Resistência em Tempos Modernos, de Felipe Scalisa Oliveira

Charge retirada da página do facebook do deputado federal Jean Wyllys, PSOL

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“Comprehension, in short, means the unpremeditated, attentive facing up to, and resisting of, reality – whatever it may be.”[1]

A célebre frase, entre as mais conhecida de Hannah Arendt, resguarda um dos conceitos mais curiosos da autora e, todavia, não muito explicitados ao longo de sua obra, que é o “resisting of reality”. De um algum modo, Hannah pressupõe à verdadeira compreensão a resistência perante a realidade, indicando que a razão acasala-se de forma fecunda com a parcimônia no mundo. Talvez, isso fique ainda mais claro quando Hannah afirma “Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a realidade.”[2]

 

Ou seja, as aparência, sujeitas aos ângulos da subjetividade, constituem a realidade, a qual, por mais tentadora que seja, jamais poderia, assim, ser considerada absoluta. Resistir a ela significa ter em mente não recair no extremo do pensamento, porquanto este seja incapaz de alcançar com propriedade o núcleo da realidade e, da mesma forma, a verdade indubitável.

Ora, nada pode ser mais avançado, em termos de juízo, do que a resistência contra nós mesmos. E o totalitarismo só pode ser, portanto, uma expressão humana rudimentar mediante as tendências sorrateiras da modernidade. A democracia, por outro lado, ao ser a face inversa da mesma moeda do totalitarismo, requer as suas qualidades antitéticas, tendo, portanto, a resistência como elemento a seu favor.

Cabe, a partir de então, compreender em que medida a resistência à realidade se insere na democracia moderna. Como premissa inicial, devemos prescrever que, do ponto de vista arendtiano, a democracia só adquire existência quando inserida no espaço público, pois é apenas mediante o público que a pluralidade se faz necessária. A democracia é, dessa forma, uma entidade ambígua, pois ao mesmo tempo em que pressupõe uma disputa de forças no interior da pluralidade, culminando na imposição do Um sobre o Múltiplo, necessita preservar essa mesma pluralidade, cuja manutenção é o que qualifica o espaço público e acaba exigindo, por retroação, o resgate da democracia.

A democracia, nesse sentido, é acertadamente definida por Slavoj Zizek como um eterno devir, porquanto “no momento em que a democracia não é mais ‘por vir’, mas pretende ser efetiva – plenamente efetiva –, nós entramos no totalitarismo.”[3] E Zizek usa para essa conclusão um pressuposto semelhante ao princípio da realidade pouco confiável de Arendt, concluindo que “nossa resposta ao chamado do Outro nunca é plenamente adequada”[4], pois o próprio Outro sofre da lacuna de nossa percepção sobre o que ele de fato é.

O segundo passo de nossa reflexão é entender quando o espaço público torna-se alvo do totalitarismo, isto é, da abnegação definitiva de sua pluralidade para fazer da resistência uma ferramenta útil. A obra “A Peste”, de Albert Camus, é triunfante no sentido de fornecer, por meio da narrativa realista, as condições públicas de um espaço em vias de Exceção. Na interpretação arendtiana de Sandra Caponi, durante a peste “El dolor ha dejado de ser privado e incomunicable y lo público ha dejado de caracterizarse por la pluralidad humana. El dolor se ha convertido en algo comunicable a fuerza de tanto ser repetido al mismo tiempo en que, borrando la pluralidad, ha unificado los objetivos y puntos de vista de todos los habitantes de Oran.”[5] O que se nota na obra de Camus, segundo Caponi, é que, mediante a Peste, o espaço público perde sua pluralidade quando todos ficam sujeitos à mesma condição aterradora; a intimidade, traduzida na dor privada e incomunicável, ascende como elemento equânime de todos, assumindo, por corolário, o papel público. O cerramento da multiplicidade de pontos de vistas é o epifenômeno imediato desse processo e incorre na subversão da própria noção de espaço público por conta da fragilização essencial de sua pluralidade necessária.

