Para pesquisador, Anvisa favoreceu vacina estrangeira contra dengue

Karime Xavier/Folhapress  - Isaías Raw, médico e bioquímico que já foi diretor do Instituto Butantan e da Fundação de mesmo nome

Karime Xavier/Folhapress  
– Isaías Raw, médico e bioquímico que já foi diretor do Instituto Butantan e da Fundação de mesmo nome

Folha de S.Paulo – Durante a gestão do médico e bioquímico Isaias Raw, 88, o Butantan virou referência internacional na produção de vacinas. Um dos resultados disso é a vacina contra dengue que está sendo desenvolvida em parceria com os NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA) e que acaba de entrar na última fase de estudo antes de ser lançada.

Responsável pelo desenvolvimento de vacinas contra a hepatite B e a DTP (Tríplice bacteriana –difteria, tétano e coqueluche) no Brasil, Raw diz que o desenvolvimento da vacina contra dengue do Butantan foi atrasado em pelo menos 18 meses, diz, por má vontade da Anvisa. A vacina da multinacional francesa Sanofi Pasteur já passou por estudos e está começando a ser produzida. “Essa vacina é uma porcaria”, afirma.

A Anvisa diz que não houve favorecimento à Sanofi Pasteur e que não há ainda como comparar a eficácia entre as vacinas, já que a do Butantan ainda está em fase de estudos.

Professor emérito de bioquímica da Faculdade de Medicina da USP, Raw deu aulas de 1950 a 1969 – quando foi aposentado, aos 42 anos, pelo regime militar. Depois disso, passou dez anos em instituições dos EUA. Quando voltou ao país, em 1979, foi para o Instituto Butantan, onde fundou o Centro de Biotecnologia e se tornou diretor, em 1983.

Há 30 anos, insiste na defesa da inovação como meio para fazer do Brasil um país autossuficiente em vacinas. “Alguns cientistas acham que a pesquisa acaba na hora em que se publica o artigo, mas aquilo não vira um produto”, critica. Segundo ele, o instituto sofre com o assédio financeiro das multinacionais, que “dão dinheiro para fechar a fábrica”, dificultando o desenvolvimento de produtos.

A seguir, trechos da entrevista que Isaias Raw deu à Folha, em sua sala no Butantan:

*

Folha – Como era a produção de vacinas quando o senhor chegou ao Butantan?
Isaias Raw – O instituto era uma decadência total. Não se fazia nem soro antiofídico. Não produzia quase nada. Era um lixo completo. Tive que reformular tudo.

Por que o Brasil não e autossuficiente na produção de vacinas?
Alguns cientistas acham que a pesquisa acaba na hora em que se publica o artigo, mas aquilo não vira um produto e não contribui para a autossuficiência.
Se você não tem autossuficiência, você inova. Uma coisa que eu inventei é chamar o que acontece de “modelo Coca-Cola”, nada contra o refrigerante. É que eles jamais contam o que tem no xarope, que é vendido aos fabricantes locais, que põem água na garrafa e vendem Coca-Cola. É o que acontece com as vacinas.
O modelo de importação de tecnologia não é verdadeiro: você é apenas um envasador. O sujeito fica dependente o resto da vida de comprar o “xarope” a granel. Sua única função é diluir, rotular, e colocar “fabricado no Brasil”. Por ser instituição pública, não é pago imposto. Uma leve investigação e disso aí vai sair outra [crise da] Petrobras.

Esse modelo é um reflexo de uma má administração?
O Primeiro Mundo achou que devia profissionalizar essas coisas e que a instituição pública não devia se meter. Virou o negócio das firmas privadas, que passaram a ser gigantescas e dominar o mercado completamente. O Butantan permanece como a única exceção.
É um vício dizer que uma instituição como a nossa deve ser dirigida por um sujeito administrador de empresas. Eles não entendem nada e não podem decidir nada. Isso ocorre no mundo inteiro. Eles só olham quanto deu de lucro no final.

Mas nem sempre médicos e pesquisadores tem competência para administrar.
Estou de acordo. É um negocio que não se aprende no livro. Não adianta fazer ensino profissionalizante numa escola da esquina que não vai aprender a fazer, desenvolver, e inovar. A diferença do Butantan é que nós passamos a inovar, e passamos a ser perigosos no mundo.
O Brasil estava dando o exemplo de que um país em desenvolvimento pode competir e inovar, mas indústria internacional na realidade quer vender o granel, não competir.
Na realidade, foi o Butantan que abriu caminho pra poder levar a pesquisa que faz na bancada para a sociedade. Criou-se um prestígio enorme. Eu vou no Ceasa e o vendedor de banana pergunta “Como vai a vacina, doutor?” porque ele sabe o que o Butantan faz. É diferente de outros laboratórios, em geral federais, que não fazem, não vão fazer e nem querem fazer nada. Eles dizem que “vão receber a tecnologia” em cinco anos e esses cinco anos não acabam nunca. É um processo que não tem fim.

