Cientistas preocupados: epidemia de zika deixa de ser emergência global

Diário de Pernambuco –  Depois de mobilizar o mundo em torno dos perigos do zika, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em 19 de novembro, o fim da emergência global em função do vírus. Agora a doença é considerada crônica no Brasil e as entidades governamentais deverão se mobilizar para traçar estratégias de longo prazo.

Com a proximidade de mais um verão, a decisão causa polêmica entre pesquisadores, profissionais de saúde, familiares de crianças microcéfalas e entidades da sociedade civil que lutam por acesso aos serviços. Os receios vão de uma falsa sensação de segurança à redução dos investimentos em estudos.
O Ministério da Saúde manteve o alerta nacional. Até o fim deste ano, o Recife lançará um novo plano de combate ao mosquito, que deverá trazer novidades nas formas de controlar os focos. Em novembro, representantes da Secretaria de Saúde estiveram no Sertão visitando a empresa Moscamed, que trabalha com mosquitos estéreis. A capital ainda estuda se manterá situação de emergência.

Desde 2007, a transmissão do zika foi reportada em 75 países. A partir do segundo semestre de 2015, o vírus entrou em pauta prioritária mundial de saúde, depois que casos de microcefalia associados à infecção foram notificados no Brasil. Desde então, 69 países reportaram transmissão e 28 tiveram casos de microcefalia ou malformação potencialmente associados ao zika, que é transmitido pelo Aedes aegypti, como a dengue e chikungunya. Foi neste cenário que, em fevereiro, a OMS decretou emergência sanitária mundial. Com a retirada do alerta, a organização afirmou que um departamento ficará repsonsável por buscar soluções e negou estar “rebaixando” o assunto.

Pernambuco, epicentro do problema, tem 394 casos confirmados e 2,1 mil notificados de microcefalia. O infectologista e membro do Comitê de Arboviroses do Ministério da Saúde Carlos Britto considerou a decisão precipitada. “Ainda é cedo. Alguns países ainda podem ser atingidos por grandes epidemias. O ideal seria prorrogar por mais um ano, até para ver como é o comportamento em relação aos quadros neurológicos”, afirmou. Para ele, há ainda a possibilidade de a população passar a conviver com uma falsa sensação de que a doença está sob controle.

“É preciso entender o comportamento do vírus, por exemplo, em uma tríplice epidemia. O zika ficou no Brasil restrito a quatro ou cinco estados do Nordeste e em 2016 não teve tanto espaço por causa da chikungunya. Há uma parcela grande da população que ainda não foi exposta a ele”, sinalizou Britto. Em Pernambuco, foram notificados neste ano 11 mil casos de zika, dos quais 202 foram confirmados e 793 descartados.

Para a especialista em neonatal e coordenadora do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim (Ipesq), em Campina Grande (PB), Adriana Melo, é importante que o Brasil tenha mantido a situação de emergência. “Quando começou no Nordeste, achamos que ia chegar em outros estados muito forte e também em outros países, como a Colômbia. Mas isso não aconteceu, então a OMS deve ter baseado a decisão em dados consistentes”, lembrou.

A médica ressaltou que ainda há lacunas a serem respondidas – como o porquê de os casos de síndrome congênita terem se concentrado no Nordeste – e que a retirada do alerta pode prejudicar o andamento de pesquisas na área de vacinas e diagnóstico. “Se o mundo não se preocupar, o Brasil ficará só e os recursos serão só os nossos”, acrescentou Melo, que acompanha 117 crianças na Paraíba.

Ações continuadas

O Recife foi uma das primeiras cidades a encabeçar a luta contra o mosquito Aedes aegypti, vetor do zika vírus. Segundo o secretário de Saúde, Jailson Correia, o município já executa ações de resposta sustentada, o que determinou a partir de agora a OMS. “Conseguimos baixar o Levantamento Rápido do Índice de Infestação (LIRAa) para menos da metade da média histórica. Hoje estamos com uma situação de controle, mas que exige preocupação. Com a chegada do verão, e a intercalação entre chuvas e temperatura elevada, há a possibilidade de retorno da circulação dos três vírus”, disse Correia.

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