpo da mulher. “(Neste caso), eles operam em bando e são todos muito jovens, naturalizando a espoliação do corpo de uma menina. É a isso que chamamos de opressão de gênero, de desigualdade de gênero”, afirma Debora.

Portanto, é a combinação dessa visão machista com as novas tecnologias — que facilitam o acesso a imagens de horror cada vez mais explícitas — que produz episódios como o do Distrito Federal e o do Rio de Janeiro, analisa a professora. “Eu diria que nós estamos vivendo um grande momento imagético, em que a prova da realidade existe quando ela é exibida. O estupro é um crime de horror, que será exibido não só entre a horda desses jovens homens violentadores, mas também para uma grande audiência. Quem assiste não são só esses violentadores, mas uma audiência que quer ver o crime,  porque nós estamos vivendo um momento em que temos uma redução da imaginação”, avalia.

Audiência

Diego Iraheta, mestre em mídias digitais pela Universidade de Sussex, no Reino Unido, faz uma análise semelhante. Segundo ele, o fato de o crime ser filmado e compartilhado indica que o homem e os adolescentes o veem como uma “conquista”. E esse feito pode ser compartilhado na internet, um veículo que  possibilita a criação de microaudiências, retroalimentadas pela busca de likes e visualizações.

“Se um homem estuprou uma mulher ou uma menina, como no caso do Distrito Federal, ele tem consciência de que aquele é um ato criminoso. Mas, se ele faz isso e se diverte com o crime junto a seus amigos adolescentes, é porque o encara como uma ‘conquista’, uma ‘vantagem’. E, daí, é natural que ele queira dividir com os outros. Mostrar como ele foi ‘esperto’ o suficiente para protagonizar aquele ato — mesmo que seja um crime hediondo”, explica.

“Então, ele grava o estupro e compartilha com sua microaudiência. Por sua vez, essa audiência menor vai espalhando o conteúdo e, quando se vê, o vídeo já viajou a internet e os celulares de milhões. E a ‘vitória’ pessoal dele, uma monstruosidade, foi difundida, retroalimentando seu orgulho. Foi o que aconteceu em Brasília e no Rio. Ostenta-se a intimidade, a ‘vitória’, a perversidade, uma prática hoje corriqueira — seja entre os cidadãos honestos, os criminosos, as mentes saudáveis e as doentes”, adverte Iraheta.

Nas escolas

Apesar de avanços no debate sobre o feminismo, principalmente na indústria cultural, na qual artistas conseguem dar vazão a temas como o empoderamento da mulher e o fim da violência de gênero, as mulheres no Brasil continuam sendo vítimas de constantes ataques. Em Juiz de Fora (MG), em junho do ano passado, uma garota de 13 anos foi estuprada por pelo menos oito pessoas após uma festa junina. Os responsáveis também compartilharam as imagens nas mídias digitais. Mais recentemente, na noite de ano-novo, o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújomatou a ex-mulher, o filho e outras dez pessoas em Campinas.

Para Debora Diniz, embora haja variações, a violência afeta mulheres de todas as classes sociais no país. “Nossas diferenças culturais vulnerabilizam cada uma dessas mulheres ou meninas de um jeito particular. Mas a dificuldade existe para quem nasce marcada pela desigualdade do feminino”, comenta.

Questionada sobre o que poderia ser feito para barrar que meninos cada vez mais jovens se associem a esse tipo de crime, a pesquisadora é incisiva. “Eu não teria outra resposta, é uma resposta muito simples e direta: nós precisamos falar de gênero nas escolas.”

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