700 náufragos na “maior tragédia de sempre no Mediterrâneo”

Várias centenas de pessoas terão morrido no Mediterrâneo, quando um barco que transportava cerca de 700 migrantes se virou entre as costas da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. Durante as operações de salvamento foram resgatados apenas 28 sobreviventes.

O naufrágio terá acontecido quando um navio porta-contentores com bandeira de Portugal se aproximou para resgatar os migrantes por indicação das autoridades italianas, que tinham recebido um pedido de ajuda devido a “problemas de navegação”, pouco depois da meia-noite de domingo.

Na tentativa de se posicionarem para serem salvos pela tripulação do porta-contentores “King Jacob”, os migrantes que tentavam chegar à Europa dirigiram-se para um dos lados da embarcação, acabando por cair ao mar, avançou Carlotta Sami, porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados no Sul da Europa. A mesma responsável, que descreveu o naufrágio como uma “tragédia de enormes proporções”, disse que o número de pessoas que seguiam na embarcação foi avançado pelos sobreviventes.

Os naufrágios durante operações de resgate são comuns, disse à BBC Mark Micallef, repórter do jornal Times of Malta. “Este cenário já aconteceu vezes sem conta. As embarcações viram-se no momento em que vai começar um resgate. Isto é uma parte do problema: navios da marinha mercante mal equipados estão a ser enviados para cumprir funções para as quais não foram preparados”, disse Micallef.

Também John Dalhuisen, responsável da Amnistia Internacional na Europa e na Ásia Central, apontou o dedo à falta de meios e disse que chegou a hora de os governos europeus “enfrentarem as suas responsabilidades”.

“Os navios da marinha mercante e as suas tripulações têm tentado preencher, de forma muito corajosa, os buracos deixados pela falta crónica de equipas de busca e salvamento especializadas, mas não foram construídos, nem estão equipados nem treinados para resgates marítimos. Chegou a hora de os governos europeus enfrentarem as suas responsabilidades e lançarem uma operação humanitária para salvar vidas no mar”, disse Dalhuisen.

Segundo os números da Guarda Costeira italiana, citados pela agência Ansa, cerca de 10.000 pessoas foram resgatadas por navios da marinha mercante no Mar Mediterrâneo nos últimos dias – 480 deles pelo mesmo navio com bandeira portuguesa que foi chamado a intervir novamente na noite de sábado.

De acordo com o site marinetraffic.com, o “King Jacob” saiu do porto de Augusta (Sicília) na madrugada de sábado e dirigia-se para o porto de Al Khor (Qatar). Na noite de sábado para domingo, o porta-contentores estava na área do naufrágio, segundo as informações do mesmo site de navegação marítima.

“King Jacob” tem 146,42 metros de comprimento e 22 metros de largura e foi construído em 1998 – apesar de ter bandeira de Portugal, a Marinha desconhece se os tripulantes têm nacionalidade portuguesa.

Em declarações à agência Lusa, o porta-voz da Marinha, comandante Paulo Vicente, confirmou que o navio participou nas operações de resgate. O porta-contentores estava a navegar na zona do naufrágio, tendo sido contactado pelo Centro Coordenador de Buscas e Salvamento Marítimos de Itália para prestar assistência.

Comparação com genocídios
Um dos primeiros responsáveis a comentar o naufrágio foi Joseph Muscat, primeiro-ministro de Malta, país que se juntou a Itália nas operações de resgate.

“Menos de 50 foram resgatados até ao momento. Teme-se que haja muitas mortes”, escreveu o chefe do Governo de Malta na sua conta no Twitter, nas primeiras horas da manhã de domingo. A Guarda Costeira italiana avançou mais tarde que tinham sido salvas apenas 28 pessoas.

Em conferência de imprensa, o primeiro-ministro de Malta disse que está a desenrolar-se “a maior tragédia de sempre no Mediterrâneo”, e lamentou que o seu país e Itália estejam “sozinhos nesta crise”.

“Malta tem problemas com a imigração, mas ninguém deveria ter de morrer”, disse Joseph Muscat, citado pelo Times of Malta. “Se a União Europeia e o mundo continuarem a fechar os olhos, serão julgados da forma mais severa possível, tal como foram julgados no passado quando fecharam os olhos a genocídios enquanto os que viviam bem nada fizeram”, disse o chefe do Governo de Malta, antes de pedir que se guardasse um minuto de silêncio.

“Dignidade humana”
Num discurso emocionado, a Presidente de Malta, Marie-Louise Coleiro Preca, disse que os cidadãos europeus têm de deixar de olhar para os migrantes “como um papão”.

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