Em termos mais amplos, quando o espaço público torna-se espaço do social e não mais da política, por meio da ascensão compulsória da intimidade advinda de alguma unificação, temos as vias de tolhimento da pluralidade e, portanto, o furto insidioso das muletas da democracia. Interessante notar que qualquer movimento que leva à perda dessa pluralidade em tempos modernos incorre tendencialmente numa mudança de aspecto do democrático para o despótico. A homogeneização de um grupo, tornando-se parte soberana em relação ao todo social, tende a se gerir como suficiente. A conclusão final é a vantagem do separatismo ou do despotismo, sendo a possibilidade de preservação das minorias apenas uma condescendência virtuosa que se dá através da resistência de si mesmo. Os direitos humanos, nesse sentido, de fato são prescrições de resistência da modernidade.

Agora, devemos nos debruçar, pelo menos um pouco, no que pode acarretar a unificação de um grupo como maioria e o que pode justificar moralmente para esse grupo a sobreposição de seu ideal sobre o do outro inserido no mesmo contexto político e social.

Antígona, personagem de Édipo Rei, de Sófocles, descrita por Lacan como sujeito embebido pelo Dever elevado ao absoluto, ultrapassa todas os obstáculos da pluralidade para cumprir seu desejo. O princípio maior – soberano e derradeiramente homogeneizador – é o motivo de um certo horror que advém do comportamento de Antígona. O motivo desse estranhamento consiste na supressão executada pela personagem da lacuna existente entre sua vontade política e seu ideal, que deveria ser preservada a partir da constatação da possibilidade de seu senso de realidade advir em alguns momentos de uma falha técnica da existência. Como interpõe Zizek, “o ‘totalitarismo’ não é apenas uma força política que visa o controle total da vida social, que visa tornar a sociedade totalmente transparente, mas sim o curto-circuito entre a Alteridade Messiânica e o agente político determinado.”[6]

Essa frase traduz o aspecto do devir da democracia no momento em que deixa evidente a necessária lacuna entre a ação do sujeito político e o princípio norteador. Quando esse princípio confunde-se com o próprio agente, temos a emersão do aspecto totalitário da ação. Unindo, dentro do possível, Hannah Arendt, Albert Camus e Slavoj Zizek, quando a intimidade torna-se o elemento coletivo que, no caso da epidemia, assume também a lógica de necessidade compartilhada, essa necessidade se torna um tipo de alteridade messiânica, que, entretanto, já se inicia como incorporada a cada ego. A perda da lacuna entre o social e a intimidade é o que corrompe o fundamento do espaço público; corrompe a pluralidade e antecipa a “democracia por vir”. A virada do “por vir” não poderia ser outra coisa senão uma alteração de essência, que transforma a democracia em canal para o despotismo coletivo.

Somos tentados, assim, a afirmar que a epidemia tem como meta pulsional[7] a perda da lacuna entre a Alteridade messiânica e o agente político determinado. A dor compartilhada, em termos psicanalíticos, cria materialidade para a formação espontânea do ego-coletivo unificado, o que pode ser traduzido como criação de uma tensão: como consequência há uma pulsão de unificar a deficiência vista entre a pressuposição de espaço público e a contradição mediante a convergência de intimidades. A meta pulsional é de efetivar finalmente o ego-coletivo, o que tem por consequência uma abdicação das bases de exigência da democracia.

Não seria absurdo, portanto, entender o aspecto irracional e intrínseco da higienização que movimentos totalitários buscam efetivar. No caso da Peste, os sobreviventes de uma epidemia, mediante o terror comum, o medo do contágio, irrevogavelmente se tornam uma alteridade em relação ao Um-doente. A tendência é que o princípio comum da sobrevivência seja suficiente para, como meta pulsional, unificar um grupo de identidade formalmente distinta do grupo dos “contaminados”, que adquirem a qualidade negativa de inimigo comum. A questão é que há uma etapa específica da reviravolta da identidade, em que a pluralidade pública, pela inserção da perspectiva de contaminação, transforma-se em unificação identitária dos não-contaminados versus contaminados; profundamente desumanizante.

Contudo, como um fato relacionado à uma epidemia pode servir de analogia para movimentos políticos que nada possuem de doença? Ora, a fórmula é a mesma: intimidade atormentadora compartilhada por um grupo com mínimas capacidades de auto-resistência. Como exemplo banal, podemos usar os movimentos pró impeachment contra a presidente Dilma após as eleições de 2014 e alguns de seus coros pró intervenção militar. A intimidade compartilhada é apenas a ideia virtual de uma “ameaça comunista”, para a qual, mesmo com evidências tolas, ficam sob enorme emprego da fé. A reação é explicitamente de eliminar o mal, como anticorpos que expelem da fisiologia absoluta o elemento não integrável à lógica de seu modelo de sociedade. É quando, como norteia Daniel Bensaïd, “a diferença conflituosa não é solúvel à diversidade indiferente”[8], mas cujo resultado do incômodo não se mantém apenas na tentativa de transformação social; antes na eliminação sumária, na violência, no “sádico estralar do plástico bolha”, regindo-se soberanamente pelo concerto da pulsão ao invés da maestria da razão.

