Doenças da Globalização

Simulação de atendimento a casos de ebola: protocolos diminuem risco de disseminação da doença. (Foto: Gutemberg Brito)

Simulação de atendimento a casos de ebola: protocolos diminuem risco de disseminação da doença. (Foto: Gutemberg Brito)

RADIS – Reportagem de Ana Cláudia Peres

 

 

Fluxos migratórios e mudanças ambientais são alguns dos fatores que aumentam a disseminação de doenças pelo globo; especialistas alertam que medidas pontuais são insuficientes para evitar pandemias

 

 

O mundo é uma bola. Se reparar bem, parece miúdo como uma bola de gude. Pelo menos é esta a sensação em tempos de globalização, quando o deslocamento de pessoas, capital e mercadoria por diversos pontos do planeta ocorre com extrema facilidade. Esse fator, típico da sociedade contemporânea, também faz com que alguns vírus viajem com velocidade acelerada contribuindo para a disseminação de doenças e para o reaparecimento de outras inúmeras enfermidades – algumas ressurgem sob formas mais letais; outras se renovam tornando-se imunes aos medicamentos.

 

Em 2003, uma síndrome respiratória aguda grave, mais conhecida como Sars, cujo primeiro caso foi registrado na China, provocou pânico mundial espalhando-se por outros países da Ásia e chegando ao Canadá em um período de sete meses. Em 2006, na Indonésia, foi a vez da gripe aviária fazer soar o sinal amarelo da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a possibilidade de uma pandemia da doença, depois que uma mulher infectada por contato com aves repassou o vírus a seis parentes. Três anos depois, no México, foi registrada a ocorrência de um novo tipo de gripe, causada pelo vírus Influenza tipo A/H1N1, inicialmente conhecida como gripe suína, que rapidamente se alastrou por Estados Unidos, Canadá e Espanha, levando a OMS a declarar essas incidências como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). Recentemente, a epidemia de ebola, na África, tem levado susto, precaução e também preconceito a diversas regiões do planeta, inclusive ao Brasil.

 

A cada novo alerta de risco de uma pandemia provocada pelas chamadas “doenças globalizadas”, são impostas barreiras ao trânsito de pessoas. Medidas em portos e aeroportos são comuns e, até certo ponto, necessárias. Mas, de acordo com a Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS), órgão do Ministério da Saúde responsável, em âmbito nacional, por todas as ações de vigilância, prevenção e controle de doenças transmissíveis, essas medidas por si só não garantem que o país esteja protegido. Isso porque, durante o período de incubação da doença, é possível viajar o mundo inteiro, mais de uma vez, como explica o médico epidemiologista e sanitarista Jarbas Vasconcelos, titular da SVS. “E no período de incubação, você não tem mecanismos absolutamente eficazes pra detectar a presença ou não de determinado vírus”, diz Jarbas.

 

Como no mundo moderno o compartilhamento de riscos ocorre de maneira quase imediata, isso traz muitos desafios à saúde pública. “Aquela ideia que se tinha de que estar protegido era fechar aeroportos e praticamente parar o mundo é impraticável. Hoje, estar protegido é ter capacidade de detectar rapidamente a importação de um vírus, caso ocorra, e tomar todas as medidas cabíveis para evitar danos à população do país”, aponta o secretário, acrescentando que isso exige uma preparação de toda a rede do sistema de vigilância em saúde de cada país a fim de que se realizem ações de contenção de determinada doença.

 

“Capacidades básicas”

O Regulamento Sanitário Internacional (RSI), aprovado na 58ª Assembleia Mundial da Saúde de 2005 e em vigor desde junho de 2007 nos 193 Estados membros da OMS, obriga os países a comunicar ou notificar à OMS, num prazo máximo de 24 horas, qualquer surto de doença suscetível de contágio e que possa se propagar além das suas fronteiras. A versão anterior do documento, com data de 1969, referia-se apenas à cólera, peste e febre amarela. De alcance mais global, o novo RSI aplica-se a “qualquer doença, independentemente da origem ou fonte, que se apresente com risco significativo para os seres humanos, bem como a emergências de saúde pública causadas por agentes químicos, materiais radioativos ou alimentos contaminados”.

