Revista USP lança o dossiê “Saúde Urbana”

portal20160328_33Jornal da USP, USP Online Destaque – Edição debate a importância das estratégias políticas e sociais para garantir a assistência à população e a vida nas grandes cidades

No ritmo acelerado do conhecimento científico e tecnológico, o mundo começa a enfrentar sérios problemas causados pelo aquecimento global, entre eles as doenças provocadas pela densidade populacional de mosquitos. Diante dessa realidade, a nova edição da Revista USP lança o dossiê “Saúde Urbana”, que debate a importância das estratégias políticas e sociais para garantir a assistência à população e a vida nas grandes cidades.

Apresentar um panorama sobre a saúde nas grandes metrópoles e os desafios a serem enfrentados para priorizar a qualidade de vida é a meta do dossiê “Saúde Urbana”, publicado na nova edição da Revista USP, que acaba de ser lançada pela Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP. Organizado pelo professor Eliseu Alves Waldman, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, reúne artigos de especialistas que possibilitam ao leitor compreender as diferentes dimensões que envolvem o tema. E também oferecem subsídios para identificar prioridades para o planejamento de políticas públicas e estratégias sociais. Um grande desafio que deve ser travado pelo mundo globalizado do século 21.

“O século 20 caracterizou-se por um rápido avanço do conhecimento científico e tecnológico, assim como por profundas transformações sociais, econômicas e demográficas”, observa Waldman. “Tais mudanças alcançaram maior velocidade nas últimas décadas, acompanhando o processo de globalização e o aumento do intercâmbio internacional em diferentes campos de atividades, os quais influenciaram fortemente as condições e estilo de vida atuais do homem, em todo o globo.”

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Waldman observa que o crescimento rápido e não planejado dos centros urbanos dos países de baixo e médio desenvolvimento está associado a pobreza, desemprego, moradias inadequadas, aglomeração, doenças transmitidas por vetores, aumento de tráfego de veículos, degradação e poluição ambiental. “Por sua vez, a infraestrutura urbana é insuficiente para responder às demandas de saneamento, educação e saúde dessas populações.”

Uma falta de infraestrutura grave, que o dossiê pontua e alerta. “Tal panorama destaca a diversidade e a complexidade das questões relativas à saúde nas cidades como uma prioridade em políticas públicas em todo o globo, ficando claro também que o equacionamento adequado de soluções para tais problemas deve envolver vários setores, especialmente saúde, ambiente, habitação, energia, transporte e planejamento urbano”, destaca Waldman.

Zika vírus

Na apresentação do dossiê “Saúde Urbana”, o professor Waldman destaca a preocupante incidência do zika vírus, transmitido pelo mesmo mosquito vetor da dengue e da chikungunya, o Aedes aegypti, presente especialmente em áreas urbanas. Situa o Brasil como o epicentro de uma pandemia que já atingiu a Oceania, vários países latino-americanos e do Caribe e ainda Cabo Verde, na África ocidental. “Sua presença no Brasil foi confirmada em maio de 2015 e, poucos meses depois, o vírus já havia se disseminado pela maioria dos Estados brasileiros e boa parte dos países da América Latina e Caribe. Vale lembrar que tal fato ocorreu pouco mais de um ano após a emergência do vírus chikungunya na mesma região.”

O especialista aponta a preocupação das autoridades sanitárias brasileiras e de organismos internacionais diante da rapidez da disseminação do vírus e, pelos registros no Brasil, do aumento da ocorrência de microcefalia, possivelmente associada ao zika. “Ainda que faltem as conclusões dos estudos necessários para a confirmação do nexo causal entre a infecção e a malformação congênita, a potencial gravidade dos fatos levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a cogitar declarar estado de emergência em saúde pública de importância internacional.”

 
O editor da Revista USP, Francisco Costa, destaca a importância da OMS, lembrando que ela foi fundada em abril de 1948 a partir de um movimento de delegados brasileiros, que pretendiam criar um organismo internacional de saúde pública de alcance mundial. “É incrível sabermos que o Brasil, desde o início, manteve laços estreitos com a organização.”

