Antropologia e moral, de Laís Cardilo

Reflexões sobre o texto de Eliane Brum, “O vírus letal da xenofobia”

Ao trazer à discussão o caso de suspeita de ebola no Brasil e as consequências várias que daí se levantaram, Eliane Brum busca muito mais questionar sobre o “nós” do que sobre o “outro”. Ela afirma, o vírus, a doença e a deformação estão no dentro, e no presente.  Mas a peste não é aquela declaração xenofóbica publicada por um nas redes sociais, ou o conteúdo racista divulgado por mais um único em um comentário solto. Ela é mais, intrincada e ecoando nas negociações cotidianas de um “nós” e um “outro”.

Falamos, assim, da construção de uma questão social em termos morais. Quando Didier Fassin propõe uma antropologia crítica da moral, ele a joga no sentido de ultrapassar sua constituição de disciplina calcada ferrenhamente em um relativismo. Quais os valores e práticas intrincados na construção do “nós”? Como nota Brum, a tal suspeita de ebola nos fez descobrir muito mais sobre a nossa deformação. Dar inteligibilidade as nossas práticas discursivas corre, assim, no sentido de explorar as construções de coletividades a que negociamos, e posicionamos politicamente nossos “nós” e nossos “eles”.

Nessa alteridade negociada (será?) nossos mecanismos decidiram mostrar-se violentando um a um do “eles”, pisando na sua existência digna e na sua autorização de sujeitos. Não há outro certo que não o nosso. Se problemas sociais são construídos em termos morais, encontram também seu lugar consubstanciando-se nos sujeitos. Assim que aquele outro específico, o homem suspeito de carregar o tal vírus tão letal às condições de poder estabelecidas, teve seus direitos mais básicos violados. A xenofobia e o racismo encontram sua personificação nesse homem, ameaça, o que justifica sua exposição. Seu corpo, preto, seu continente de origem, o mais fora possível, guardam um outro desumanizado. Fassin fala de uma antropologia capaz de trazer a luz os usos políticos do corpo. Eis o que escancaramos: o uso político do corpo dele por nós. Uma economia moral que torna ilegítima a subjetividade daquele homem, e de todos os nossos “outros”.

Se em algum momento, ao cruzar fronteiras de Estados, o que ele experimentou foram diferenças horizontais, nas formas de vida – como nos lembra Veena Das – sua presença e seu corpo agora mobilizam um outro que cruza – se é que algum dia esteve do lado certo – a fronteira do humano. Brum o diz, um rato que carrega um vírus. Contido até então no nosso fora, ele cruza e então somos obrigados a negociar sua presença no nosso dentro. Se o racismo não é passado, mais uma vez precisamos descer ao cotidiano e reconhecer sua presença. Evidenciar a humanidade desse homem colocaria em risco uma estrutura de relações, permeada de nossos mecanismos de poder e politização. Assim que, se sempre foi um sem nome, esse homem só ganha um rosto para ser desumanizado novamente. E mais uma vez tentar submetê-lo as nossas negociações.

Mas eis a inversão que Brum nos propõe: a reparação seria uma oportunidade para nós, e não para ele. Embora não o queiramos, ele também é um sujeito. É preciso vê-lo como um homem. “Mas só um humano pode vestir um humano”. Eis que o nós, tão altivamente dotado de poder e conhecimento, corpos construídos como sãos frente a esse outro, sabe muito bem como tornar ilegítima a humanidade alheia. Mas a nossa, onde foi que a colocamos? Talvez em algum pedestal o qual nem mesmo somos capazes de alcançar.

Qual a lógica das nossas violações? Por não serem notados é que os efeitos violadores de tais processos se mostram, sem sequer prestar contas da forma pela qual chegaram a tal ponto. No caminho entre a crítica e a intervenção Fassin se coloca, em um esforço de tornar inteligível as práticas morais que invocamos, e a produção do outro que daí decorre. E as possibilidades de transformação.

‘É preciso medidas sanitárias, fronteiras fechadas para que o vírus não se espalhe’. Tratar de saúde é fazer política. Esta, relações humanas, desde o seu mais micro ao seu mais estrutural. Portanto, é falar de moral. Revelamos muito mais de nós ao falarmos dele, nota Brum. Mostramos muito mais de nossas construções de coletividades e identidades de nossos sujeitos. Mas qual a relação entre essas posições e os conhecimentos produzidos? Quais os efeitos da diferença nesses conhecimentos? Invocar uma antropologia moral é questionar os pressupostos do nós. E só então ser capaz de politizar a existência do outro. Abrir caminho para uma antropologia da moral parece, assim, apenas uma das oportunidades que é dada ao nós. Enquanto isso, as violações não cessam, a imprensa não vê nada de errado em divulgar a identidade desse homem sob a alcunha de informação, e o outro cruza facilmente a fronteira do humano – mas não as nossas.

Laís Cardilo é aluna do curso de Ciências Sociais da USP e cursa a disciplina de Saúde Global no IRI/USP

Referências

DAS, Veena. “Fronteiras, violência e o trabalho do tempo: alguns temas wittgensteinianos”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.14, n.40, jun. 1999.

FASSIN, Didier. “Beyond good and evil? Questioning the anthropological discomfort with morals”.  Anthropological theory, vol.8, n.4, pp. 225-246, 2011.

Uma trajetória antropológica: entrevista com Didier Fassin. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 17, n. 36, p. 257-279, jul./dez. 2011.

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Um pensamento sobre “Antropologia e moral, de Laís Cardilo

  1. Crises e epidemias são situações que testam e revelam o quanto há de humanidade em nós. A meu ver, atualmente ainda não houve tanta evolução nesse campo. Faltou uma maior sensibilidade (ou até mesmo agilidade) da comunidade internacional frente à eclosão do ebola na África. Parece que ficaram assistindo de braços cruzados à falência dos africanos. No entanto, alguns países rapidamente adotaram políticas restritivas, como a suspensão de rotas aéreas aos locais mais afetados, a fim de se isolarem dos problemas. Isso só reforça a concepção do “nós” e “eles”, acentuando a xenofobia e o racismo aos africanos e seus descendentes.

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