Grandes eventos: Brasil precisa se preparar para enfrentar possíveis ameaças

Informe ENSP – Apesar de o nosso país estar acostumado a realizar grandes eventos anuais que atraem milhões de turistas em datas como o carnaval e o réveillon, a preparação para uma Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos precisa ser diferenciada. Partindo do princípio que o sistema de saúde brasileiro, em seus diferentes níveis, deve estar envolvido nessa organização, a ENSP realizou o projetoPrepara Brasil. A pesquisa, está ainda em fase de finalização, mas resultados já apontam a necessidade do desenvolvimento de planos de enfrentamento para possíveis ameaças que possam vir a atingir o país na ocasião desses eventos massa.
Agora, as atenções se voltam para 2016, ano em que o país receberá os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Durante esses eventos mundiais, que reúnem milhares de pessoas em apenas uma cidade, o país está mais vulnerável, caso ocorram situações extremas naturais, acidentais ou promovidas por ações de grupos interessados em manifestações propositalmente destrutivas. Outra questão primordial é a imprescindível preparação dos equipamentos e profissionais de saúde para tal enfrentamento.
O projeto, cujo foco foi a preparação da Assistência Farmacêutica para eventos de massa no Brasil, tem como responsável a pesquisadora do Núcleo de Assistência Farmacêutica (NAF/ENSP) Claudia Garcia Serpa Osorio-de-Castro, em parceria com professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-doutoranda da ENSP Elaine Miranda, como coordenadora adjunta. Segundo Elaine, além de um plano público e acessível a todos, o país precisaria ter profissionais preparados e que conheçam o seu papel neste arranjo. Confira.
Informe ENSP: Qual o papel da assistência farmacêutica nos grandes eventos de massa? Como nasceu o projeto?
 
elaine_miranda_boneco_eventos_massa(1)Elaine Miranda: A Assistência Farmacêutica (AF), enquanto um componente-chave do setor saúde, é especialmente demandada nesses casos e deve estar bem estruturada. Desse modo, a proposta do nosso projeto foi avaliar AF no âmbito do sistema de saúde brasileiro, em cenários de atendimento de urgência e emergência, nos locais que sediaram ou sediarão eventos esportivos mundiais, respectivamente em 2014 e 2016, e ainda a capacidade de o Brasil lidar com eles.
Em 2012, já tínhamos clara noção de que o país receberia esses eventos de grande interesse global já descrito. A partir daí, o projeto que desenvolvemos para o tema foi contemplado no início em 2013, em um edital do Programa Ciências Sem Fronteira (projeto CNPq 400488/2012-4). Este projeto também foi agraciado com a participação da pesquisadora visitante especial (PVE) Kimberley Shoaf, da Universidade da Califórnia.
Nós, que trabalhamos em uma escola de saúde pública, compreendemos a necessidade de o país se preparar. Como a assistência farmacêutica é nossa principal área de inserção, começamos um projeto focado nessa preparação. Por outro lado, com a expertise trazida pela professora Kimberley, o escopo do projeto foi ampliado no sentido de observar a preparação no campo dos serviços de saúde, em especial nos hospitais que ofereceram e oferecem serviços de urgência e emergência nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil.
Informe ENSP: Quantos hospitais foram estudados, em que localidades e quais foram os principais dados encontrados?
 