Costa reafirma os problemas do Sistema Único de Saúde (SUS), que precisa de aprimoramento urgente, e aponta a saúde sucateada e cada vez mais precária. “É difícil entender como o Brasil, país proponente da própria OMS, tem, não é de hoje, um sistema de saúde trôpego, que penaliza seus cidadãos, uns mais, outros menos, de norte a sul e de leste a oeste.”

 

Artigos propõem estratégias para garantir o bem-estar

Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos

Os artigos reunidos no dossiê “Saúde Urbana”, da nova edição da Revista USP, podem ser referência para estratégias de ação. A expectativa do organizador do dossiê, professor Eliseu Alves Waldman, do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, é de que as pesquisas e reflexões apresentadas “possam identificar potenciais prioridades para políticas públicas voltadas à promoção da qualidade de vida das populações urbanas e da qualidade em saúde”.

O primeiro texto, “Urbanização, globalização e saúde”, assinado pelas professoras Helena Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP e Heliana Comin Vargas, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), também da USP, discute interfaces entre conceitos de saúde urbana e de qualidade ambiental, apresentando bases conceituais e enfocando elementos que compõem a qualidade ambiental como fator determinante de saúde.

Em seguida, Rita Barradas Barata, conselheira para a América Latina e Caribe da Associação Internacional de Epidemiologia, discute a complexidade das metrópoles do ponto de vista dos processos sociais e urbanos, enfatizando a constituição de diversos grupos socialmente vulneráveis e o impacto dessas condições sobre o estado de saúde, exposição à violência, experiência de discriminação e alguns comportamentos de risco para a saúde.

“O direito à saúde de pessoas em condição de vulnerabilidade em centros urbanos” é o tema do artigo de Fernando Aith, professor da Faculdade de Medicina da USP e de Nayara Scalco, bióloga e doutoranda da FSP. Os especialistas apresentam uma análise crítica sobre a organização do Sistema Único de Saúde (SUS) para a atenção à saúde daquelas pessoas.

O crescimento da interface entre mobilidade humana e saúde global é apresentado por Deisy Ventura, professora do Instituto de Relações Internacionais (IRI) e da FSP da USP. O artigo propõe a retomada da centralidade do Regulamento Sanitário Internacional como a melhor forma de garantir o direito de migrar durante as crises sanitárias de alcance global.

Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos

“Violência urbana e saúde” é o título do artigo de Maria Fernanda Tourinho Peres, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, e de Caren Ruotti, doutoranda pelo Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ambas são pesquisadoras do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. O foco do artigo é problematizar a conformação da violência urbana e sua centralidade nas percepções e vivências cotidianas da população no Município de São Paulo.

O sexto artigo, “Mudanças climáticas e saúde urbana”, é assinado por Eunice Galati, Tamara Camara, Delsio Natal e Francisco Chiaravalloti Neto, professores do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e do Mestrado Profissional em Entomologia em Saúde Pública, ambos da Faculdade de Saúde Pública da USP. A pesquisa apresenta aspectos de como o aquecimento global pode impactar na saúde pública, exigindo maiores esforços na vigilância e controle.

O dossiê é finalizado com a análise da professora Marcia Faria Westphal e da doutoranda Sandra Costa Oliveira, da Faculdade de Saúde Pública da USP. O artigo apresenta o referencial no qual a estratégia de “cidades saudáveis”, proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), se apoia. Destaca dados da realidade urbana brasileira atual que indicam a necessidade de mudar o enfoque de intervenção em saúde urbana, tendo em vista a complexidade dos problemas e das estratégias necessárias para ampliar o desenvolvimento das potencialidades locais.

Leila Kyiomura / Jornal da USP

Revista USP, número 107, dossiê “Saúde Urbana”, organizado por Eliseu Alves Waldman, publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, 144 páginas, R$ 20,00.

Leila Kyiomura / Jornal da USP

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