A conclusão de resistir à realidade é traduzida aqui como resistir à pulsão de desumanizar, de se identificar como forma única preservável. A preservação da noção de democracia em tempos de Peste – e aqui podemos estender o conceito, como o próprio Camus pretendia, para toda forma de contágio político totalitário – é um esforço rogável, em que a intimidade compartilhada não incorre, por meio da reação pró-ativa, em uma distinção de categorias de humanidade, mas, no lugar, preserve a necessária noção de pluralismo. Em tempos de modernidade, resistir a essa tentação da epidemia é a única saída para preservar os direitos humanos.

O que, por fim, pode-se concluir, ao menos de imediato e, talvez, chovendo no molhado, é que parte expressiva dos brasileiros tem um superego ridiculamente impotente; ou uma essência pulsional praticamente inconteste. Beira ao ridículo mediante a história da humanidade se deparar com reportagens sobre xenofobia e racismo com as notícias alarmistas da yellow press sobre imigrantes africanos e o fantasma do Ebola. Como diz, Eliane Brum, “Uma epidemia […] revela toda a doença de uma sociedade.”[9] E, mediante o fantasma político regendo a série de perseguições em massa aos “petralhas” e, também, aos “coxinhas” – afinal, totalitarismo não é exclusividade da direita – no último processo eleitoral, culminando até com uma nova Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, o diagnóstico não poderia ser outro: estamos infestados.

[1] Arendt, Hannah: The Origins of Totalitarism, Preface to the first edition (1951)

[2] Arendt, Hannah: A Condição Humana/ tradução Roberto Raposo – 12. Ed. Rev. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.

[3] Zizek, Slavoj: Alguém disse totalitarismo? : cinco intervenções no (mau) uso de uma noção/ tradução Rogério Bettoni – 1ª Ed. – São Paulo: Boitempo, 2013. – pág. 110.

[4] Ibid. 3.

[5] Caponi, Sandra: Lo público y lo privado en tiempos de peste/ História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI (1), 7-28, mar.-jun. 1999

[6] Ibid. 3.

[7] Aqui cabe a interpretação psicanalítica “Atividade a que a pulsão impele e que leva a uma resolução da tensão interna: esta atividade é sustentada e orientada por fantasias.” – Laplanche, Jean: Vocabulário da psicanálise/ Laplanche e Portalis ; sob a direção de Daniel Lagache ; tradução Pedro Tamen. – 4ª Ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2001.

[8] Bensaïd, Daniel – Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente/ tradução Wanda Caldeira Brant – São Paulo : Boitempo, 2008.

[9] Brum, Eliane : O vírus letal da xenofobia: O primeiro teste no Brasil deu negativo para o ebola, mas positivo para o racismo/ http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/13/opinion/1413206886_964834.html

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2 pensamentos sobre “Resistência em Tempos Modernos, de Felipe Scalisa Oliveira

  1. Muito interessante, Felipe, sua interpretação sobre o alarmismo do ebola. Ao levantar esse ponto sobre o desaparecimento da pluralidade do espaço público, essencial para a democracia como você bem ressaltou, suas ideias me fizeram pensar ainda mais sobre os “sujeitos sociais” que essas perigosas homogenizações constroem: “o doente”, “o petralha”, “o comunista”, e por aí vai. É impressionante como esses sujeitos são facilmente absorvidos pela população em geral, incluindo a mídia. Ao se enraizarem no senso comum, vemos um significativo crescimento do racismo, xenofobia, homofobia, entre outras opressões cada vez mais recorrentes, infelizmente.
    Porém, como você apontou, acredito que a esquerda também necessita se renovar de modo a não incorrer nos mesmos “discursos totalitários”. Somente com outras estratégias de diálogo e ativismo penso que poderemos combater esse conservadorismo.

  2. Pingback: Resistência em Tempos Modernos, de Felipe Scalisa Oliveira | marseacorreaewe's Blog

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