Novo número da revista Ciência e Saúde Coletiva aborda importância da pesquisa qualitativa em saúde

Ciência e Saúde Coletiva, Editorial Este número temático tem como objetivo dar visibilidade às pesquisas qualitativas desenvolvidas no campo das práticas em saúde. A justificativa desta escolha é a pouca valorização deste método por grande parte dos profissionais de saúde, principalmente os médicos. Os estudos quantitativos são hegemônicos neste campo e as abordagens compreensivas pouco consideradas.

Os estudos qualitativos publicados em periódicos da área da saúde são minoria, principalmente entre os que são conduzidos por médicos. Por outro lado, os raros profissionais de saúde que trabalham com o método qualitativo muitas vezes são criticados pela superficialidade com que abordam a realidade social e pela incapacidade de debater dados empíricos e de aplicar a teoria de forma consistente e aprofundada.

Ao longo dos anos evidencia-se maior valorização e abertura para publicações de cunho qualitativo em revistas da área médica, mas ainda muito aquém do desejável. Há também o reconhecimento das contribuições que os estudos desenvolvidos com este método proporcionam.

A saúde em qualquer época, lugar e classe social tem distintas representações, assim como depende de valores individuais, religiosos e filosóficos. Deste modo, as concepções de saúde e de doença estão assentadas na conjuntura social, econômica e cultural de cada período histórico. Essa perspectiva exige a aproximação com aspectos não quantificáveis da experiência do adoecer ou manter a saúde.

Entretanto, o caminho de incorporação do método qualitativo à investigação em saúde, em especial a que orienta a prática médica, não tem sido simples, seja pelo mito da quantificação como parâmetro único de cientificidade e quase sinônimo de verdade ou pelo desconhecimento acerca do objeto da pesquisa qualitativa. É um equivoco pensar que a pesquisa qualitativa é direcionada a capturar experiências singulares e, como tal, não generalizáveis. Em realidade, uma das principais potencialidades dos estudos qualitativos é o desvelamento dos sentidos que orientam as ações e as interações humanas. Decorrente desta, outra riqueza dos estudos qualitativos é a possibilidade de desconstrução da dicotomia entre objetividade e subjetividade: as realizações humanas exigem a objetivação das subjetividades; do mesmo modo, valores atribuídos e condições de possibilidade destas realizações, inclusive a Ciência, são construções humanas, históricas e sociais.

O entendimento da doença como um objeto também social não exclui a materialidade nos corpos. Trata-se, portanto, de integrar conhecimentos que provêm de campos distintos, as ciências biomédicas e as ciências sociais e humanas, para dar conta das continuidades, descontinuidades e intercessões que existem entre os objetos saúde, doença e adoecimento.

Pesquisadores qualitativistas se queixam da dificuldade de publicar os resultados dos seus trabalhos em revistas da área da saúde. Essa dificuldade repousa tanto na carência de formação dos profissionais de saúde em temas das ciências humanas, resultando em trabalhos muitas vezes limitados do ponto de vista teórico ou metodológico, quanto na relutância de alguns editores em reconhecer o seu valor.

Vários periódicos da área médica ainda se mostram econômicos e às vezes até hostis quanto à veiculação de artigos que trazem resultados de estudos qualitativos. Como se a prática médica prescindisse, de estudos que enfoquem a doença, o sofrimento e a adesão às terapias como resultados de dinâmicas sociais, incluindo a política e a organização das práticas e serviços.

Este número apresenta artigos resultantes de investigações qualitativas conduzidas por equipes que incluem médicos. A participação de médicos em estudos de natureza qualitativa junto com pesquisadores de outras áreas pode contribuir para a redução da distância que existe entre a saúde coletiva e a prática clínica e também para a formulação e implementação de políticas de saúde. Esperamos que seja útil.

 

Stella Regina Taquette 1 ,

Wilza Vieira Villela 2

1 Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

2 Universidade Federal de São Paulo

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