Por que o sr. diz que houve demora para a aprovação dos estudos vacina contra a dengue do Butantan?
Levei seis estudiosos para mostrar ao diretor da Anvisa, Dirceu Barbano, que a vacina tinha condições de avançar para a próxima fase. Ele falou “essa semana eu libero o ensaio”. Oito meses depois ele não tinha liberado o nosso, mas tinha liberado o da Sanofi. Antes disso, a Sanofi tinha feito uma oferta para o governo do Estado de São Paulo que eles ficariam donos do parque industrial do Butantan. Depois desmentiram a história.
Quando eu saí da fundação, pararam a produção integralmente, porque tinham que preparar a venda.
O Butantan dizer que ia inventar de novo a tecnologia é uma ameaça para eles. A tecnologia para coisas novas vem de institutos com os NIH, o Pasteur. Também há outros na Alemanha e Holanda. Mas eles envelhecem e por algum motivo vão desaparecendo.
A Sanofi não aprendeu a lição com outra companhia, que vende 90% de tudo que a Fiocruz faz. Eles inventaram um mecanismo mais simples. Não precisaram comprar a Fiocruz, mas compram tudo que ela vai vender. A Sanofi só não teve sucesso por que caiu na besteira de dizer que queria comprar.

Existe algum problema com a vacina da Sanofi?
A vacina deles não funciona e precisa de três doses. A nossa atinge um bom nível de proteção com uma dose. A quantidade de vacina é cem vezes menor que a da Sanofi – o que implica que custa trezentas vezes menos.
Eles pegaram a vacina de febre amarela, tiraram uns pedaços e fizeram a de dengue. Ela leva pelo menos um ano para imunizar e só funciona em quem já teve uma doença. Isso não engana nem um débil mental: essa vacina é uma porcaria.

Então essa vacina não deveria ter sido aprovada?
Acho que não deveria ter sido assinada [a aprovação]. A regra seria exigir fosse testada primeiro no lugar onde foi desenvolvida. Não somos cobaias de ninguém. Se foi feita na frança, testem nos franceses. Não necessariamente ela vale pro Brasil. Houve vários estudos feitos na Ásia.
Perdemos 18 meses porque a Anvisa não autorizou o ensaio. Não assinou os papéis. Nesse meio tempo assinou autorização para a Sanofi testar no Brasil com brasileiros a vacina deles.
Ela não deveria ser registrada porque os dados não permitem. Ela precisa de três doses, leva um ano para imunizar a pessoa, que já deve ter tido contato com dengue e uma série de outras coisas. Além de que vai custar trezentas vezes mais que a do Butantan para fabricar. Preço de venda é outra coisa… Precisa ter mais seriedade da comissão que indica a vacina, mais competência da Anvisa… pra não não falar de corrupção, o que deve deve ter.

O que justifica acelerar o processo para aprovar a vacina do Butantan?
Ainda não tem nenhuma pronta. Estamos indo para a fase 3 agora. Nessa altura devia pegar o ex-diretor da Anvisa e mover-lhe um processo. A Anvisa também deveria reagir para proteger o patrimônio moral da instituição. Na realidade, há problemas extremamente graves até hoje porque não tínhamos sequer experiência de fiscalizar medicamento.
Você me põe numa farmácia eu ponho metade dos remédios numa prateleira no lixo, porque aquilo não serve pra coisa nenhuma e vende pra todo mundo. É um país que precisa ser reorganizado.

Essa condição de epidemia da dengue, com grande número de casos e mortes, poderia ter sido evitada se houvesse a vacina?
Teria evitado porque funciona com uma dose, só não teria epidemia. Nós temos capacidade de produzir talvez 50 mil doses no laboratório que foi montado pra desenvolver a vacina. Para produzir a demanda nacional e provavelmente da América Latina temos que construir um prédio para abrigar a fábrica.

Falta dinheiro para se produzir vacinas?
Quando nós entregamos a vacina para o Ministério [da Saúde], ele paga quanto quer e quando quer. Já imaginou uma empresa fornecer –nós não somos uma empresa nem temos dinheiro para cobrir a falta de pagamento– e ter de esperar o pagamento do ministério?
Quando é uma multinacional, tem que fazer uma carta de crédito. Se não, não vende. Temos a Fundação Butantan, que tinha por finalidade receber o dinheiro das vacinas, economizar o que der pra economizar, porque uma vacina tem que começar pelo menos oito meses antes de ser necessário administrar. Aí você tem que ter o dinheiro pra investir.
As multinacionais querem acabar com a concorrência. Eles dão dinheiro para fechar a fábrica. Já tentaram fazer isso com o Butantan.

O sr tem 88 anos. Por que não desiste?
Não tem ninguém que faça no Butantan o que eu faço. Alguém sempre vem de fora com duas premissas: “está tudo errado” e “não vamos consertar”. Acabei sendo o único que, por razões várias, é capaz de ficar de pé e enfrentar a situação que aí está. Uma revista fez um artigo sobre mim intitulado “O cientista que briga”.