Pelo documento, cada país deveria ter implantado até 2012 as suas “capacidades básicas” para detecção, o que envolve um sistema regular de vigilância funcionando, laboratório, epidemiologia de campo para investigação e monitoramento contínuo. O prazo foi prorrogado para o final de 2014. “Mesmo assim, muitos países não conseguiram cumprir a meta, seja pela fragilidade de seus sistemas de saúde, pobreza extrema ou desestrutuação de governos”, informa o secretário nacional de Vigilância Sanitária, chamando a atenção para o fato de que, se os riscos de uma pandemia aumentam à medida que uma doença se dissemina pelo mundo, a vigilância global só será efetiva se cada país estiver com suas capacidades básicas de detecção instaladas. “Nós dependemos uns dos outros”, emenda. O tema será pauta da próxima Assembleia Mundial da Saúde, que acontece todos os anos em Genebra.

 

Outros fatores

Afora a facilidade de deslocamento de proporções inéditas, outras características do mundo atual podem influenciar no surgimento de novas ou conhecidas epidemias. Especialistas apontam, entre esses fatores, o incremento dos fluxos migratórios – hoje, as Nações Unidas estimam que o número de refugiados do planeta já passa dos 40 milhões – e as mudanças climáticas – que aumentam as chances de ocorrências de doenças oriundas de bactérias, fungos e vírus que se estabelecem em hospedeiros de diferentes espécies.

 

Em entrevista à Radis, Paulo Sabroza, pesquisador do Departamento de Endemias Samuel Pessoa, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Densp/Ensp/Fiocruz), destacou que esses problemas que parecem novos não correspondem necessariamente a novos parasitas, mas sim a um parasita que se adaptou a outro modo de transmissão ou a um nicho ecológico diferente, quase sempre promovido pelas próprias relações de trabalho e processos de produção da sociedade atual. “São problemas de saúde que aparecem no nosso mundo porque, no momento em que nós criamos determinadas condições socioambientais, criamos também as possibilidades para que eles se amplifiquem”, diz Sabroza.

 

No livro “O Monstro Bate à Nossa Porta” (Editora Record), o especialista em teoria urbana Mike Davis discute a história científica e política do combate às pandemias. O autor chega a dizer que “os choques ambientais produzidos pelo homem – o turismo além-mar, a destruição das massas de água, uma ‘revolução na criação de animais’ e uma urbanização do Terceiro Mundo com o crescimento de megafavelas – são responsáveis pela transformação da extraordinária mutabilidade da gripe em uma das forças biológicas mais perigosas do planeta”.

 

Para Sabroza, ao mesmo tempo em que a população cresce e aumentam os problemas urbanos que vão da pobreza extrema em algumas regiões até o tráfico de animais em outras, multiplica-se também a vulnerabilidade para uma série de questões de saúde. “O mundo continua mudando e à medida que muitos problemas são eliminados, outros problemas aparecem”, resume.

 

Ebola e chikungunya

Recentemente, a mídia brasileira noticiou uma declaração do diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Organização Panamericana de Saúde (Opas), Marcos Espinal, em Washington, de que a emergência do vírus ebola é uma oportunidade para que os países da América Latina aumentem os investimentos em saúde em uma região desigual e com falhas sanitárias. “É um apelo aos políticos e líderes dos nossos países. Há uma necessidade imperativa de ir além do ebola e fortalecer os sistemas de saúde”, disse Espinal.

 

Nas Américas, a ascensão de um outro vírus, o da febre chikungunya – menos letal que o ebola mas muito mais preocupante para esta região do globo –, levou a OMS a divulgar alerta epidemiológico, diante da iminência do crescimento do número de casos, sobretudo na América Central, Caribe e América do Sul. Desde dezembro de 2013, quando foi confirmada a transmissão autóctone do vírus no continente, até outubro, tinham sido notificados 748.403 casos suspeitos no continente, com a confirmação de 11.549 infectados e 141 mortes.

 

Mesmo sem desmerecer a relevância de um sistema centrado principalmente na vigilância para minimizar o problema das doenças globalizadas, Paulo Sabroza atenta para uma questão inquietante. “Essas medidas são sempre orientadas para o que a gente chama de medidas de contenção: identificar, limitar e resolver o problema localmente”, alerta. “Isso é importante, mas quase nunca essas medidas mudam as condições estruturais que levaram ao aparecimento do problema”. Por outras palavras, se não houver mudanças nas condições estruturais, sociais, ambientais, mais cedo ou mais tarde o foco do problema vai voltar a aparecer ou irão aparecer outros problemas com características semelhantes.

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Doenças da Globalização

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s