A doença sempre está no outro, de Fernanda Aguilar Perez

543305_10151097498421801_186588912_nSe a vida imita a arte, eu não sei. Mas Camus estava certo. Sempre esteve. Não, não estou dizendo que Oran é aqui e que vamos todos morrer (nós vamos, inevitavelmente, mas esse não é meu ponto). Camus estava certo ao descrever o medo, a violência e a sede por controle que epidemias despertam.

A doença sempre está no outro. O outro é a fonte do mal, do desconhecido que pode me matar. Afaste o outro de mim, feche as fronteiras, exija que o outro fique enclausurado. Mas longe de mim, porque eu quero ir e vir, eu quero direito a ter a vacina, eu quero direito ao tratamento. Mas e se o outro morrer?? Ah, isso já não é problema meu.

Claro que é problema seu. Na verdade, é problema de todo mundo. Não é à toa que a epidemia de Ebola suscitou, pela primeira vez na história, uma missão da ONU para a saúde. Não é à toa que ela foi declarada uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional pela OMS. O vírus é altamente virulento e sua taxa de letalidade é alta. Mas não quero falar de epidemiologia hoje. Quero falar de algo absurdamente nojento, algo que se enfia no cérebro, que se finca no neurônio de algumas pessoas e que mata muito mais que Ebola, peste negra e cólera juntos: o preconceito.

Infelizmente, nesta ultima semana, ouvi e me contaram diversos absurdos. Outro dia me disseram que tinham que controlar a entrada desses haitianos no Brasil (pobre Haiti, que em 2014 ainda paga o preço de sua independência precoce). Ou que deveriam pedir exame de sangue “pra todos esses estrangeiros africanos” que querem entrar aqui. Uma amiga contou que lhe disseram que Ebola só dá em africanos – não sei como nem quando o vírus aprendeu a distinguir quem infectar medindo a carga de melanina da pele, ou desde quando na África só existem negros.

Como disse minha orientadora Deisy Ventura, em entrevista a Eliane Brum, “Descrever uma epidemia é uma forma magistral de revelar as diversas formas de totalitarismo que maculam uma sociedade. Neste quesito, os brasileiros não economizaram. A divulgação, por meios de comunicação que atingem dezenas de milhões de pessoas, da foto de um homem negro, vindo da África, como suspeito de ebola, foi a apoteose do fantasma do estrangeiro como portador da doença”

Por quê a mídia tinha, toda vez, que dizer “o africano está em observação no Rio de Janeiro”? “O africano chegou no Brasil há menos de 21 dias.”? Por quê? Quando que ele deixou de ser um homem possivelmente doente e virou “o africano”? A diferença entre eu e ele é mínima: eu tenho um gene X e não um Y, porque sou mulher, e não tenho o gene que estimula a produção de melanina. Sou branca, ele é negro, e nossas diferenças acabam por aí. Somos os dois capazes de chorar, de sentir dor e de amar.

Susan Sontag, em seu livro “Regarding the pain of others”, disse, sobre a cobertura da mídia em guerras: “Quem somos esse ‘nós’?” Os realmente envolvidos na questão, que estão lutando por suas vidas, ou os poucos preocupados com uma nasty war acontecendo em algum lugar do mundo? Já que militarizam a saúde e agora temos a guerra contra o Ebola, a comparação é válida. Enquanto morrem milhares na África, “ah, lá não tem hospital, o povo confia em curandeiro.” Mas quando que a dor no outro vai causar compaixão em nós? Quando que a guerra do outro vai doer em mim a ponto de eu ver que a guerra dele é minha também? Quando que vamos virar o “nós”?

Por quê nós não conseguimos pensar em “nós”, sem distinguir por quem é afetado ou não, por quem é branco ou negro, por quem é africano ou brasileiro, por quê? Por quê precisamos enfatizar tanto essa diferença, tanto esse medo pelo que começou na África? Por quê não conseguimos pensar de modo pragmático e raciocinar “ok, temos a situação x, o que precisamos para lidar com isso, para mitigar o sofrimento e controlar a epidemia o mais rápido possível?”

Tive a honra de ter aula de história africana com prof. Ferran Iniesta, um velhinho que se refugiou na África nos anos do franquismo na Espanha e que virou um dos maiores conhecedores das dinâmicas sociais desse continente. E eu me sentia reduzida a pó em sua aula, tamanha minha ignorância. Eu não sabia da história do Império de Mali, do Egito no que hoje é o Sudão, da grandeza e da força dos reinos Etíopes, da solidariedade das tribos do sul. Eu não sabia nada. Eu desconhecia a beleza da África.

Isso tudo pra dizer que estou mal. Muito mal. Incomodada e quase desesperada. Porque tudo que tenho ouvido e visto foi uma hecatombe na minha cabeça. Preconceito contra um negro, estrangeiro, que teve sua privacidade absolutamente violada. E muita gente na rua defendendo a segregação, a expulsão, sem se questionar se ela gostaria de se ver nessa situação. Xenofobia foi pouco para o que aconteceu no Brasil nesta semana.

Até onde eu estudei, não há direitos humanos para humanos direitos. Existem direitos humanos. Ponto. E eles estão ligados à Saúde Global por um vínculo de garantia de vida digna a toda a humanidade. Saúde Global e Direitos Humanos estão conectados pelo respeito ao homem, pelo entendimento que a plenitude do desenvolvimento das capacidades humanas depende do acesso à saúde, à educação, ao saneamento básico (sim, Amartya Sen e Paul Farmer mandam lembranças). Está mais do que na hora de lutarmos por eles.

Fernanda Aguilar Perez é doutoranda do Instituto de Relações Internacionais da USP

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