O sr. já teve dengue? Tem medo?
Não tive. Não tenho boa vontade de ter dengue. Obviamente mato todos os mosquitos que posso, uso inseticida… o que se pode fazer?
Nossa vacina foi testada por 900 americanos que não são expostos ao vírus. Não há efeitos colaterais. A vacina fabricada no Brasil está em ordem. Quando se senta na cadeira de ministro, não se brinca em serviço. Levar dez anos para fabricar essa vacina é crime.
Aconteceu na gripe também. A Anvisa esteve aqui em 2011, primeiro ano que fizemos a vacina. Disseram: “você está autorizado a envasar a da vacina, mas não a fabricar”. Perdemos US$ 30 milhões. Dois anos depois, vieram aqui e autorizaram. O governo francês já tinha autorizado a produção da vacina na Europa. O governo encomendou 30 milhões de doses. Metade da gente e metade da Sanofi. A nossa metade que o ministério não comprou só pode ser jogada no lixo.

A administração pública tem uma grande parcela da culpa, então?
Quando você senta em um ministério, você tem que ver a comparação entre custos e benefícios. Não tem nada que tenha 100% de benefício sem implicação em custo. Você não vi dizer “vou acabar com todas as bicicletas e motos do Brasil”, que são os grandes doadores de órgãos, já que morrem jovens e saudáveis.
Quando falamos de doenças infecciosas o problema é maior porque você deixou uma pessoa com aquele agente infeccioso e infectou o resto. Pode ser HPV, Aids, o que for. E até hoje não temos vacina para Aids São decisões difíceis.
Definitivamente, nós somos um exemplo único. Quando sairmos desse buraco temporário, que é a falta de dinheiro, temos que ter um pouco de juízo administrativo. Não precisa pagar o ônibus para levar o funcionário até o metrô. Compra um guarda-chuva de R$ 20 e ele que ande.

Mesmo com os problemas, vale a pena insistir em produzir vacinas no Brasil?
Claro que vale a pena investir. Vamos fazer o que pudermos. Como você investe numa vacina que nós vamos vender a preço barato? A vacina DTP, é obrigatória pra todas as crianças que nascem e não custam nem US$ 0,10, nem R$ 0,50, então ninguém quer fazer. No Japão fizeram uma nova vacina porque a de lá estava dando muito efeito colateral. E ela custa cem vezes mais que a brasileira. Não interessava fazer essa vacina, até começar a aparecer 50 mil casos de coqueluche em adulto por ano, o que é gravíssimo.
Por mais gente boa que esteja trabalhando para o governo, ele não pensa. Ele tem que se preocupar com o que vem por aí e estar preparado. Nós temos que pensar pelo governo. O conceito que não existe na estrutura acadêmica é de entender que publicar o artigo na revista cientifica, por maior que seja a repercussão, não leva a produto. Não existe industria que pega o que está na bancada e transforma em produto –ela quer a receita totalmente pronta, e o governo quer que você fabrique e ele venda.
Quando era diretor do instituto e depois presidente da fundação, lidei com o conceito que é a função do Butantan: inovar, desenvolver e produzir a linha inteira, para atender a sociedade. E é por isso que temos grande respaldo mesmo no meio leigo, porque a população sabe que é aqui que a vacina é produzida. A estrutura do Butantan é peculiar, não tem paralelo hoje no mundo.

Qual é o grande desafio atual?
A influenza. Temos que fazer uma vacina mais barata porque o governo não pode pagar a conta para todos os brasileiros. Uma fábrica nova custaria em torno de R$ 100 milhões.
Nós temos uma substância que serve de adjuvante pra reduzir a dose da vacina da gripe em quatro vezes. É um subproduto, lixo que jogamos fora quando fabricamos outra vacina, a de coqueluche. A fábrica que fazia 20 milhões pode fazer 80 milhões e doses, e o custo não aumenta. O difícil é que temos que contar com o governo para o Butantan permanecer vivo.

Qual é a dificuldade de se fazer uma parceria público-privada na área de vacinas?
Se você compra tecnologia de uma multinacional, ela define o preço. Investiram em uma vacina que simplesmente mistura várias. Essa vacina é comercializada principalmente pela Índia a US$ 1,50. A Fiocruz não pode vender porque um dos cinco componentes é obrigado a ter um preço imposto pela companhia de transferência de tecnologia a US$ 2,50. O preço do ministério é que define os royalties de tantos anos de desenvolvimento.
Sempre conto a historia que em 1952 o dono da Merck nos EUA saiu na capa da Time [mostra a imagem], dizendo “medicine is for people, not for profit”, algo como “Remédios são para o povo, não para o lucro”. O resultado: foi derrubado e hoje a Merck é poderosíssima e está vendendo pro Brasil a vacina do HPV, originara dos NIH.

*

RAIO-X

Isaías Raw, 88 anos

Trajetória
Médico e bioquímico. Foi professor e pesquisador na Faculdade de Medicina da USP, no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), na Universidade Harvard e no City College, em Nova York.
Foi diretor do Instituto Butantan e da Fundação de mesmo nome, onde trabalhou pelo desenvolvimento de vacinas no paí

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