Vivemos uma hipocondria generalizada

IHU – Em nossa sociedade contemporânea, parece não haver espaço para as emoções – em especial para as emoções negativas. Ao ser humano, não resta mais a possibilidade de sentir-se triste ou cansado. O mero vislumbre destas sensações gera a urgência da medicação, dos psicofármacos. “Vivemos uma era de hipocondria generalizada”, alerta a cientista social Flavia Costa.

O sentir-se mal com o corpo, torna-se, assim, apenas sensação provisória. Se antes era possível aplicar correções mínimas, com produtos cosméticos ou ortopédicos, hoje as novas tecnologias, em relação ao corpo, orientam uma nova modelagem de si mesmo, um novo cuidado de si. “A biotecnologiaaparece facilitando condições deste ser corrigido, transformado, otimizado.”

Estas ideias foram apresentadas pela professora Flavia Costa, na conferência Corporeidade e biotecnologias, no dia 22-10-2014, como parte da programação do XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Tributária da obra de diversos pensadores, Costa retoma o italiano Giorgio Agamben. Ele reflete que a base da democracia moderna não é o homem livre, com “suas prerrogativas e os seus estatutos. (…) O corpus é o novo sujeito da política”. Esta relação bipolítica ganha suas dimensões a partir do estabelecimento de uma visão tecnificada do corpo e do eu. Pensa-se a eficiência, a performance, a financeirização.

Facebook e Apple se oferecem para pagar congelamento de óvulos de suas funcionárias. O motivo é para que elas não precisem engravidar tão cedo – deixando de render o quanto poderiam no trabalho, sem perder qualidade de material genético”, menciona a professora. O congelamento custa cerca de 10 mil dólares, com a manutenção custando 500 dólares por ano. De acordo com a empresa, até 20 mil dólares podem ser gastos por funcionário.

“A tecnologia opera de maneira direta sobre a vida e a morte. Mais do que isso, operam inclusive sobre protovidas”, destaca Costa, referindo-se a moléculas, genes, células-tronco ou mesmo ao material reprodutor. “Isso apenas se fortalece à medida que os novos processos capitalistas estimulam a marcha de processos de subjetivação.”

Corpo e corporalidade

Foto: Larissa Tassinari

A professora chama a atenção para duas distinções fundamentais. Enquanto “corporeidade” diz respeito àquilo que o corpo é, “corporalidade” é a reflexão que fazemos sobre o corpo. Em um mundo onde princesas têm seu sangue enviado para bancos de células de cordão umbilical, ou em que homens e mulheres investem fortunas para transformar-se em bonecos de plástico, quais os limites para a atuação humana? Qual é a reflexão sobre o corpo a que nos propomos?

Filósofo e doutor em Teologia, o professorJosé Roque Junges, do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unisinos, fez uma intervenção. Retoma, deste modo, a obra Adeus ao corpo (Campinas: Papirus, 2009), de David Le Breton.

Para o antropólogo francês, o discurso científico contemporâneo vislumbra o corpo como mero suporte, algo que pode e deve ser aprimorado, o qual a tecnociência parte em socorro. Seria a tese de Breton confirmada pela visão de corpo de Rose? Para a professora, a resposta é imprecisa. “Breton, como antropólogo, pensa o corpo como experiência”, pontua ela. Já o indivíduo somático de Rose – cuja conduta de vida atribui um lugar central à existência corporal, tem uma concepção muito mais biológica.

Quem é Flavia Costa?

Flavia Costa é doutora em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA). Professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Sociais da UBA e do Instituto de Altos Estudios Sociales (IDAES) da Universidad Nacional de General San Martín (UNSAM). Costa é editora da revista eletrônica Papeles de trabajo e é uma das tradutoras para o espanhol dos livros de Giorgio Agamben.

