Laerte, a mulher dos meus sonhos – por Deisy Ventura

Corram, porque termina neste domingo a Ocupação Laerte, e não é lugar para uma só visita. Para os mais jovens, porque o acervo exposto é imenso e o espaço é apertado – tem sempre alguém sacolejando de rir ou mosqueando, intrigadésimo, justo em frente à série que a gente está louca pra ver. Para os quarentões ou mais, como eu, a visita é ainda mais lenta. Fui reconhecendo as obras da Laerte que li ao longo da vida e elas me catapultavam de uma época à outra, madeleines de Proust em tirinhas. Minha memória deu razão ao que diz El Roto: as charges são indissolúveis; ainda que o texto morra, o desenho se sustenta no tempo – “el dibujo aguanta” (1).

Entre uma lembrança e outra, fui me deixando picar por Laerte. Digo picar porque, num famoso ensaio sobre fotografia, Roland Barthes nomeou de punctum a picada ou a ferida que determinada imagem causa no espectador (2). Segundo Angeli, “a função do cartunista é alfinetar” (3). No cartoon, diferentemente da fotografia, a “intenção de ferir” estaria sempre presente, e esta ferida seria o riso. Para alguns, o cartoon sem o riso seria uma piada sem graça (4). Não sei se concordo, sobretudo no caso da Laerte, que é tão crítica quanto ao riso, e com razão (5). Parece claro, hoje, que uma parte de sua obra não é nada cômica, e pode causar, como a arte contemporânea em geral, “certo estranhamento a olhos pouco acostumados com imagens desconcertantes, que não remetem a nenhuma referência do nosso arquivo de verdades já tão conhecido” (6).

Cômica ou não, é à obra da Laerte que recorro, já há muitos anos, quando tenho uma aula difícil para dar, em que preciso enfrentar e desconstruir o senso comum de quem me ouve. Neste sentido, a Ocupação é um baita acervo de educação para os direitos humanos, ainda mais genial pela universalidade da linguagem. Quando Baudelaire comentou o trabalho de Honoré Daumier, em 1857, concluiu que “quanto à moral, Daumier tem algumas semelhanças com Molière. Como ele, vai direto ao ponto. A ideia se depreende de pronto. Olhou, compreendeu” (7). O mesmo se pode dizer da Laerte. Passam os anos, reencontro meus ex-alunos e eles lembram das charges e tiras (a maioria esquece alguns detalhes mas guarda perfeitamente a ideia, o que inclusive já documentei em alguns artigos acadêmicos sobre direito e cartoon).

Sem TítuloMas a Ocupação Laerte é também importante porque a obra e a pessoa se confundem. Como não tenho senso de direção, descobri a entrada da exposição quase uma hora depois de começar a vê-la. Então dei de cara com o texto fatal do curador, Rafael Coutinho, explicando que Laerte “é vários e haverá outros”. O texto termina assim (desculpem o spoiler): “Laerte, criatura entre nós. Ele meu familiar pai, um monstro”. Emocionada, tive que sair para respirar e devo ter assustado o rapaz que fica no balcão de informações quando solucei, desafinando: “tem um catálogo?”. A propósito, o catálogo é um caderno lindo, cheio de maravilhas como esta definição da psicanalista Letícia Lanz: “podemos descrever sexo como aquilo que a pessoa traz entre as pernas, gênero como aquilo que traz entre as orelhas e orientação sexual como quem ela gosta de ter entre os braços”.

Já em casa, descobri os vídeos feitos por ocasião da Ocupação (8). Num deles, a escritora Ivana Arruda Leite pergunta à Laerte: “A vida de mulher é boa?” – “A que eu sou é”, responde a diva (9). Li muitas entrevistas em que Laerte se apresenta como “mulher em caráter experimental”. Ou seja, a mulher dos meus sonhos! Um pouco porque a Laerte fugiu da prisão do gênero, e sua atuação política reivindica a urgência de que nenhum sofrimento nos seja imposto pelo que vai entre nossas pernas, orelhas e braços – é um deleite ouvi-la, inteligentíssima, gatona e cheia de graça. Mas, mais do que isto, porque ela exerce o direito à reinvenção, colocando a vida como valor maior do que a normalidade, recusando estes sonhos que os outros sonham em nosso nome. Enfim, talvez, porque meu ideal de mulher é várias e haverá outras, como escreveu Rafael. O que me lembra este trecho impagável de uma entrevista da Laerte: “um dia destes saí à rua e encontrei uma travesti. Não a conhecia e ela olhou para mim e perguntou: ‘Você sai sempre assim vestida?’. E eu respondi: ‘Sim’. Ao que ela pergunta: ‘Quer que olhem para si como uma mulher?’. Eu disse que era essa a ideia. ‘Você tem uns cabelos lindíssimos’, disse ela. Agradeci e observei que toda ela era bonita. Aí ela pergunta: ‘Você está na prostituição também?’. E eu respondi: ‘Quem me dera. Infelizmente sou jornalista’ [risos]” (10).

(1) EL ROTO. 2013. El Roto: “No soy un intelectual comprometido”, Elpublico.es, Valencia, 26/09.

(2)“Piqûre, petit trou, petite tâche, petite coupure – et aussi coup de dés. Le punctum d’une photo, c’est ce hasard qui, en elle, me point (mais aussi me meurtrit, me poigne)”, BARTHES, Roland. 1980; La chambre claire. Note sur la photographie. Paris: Gallimard-Seuil.

(3) ANGELI. 2010. Entrevista concedida a Fernando Luna – Ele não é de oposição nem de situação. É contra a politicagem e o politicamente correto. Trip, 09/08.

(4) XAVIER, Caco. Aids é coisa séria! – humor e saúde: análise dos cartuns inscritos na I Bienal Internacional de Humor, 1997. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, jun./2001.

(5) Ver, por exemplo, seu depoimento no documentário de Pedro Arantes, O riso dos outros

(6) LOPONTE, Luciana Gruppelli. 2008. Arte e metáforas contemporâneas para pensar infância e educação. Rev. Bras. Educ. vol.13, n.37, pp.112-122.

(7) Apud KAENEL, Philippe. 2008. Daumier au point de vue de l’artiste et au point de vue moral. In: Daumier. Paris: BnF.

(8) Disponíveis na playlist <http://www.youtube.com/playlist?list=PLaV4cVMp_odwEaTbDFbS4bfahHnRcU9LN&gt;

(9) Roda de Conversa, Ocupação Laerte

(10) Entrevista concedida a Ricardo Rego, Jornal Sol, 06/07/2014, http://www.sol.pt/noticia/110102

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