Painel debate aquecimento global e saúde durante o 2º Sibsa

ENSP – “Essa é a imagem do semiárido que a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) acredita e que a gente vê. Não é aquilo que a TV mostra”. Enquanto Valquíria Alves Smith Lima pronunciava a frase, o telão do auditório Ágata, do Minas Centro, mostrava a foto de uma mulher jovem, sorrindo em meio a plantas dos mais diversos tons de verde. Sem dúvida, uma imagem bem distante daquelas que costumam figurar nas reportagens de televisão, no cinema ou mesmo descritas em clássicos da nossa literatura. Quando o assunto são as zonas do nordeste que sofrem com a falta d’água, automaticamente vem à mente a terra rachada, o gado magro, a miséria. A foto de um semiárido verdejante esteve na fala que abriu o painel Mudanças Climáticas, ecossistemas e saúde, no 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente. A mesa contou ainda com a pesquisadora da ENSP, Sandra Hacon, Carlos Corvalán, da Opas e Alexandre Arcanjo Costa, da Universidade Estadual do Ceará.

De acordo com o que relatou a coordenadora da ASA, a resposta para essa nova cara do semiárido brasileiro tem uma palavra chave: cisterna. Para Valquíria, ela é a porta de entrada, de libertação a partir da qual muitas outras políticas sociais e iniciativas pessoais passam a atuar. São muitas as histórias de agricultores que, ao construírem seu próprio reservatório de água, inauguraram uma nova fase de vida. Valquíria explicou como os trabalhadores do semiárido são incentivados a aprender a construir com as próprias mãos as cisternas e de como elas têm sido importantes não só para a agricultura familiar, mas nas escolas onde a falta d’agua, muitas vezes, é responsável pelo cancelamento das aulas.

Se a mídia tradicional e o senso comum falham ao retratar o semiárido, não se sai muito melhor quando fala de aquecimento global, tema da segunda exposição do painel, feita pela pesquisadora da ENSP Sandra Hacon. O assunto é um dos mais debatidos da última década, mas engana-se quem pensa que a população tem sido capacitada para participar de tomadas de decisões nos diversos níveis governamentais. Sandra citou de uma pesquisa de campo no interior do Maranhão em que os entrevistados mostravam uma grande incompreensão sobre a questão. A ignorância até se justifica quando se trata de uma camada menos favorecida da população brasileira, mas quando se trata daqueles que pretendem se tornar mandatários da nação, não se pode alegar falta de informação. Ainda assim, a pesquisadora lembrou que nenhum dos candidatos à presidência falou de mudanças climáticas em suas campanhas.

Os políticos podem até não tocar no tema, por uma ou outra razão, mas há gente que há muito tempo se debruça sobre ele. Cientistas do mundo todo chegaram a um consenso e hoje 97% deles acreditam que o aquecimento global é causado pelas ações do homem. Integrante desse grupo, Sandra encheu o telão com dados: a emissão de CO2 no mundo começa aumentar consideravelmente depois da Segunda Guerra Mundial – um pouco antes, nos anos 30, gráficos elaborados revelam que a temperatura já vinha subindo. Entre as causas estão os processos industriais, uma política equivocada de uso do solo – principal motivo aqui no Brasil -, além das questões agrícolas, de mobilidade urbana e demográfica.

“Na América Latina, mais de 70% das pessoas vivem em áreas urbanas, gerando ilhas de calor”, disse a pesquisadora, que com outros dados lembrou ainda que 25% dos países respondem por 77% das emissões de gases estufas, demonstrando assim que há uma má distribuição dos danos ambientais. Os mais ricos sujam mais, porém a conta acaba dividida por todos.

Mas não só de dados alarmantes foi feita a exposição de Sandra. A pesquisadora mostrou que o Brasil, que já foi o 3º maior emissor de CO2 do mundo, hoje ficou para trás no ranking (segundo dados de 2012, a posição brasileira é o 12º lugar): “Nossa área crítica continua sendo o arco do desmatamento, na Amazônia, mas quando o Brasil estava apavorando o mundo inteiro, o ex-presidente Lula assumiu compromissos de redução da emissão dos gases a um nível internacional”.  Por ser signatário da Convenção do Clima, nosso país agora tem que apresentar, a cada seis anos, um relatório do que vem fazendo para diminuir sua contribuição para o aquecimento global.

A despeito dessa melhora, velhos problemas brasileiros como a falta de saneamento básico, a pobreza e a falta de serviços de saúde não só aumentam o sofrimento da população como dificultam a vida dos cientistas que pesquisam as mudanças climáticas por aqui. “Por conta desses fatores, é difícil estabelecer uma relação entre o aquecimento global e seus impactos na saúde”, disse Sandra. E para listar danos a que estamos sujeitos, a pesquisadora citou a falta d’água e a perda de espécies que nem chegamos a conhecer e que poderiam ser úteis para a indústria farmacêutica.

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