Claudia Osório-de-Castro: Foram realizadas visitas aos municípios-sede da Copa do Mundo e à cidade-sede dos Jogos Olímpicos (o município é a primeira unidade de análise) – Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Neles, foram entrevistados atores-chaves envolvidos no setor saúde, na Assistência Farmacêutica, na Defesa Civil e gestores da rede hospitalar de interesse. Selecionamos até três hospitais por cidade: um hospital de referência designado pelo Ministério da Saúde e dois outros (foram sorteados aleatoriamente) que, de acordo com a base Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), atendessem urgência e emergência (tanto público como privado) e que estivessem localizados em torno das arenas, locais de evento etc. A pesquisa de campo ocorreu entre março e abril de 2014, portanto, antes da Copa do Mundo.
Elaine Miranda: Além dos hospitais, percorremos também a gestão central de saúde dos municípios para coletar informações estruturais, da interação com os níveis de governo na preparação para os eventos e ainda para buscamos parecer sobre a capacitação dos profissionais e os recursos que haviam sido pensados em relação à assistência farmacêutica, aos leitos hospitalares, à capacidade de isolamento, quarentena etc. Tudo isso antes da realização da Copa do Mundo. Em nosso modelo teórico, supomos a possibilidade da ocorrência de determinadas ameaças, como epidemias, deslizamentos, terrorismo, entre outros eventos que, em um momento como este, o país podem acometer o país.
Assumimos também que nosso país possuía um plano de ação traçado e previsto para ocorrências dessa natureza. Assim, a partir da literatura que nos embasou, poderíamos confrontar nossos achados em campo. No entanto, o que podemos afirmar é que poucos hospitais produziram ou possuíam conhecimento acerca dos planos oficiais do governo para o enfrentamento de possíveis ameaças. Outra questão relevante foi o preparo de recursos humanos para tanto. Não adianta termos uma estrutura pensada para o enfrentamento de eventos se os profissionais de saúde não estiverem cientes, preparados ou orientados para tal ação, ou seja, que não conheçam o seu papel para aquele arranjo.
Eu pergunto: qual é a forma mais clara para enfrentar um problema? A resposta passa pela definição de uma estratégia, é obvio. De um plano cujo as pessoas, mais do que estarem cientes do que têm que fazer, saibam qual é a interação que podem ter com outros níveis, setores e unidades de saúde, além de entenderem o contexto que estão e qual é o seu papel individual. Essas informações foram obtidas em nível central e de gestão hospitalar, mas os profissionais da ponta não foram entrevistados.
Claudia Osório-de-Castro: Nossa percepção é que o país apresenta um número de municípios com estrutura aquém daquela que seria esperada no que se refere ao atendimento da quantidade de pessoas nos grandes eventos. Oficialmente, o governo declara dispor de um plano. No entanto, não podemos dizer que o conhecemos, pois não tivemos acesso a ele. Para nós, essa estratégia apresenta dificuldades e dúvidas quanto ao sucesso, se desafiada.
Sobre dados oficiais, tivemos acesso a um artigo publicado no Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, no qual o governo fala genericamente sobre medidas adotadas para esses eventos. Esta foi a única informação a qual tivemos acesso. Utilizamos este único documento oficial para confrontar informação. Foi o que nos permitiu balizar os nossos achados.
Informe ENSP: Os resultados preliminares da pesquisa foram divulgados no sentido de orientar os estabelecimentos para a realização de medidas visando a Copa do Mundo?
 
Claudia Osório-de-Castro: No sentido de informar o Ministério da Saúde sobre a situação da preparação, sendo mais uma ferramenta para municia-lo na tomada de decisão e organização de ações concretas para a Copa do Mundo. Desenvolvemos um relatório preliminar de resultados, que foi encaminhado para o Vigidesastres, do Ministério.
Dos hospitais de referência designados pelo MS nas cidades-sede, um deles se negou a participar do projeto, mas houve adesão dos demais. A maioria dos hospitais visitados não possuía planos de preparação para eventos de massa, e a provisão de medicamentos não teve planejamento especial, ocorrendo de forma rotineira. A capacidade de recebimento de demanda extra de pacientes não foi planejada nos hospitais, sendo que alguns mencionaram a possibilidade de utilizar áreas ociosas para tal. O suporte diagnóstico nos hospitais, como a provisão de medicamentos, seguiu rotina; e alguns citaram a possibilidade de lançar mão da parceria com os Laboratórios centrais do país.
Espaços para isolamento e quarentena não foram conceitualmente diferenciados pelos hospitais, embora tivessem revelado que seria possível utilizar áreas que atualmente possuem outra utilização (alas, CTI, quartos privados etc). As ameaças identificadas pelos gestores foram, em sua maioria, relativas à epidemias e surtos.
Todos os gestores de municípios-sede, salvo um, aceitaram participar da pesquisa. Houve pouca interação nos locais de competição entre o Setor Saúde e a Defesa Civil; e pouca informação sobre como proceder em caso de ameaças concretas. Quanto à AF, os municípios não mencionaram o planejamento de rotinas ou alguma organização específica para a Copa. Referiram também a possibilidade do remanejamento de estoques e de socorro do estado, em caso de necessidade. Os locais estudados entendiam que os medicamentos selecionados nos municípios dariam conta de responder à possíveis necessidades. Um caso relevante encontrado em vários municípios foi o fato de a Defesa Civil não se perceber como componente de resposta (portanto, isenta de preparação) em eventos de massa.
Dessa maneira, destacadamente, pode-se dizer que faltam interação entre o Setor Saúde e a Defesa Civil; percepção da Defesa Civil em relação ao seu papel na preparação; e planos de preparação nos hospitais visitados. Além disso, hospitais disseram aguardar (dois meses antes da Copa do Mundo) por informações dos municípios, dos estados e do Ministério sobre preparação e também sobre como proceder em caso de ameaças concretas.
Informe ENSP: Passada a Copa do Mundo, o país segue sem preparo para lidar com um outro evento de massa. Para 2015, a pesquisa aponta novas orientações? O projeto segue com novas frentes?
 
