Campeão de cesáreas, Brasil quer resgatar parto normal

Esta notícia da revista Carta Capital menciona um projeto piloto envolvendo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Hospital Israelita Albert Einstein, o Ministério da Saúde e uma ONG americana chamada Institute for Healthcare Improvement (IHI). É uma articulação que tem como principal objetivo adequar a taxa de cesáreas no Brasil ao recomendado pela OMS. Enviado por Caio Mader

Carta Capital, Saúde – Dados mostram que 52% dos partos realizados no país são cesáreas, bem acima da média mundial (18%) e da recomendação da OMS, que é de apenas 15% (por Deutsche Welle)
Flickr / maturana
gravidez Cesáreas aumentam a necessidade de cuidados na UTI, o que mantém bebês longe das mães nos primeiros dias de vida

Há cinco meses Theo Henrique nasceu saudável, de parto normal, apesar de estar com o cordão umbilical enrolado no pescoço. “Desde o começo da gravidez eu queria o parto normal, pois achava mais seguro. Além disso, a recuperação é melhor e mais rápida, e para o bebê também é melhor, porque ele entra em trabalho de parto junto e sabe que está nascendo”, explica Paola Ferrarezi, mãe de Theo Henrique.

O caso de Ferrarezi é uma exceção no Brasil, país com um dos maiores percentuais de operações cesarianas no mundo. Segundo dados oficiais, 52% dos partos no país são cesáreas. No setor privado a incidência é ainda maior: 88%.

De acordo com a médica Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, é tradição da prática médica brasileira considerar a cesárea um parto sem risco e mais seguro. “Até as mulheres acreditam que o bebê sofre menos, quando na verdade é o contrário: a melhor maneira de nascer ainda é o parto normal”, afirma.

Apesar de as cesarianas terem se tornado procedimentos cotidianos no Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a melhor forma de nascer continua sendo o método natural, e recomenda que a taxa de cesáreas não exceda 15% dos nascimentos. A média mundial de nascimentos por cesarianas é de aproximadamente 18%.

Leal coordenou o estudo Nascer no Brasil e acrescenta que a cesárea é um procedimento cirúrgico com riscos tanto para mãe quanto para o bebê. Estudos indicam que as cesarianas aumentam o risco de hemorragia e infecções em mulheres, podendo levar à morte. Além disso, em gravidezes futuras, aumentam as chances de óbito fetal sem causa aparente e formação anormal da placenta.

Para o bebê, como muitas cesarianas são realizadas antes das 39 semanas recomendadas, cresce a necessidade de ajuda para respirar e também de cuidados na UTI, o que deixa a criança longe da mãe nos primeiros momentos de vida.

Para tentar mudar o cenário brasileiro e adequá-lo à recomendação internacional, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Ministério da Saúde, o Hospital Israelita Albert Einstein e a ONG americana Institute for Healthcare Improvement (IHI) assinaram, no final de outubro, um acordo de cooperação técnica para ampliar a realização de partos normais em hospitais privados. O projeto piloto terá duração de três anos e utilizará metodologia desenvolvida pelo IHI.

“Entre as ações destacam-se a assistência ao parto por equipes compostas de médicos e enfermeiros obstetras, além da utilização de recursos para alívio da dor e o estímulo à presença de acompanhante”, diz Teófilo Rodrigues, gerente geral de Regulação Assistencial na ANS.

A partir de fevereiro de 2015, o projeto piloto começa a ser executado em hospitais interessados, o primeiro deles é o Hospital Albert Einstein. A proposta será testada até o final de 2017. Após a fase de teste, o modelo será disponibilizado para qualquer estabelecimento de saúde que tiver interesse em ampliar a realização de partos normais.

Entre os fatores que levaram ao aumento da realização de cesarianas estão a comodidade para pacientes e, principalmente, médicos, que podem marcar previamente os horários de nascimentos. A cesárea também possibilita aos hospitais programar antecipadamente a disponibilidade de leitos.

Além disso, muitos médicos não estão mais acostumados a realizar partos normais. “Na faculdade, eles são treinados a fazer cesáreas e saem de lá com muito mais segurança para realizar essa cirurgia do que para fazer parto normal, que é muito simples, mas às vezes tem pequenas complicações que exigem algumas manobras”, destaca Leal.

E como a maioria dos partos é marcada com antecedência, muitas instituições não têm mais equipes de plantonistas para atender mulheres que optam pelo parto natural.

Muitas gestantes optam pela cesárea pelo receio de ter o bebê com um médico diferente daquele que as atendeu durante o pré-natal. “No início da gravidez, eu preferia a cesárea, pois tinha medo da dor e ouvi dizer que era mais seguro para o bebê. Ao longo das consultas fui ganhando confiança de fazer o parto normal, mas como a data do nascimento era próxima do Natal e eu queria fazer o parto com meu médico e não com um plantonista, optei pela cesárea”, conta Juliana Sinestri Jensen, mãe de Otto, hoje com quase dois anos.

Assim como Jensen, muitas mães de primeira viagem também têm medo da dor do parto. Segundo a pesquisa Nascer no Brasil, esse é o principal fator que leva mulheres grávidas pela primeira vez a optarem pela cesariana. Já entre as mulheres que já tiveram filhos, cerca de 33% optaram pela cesárea para aproveitar o procedimento cirúrgico e fazer a laqueadura das trompas.

Além disso, entre as mulheres que já tiveram filhos, outro motivo que pesa na hora da escolha da forma de dar à luz é a experiência com o parto anterior. Ferrarezi, por exemplo, conta que o parto normal foi muito bom e deseja seguir o método para o nascimento do próximo filho.

Já Jensen ainda não sabe se deseja ter mais filhos, mas afirma que achou a cesárea frustrante. “Não senti a emoção de colocar meu filho no mundo.”

  • Autoria Clarissa Neher
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2 pensamentos sobre “Campeão de cesáreas, Brasil quer resgatar parto normal

  1. Acho importante mencionar que a recomendação da OMS de não ultrapassar 15% dos nascimentos desta forma foi retirada em 2010 “porque não existe evidencia empírica sobre existência de uma percentagem ideal”, implicando que esta percentagem pode mudar no tempo, e segundo as circunstancias individuais e sociais.
    http://www.bbc.co.uk/news/10448034

    Aparentemente, o principal desafio é de aumentar a consciência sobre as consequências possíveis no ato de fazer cesáreas que não são medicamente necessárias, e o papel dos médicos neste objetivo é crucial.
    Além disso, o medo da dor nas futuras mães pode ser ainda mais difícil de superar, simplesmente porque as suas preferências pessoais devem ser respeitadas, né?

  2. Embora não seja citado na matéria, acho importante ver de que forma esses números tão altos podem ser representativos de situações de violência obstétrica. Mesmo quando feito o parto normal, a incidência de episiotomias ultrapassa a metade dos casos, procedimento que apenas deveria ser feito em situações extremas, de comprometimento da saúde da mãe ou da criança. A experiência bem sucedida de um hospital público parece lançar luz sobre as possibilidades concretas da redução tanto das cesáreas quanto das episiotomias: http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2014/10/24/hospital-do-sus-reduz-episiotomia-ao-tirar-medico-do-parto-normal/

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