Ecos do Evento

Prof. Luis Castiel

Prof. Dr. Luis David Castiel – Fundação Oswaldo Cruz

“Eu gostei muito, porque trabalho em uma linha muito parecida com a dela, que é a da discussão da prevenção, dos estilos de vida saudáveis, da ideia de risco como normativa para orientar as pessoas como devem viver. Sobretudo a forma como somos obrigados a construir uma ideia de corpo no qual ficamos prisioneiros, que não é algo que te emancipe.”

  

Daniel Agostini, mestrando em Direito na Unisinos

“Gostei bastante da palestra. Acho muito interessante essa visão de que o corpo e as pessoas são extremamente medicalizados. Então não se pode mais ser triste, não se pode mais ser fraco, enfim… Se dá muito valor para um lado só da humanidade, ou da potencialização do homem e, ao mesmo tempo que se presta atenção no dever de ser potente, se proíbe a não potência – ou a impotência, no caso – como se fosse um controle sobre o corpo, e isso, na verdade, como ela demonstrou, é em prol de corpos para consumo, para mercado.”

Sônia Regina Colli, graduanda em Ed. Física

“Achei o tema e as questões que ela colocou muito interessantes. Não é minha área, mas buscamos sempre conhecimentos diferentes que possam acrescentar na nossa formação. Acho importante não só como profissional, mas como pessoa, e acho que esse tipo de conhecimento acrescenta para que nos tornemos profissionais mais críticos em relação à saúde.”

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2 pensamentos sobre “Vivemos uma hipocondria generalizada

  1. Eu acho interessante o tema e importante para ser mais discutido. Hoje, no dia a dia não se permite que o corpo possa expressar-se. Hoje não há tempo pra estar doente e então precisamos medicamentos de maneira que não há uma verdadeira escuta do corpo. Eu considero fundamental na hora de pensar a saúde, pensar em nossa qualidade de vida e preguntar-se se o corpo é nosso o se na verdade ele não nos pertence. A consciência do corpo é fundamental no momento de pensar em saúde. Se um dia meu corpo não funciona como ele tem que funcionar é por que estou doente e então preciso de medicamento pra continuar utilizando meu corpo como uma maquina. Eu acho que sim vivemos uma era de hipocondria generalizada, como diz cientista social Flavia Costa. Ate que ponto dou prioridade a meu corpo e o escuto e aceto ele, e não estou utilizando ele pra satisfazer a os demais?
    É um debate importante, por que há que se questionar sobre como nossa sociedade, hoje no século XXI olha pra o corpo.
    Ps: desculpem meu portoñol

  2. Um dos pontos cruciais quando se pensa na relação entre corporalidade e saúde está, ao meu ver, não apenas na relação entre o ser humano e seu corpo como entidade biológica, mas nos usos políticos desse corpo, que deve ser adequado a normalizações e fins sociais específicos de poder. É possível mesmo pensar na medicalização do indivíduo como mais um instrumento do biopoder, visto como medicalização social (tomando-se aqui como base as teorizações de Foucault). Uma hipocondria generalizada parece, assim, encaixar perfeitamente nesse processo, na tentativa de uma supressão subjetiva, ou mesmo do corpo como ente puramente biológico. Tendo a infância como um dos lugares centrais de socialização do indivíduo enquanto componente do corpo social, não me parece sem propósitos situar o que se vem alertando por uma medicalização da infância. Com cada vez mais casos de diagnóstico de hiperatividade e transtorno e deficit de atenção, o uso de medicamentos psicotrópicos se mostra cada vez maior, em especial nessa fase da vida em que a aprendizagem e a disciplina escolar tomam boa parte dos espaços de socialização das crianças. Outro componenete dessa medicalização da infância parece residir também em uma definição do normal e do patológico, seguindo-se daí a discussão sobre estigma e corpos desviantes. Em vez de uma adequação dos métodos e estratégias educacionais às necessidades dos alunos em um todo, aqueles que apresentam dificuldades de apreender o conhecimento da forma como se é convencionado passar são colocados ao lado, como aqueles que precisam de ajuda por não terem condições de entender o conteúdo que é passado, sem maiores reflexões sobre as necessidades de apreensão de cada um e como integrar diferentes formas de percepção.

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