Claudia Osório-de-Castro: Além de artigo publicado antes da Copa, estamos desenvolvendo uma segunda publicação, agora sobre a capacidade hospitalar disponível na ocasião da Copa. Se as ameaças tivessem se concretizado, qual seria a capacidade de atendimento para tanto? Teríamos tido capacidade para enfrentá-las?
Outra linha dentro do escopo principal do projeto é o geoprocessamento, que está sendo utilizado no sentido de georreferenciar unidades de saúde em relação às arenas, estádios e outros locais de evento na Olimpíadas. Trata-se de uma ferramenta em que buscamos averiguar, de acordo com cada unidade, a estrutura definida com base no Cadastro Nacional dos Serviços de Saúde (CNES), em termos de tomógrafos, eletrocardiógrafos, leitos etc. Apesar da literatura nesse campo ser restrita, é sabido que no caso de grandes eventos a conta se dá por público em determinada região; e não por habitantes por área. Essa investigação é uma forma de avaliar e preparar equipamentos para receber esse um imenso volume de pessoas e lidar com esse risco.
Elaine Miranda: De qualquer maneira, em períodos normais, o atendimento se apresenta abaixo do desejado. Portanto, não podemos seguir como se não fossemos lidar com grandes eventos e possibilidades de ameaças. Nossa ideia não é expor as falhas, mas dar subsídios para que os gestores ajam para as Olimpíadas, já que é preciso alertar que existe necessidade de ação. Por outro lado, também existem dados e evidências do que pode ser feito. A copa já passou, fizemos o que devíamos, mas falamos de resultados científicos, e por isso temos a certeza da responsabilidade de sua publicação. Não aconteceu nada na Copa, porém não podemos seguir contando com a sorte. Portanto, é preciso que nos preparemos adequadamente para a ocorrência de um evento de massa.
O Brasil precisa acordar para a preparação, e pressentimos uma nova onda de riscos de desobediência civil. Não podemos fechar os olhos quanto a isso. O país atravessa uma situação difícil e achamos que essas questões poderão impactar as Olimpíadas de 2016. Nos pautamos no que podemos dizer. Nossas investigações têm sustentação em bases teóricas e nas experiências relatadas na literatura. A pesquisa científica não vem simplesmente da criatividade do pesquisador. Ela até conta com esse viés, mas sempre está referenciada no que já foi produzido.
No âmbito do projeto nacional, também estamos investigando questões relacionadas à ética e cultura dos povos, pois identificamos no modelo desenvolvido pelo Prepara Brasil que esses pontos perpassam tudo o que envolve assistência à saúde. Como, por exemplo, casos de pessoas que, por restrição religiosa, não podem fazer determinadas intervenções, têm restrições nutricionais ou não podem realizar transfusão de sangue. Esse tema será abordado em um segundo artigo, que está em fase de produção, e seu resumo já foi aceito para apresentação oral no Congresso Mundial de Desastres e Medicina de Emergências, a ser realizado na África do Sul, em abril de 2015. O assunto tem ótima aceitação internacional.
Outro desdobramento do projeto foi o convite para aplicar o modelo do Prepara Brasil no município de Petrópolis, no Rio de Janeiro. A ideia é desenvolver um diagnóstico hospitalar do município – projeto já está em franca execução. Todos os hospitais da cidade serrana serão investigados, inclusive de uma forma mais completa. O município fica muito próximo ao Rio de Janeiro e sabemos que a cidade também será um local propício para acomodar turistas e delegações durante as Olimpíadas.
O “pano de fundo” do projeto Prepara Brasil sempre será a questão dos grandes eventos. No entanto, para o ‘Prepara-Petrópolis’, estamos investigando um escopo ampliado, que inclui as Unidades de Pronto Atendimento (Upas). A parceria com a secretaria facilita o acesso aos hospitais, unidades de saúde e também aos dados da gestão do município. Com isso, também estamos construindo um modelo de avaliação que poderá ser aplicado em qualquer localidade do Brasil, levando em consideração suas peculiaridades.
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