Chefe da Missão da ONU para Ebola derrapa na comunicação, de Fernanda Perez

No dia 2 de outubro, o chefe da Missão da ONU para o Ebola deu uma declaração ao jornalThe Telegraph que chamou a atenção do mundo. Segundo Anthony Banbury, devido ao grande número de pessoas contaminadas e à alta virulência do Ebola, um “cenário de pesadelo” poderia ocorrer: o Ebola se tornaria transmissível pelo ar.

Doenças infectocontagiosas per se causam pânico na sociedade há séculos, tanto que podem entrar nesta lista de medo desde peste negra e hanseníase nos anos medievais a vírus mais recentes, como HIV/AIDS e Gripe A (H1N1). As consequências na vida cotidiana das populações são notáveis: restrições de liberdades individuais não são raras de acontecer nesse contexto. Desta forma, uma autoridade designada pelas Nações Unidas não poderia dar uma declaração neste tom.

Minimamente Sr. Anthony Banbury deveria considerar o espetáculo que o Ebola virou na mídia e o pânico potencial que sua fala poderia causar. Uma leitura cuidadosa do texto leva a entender que Bunbury quis criticar a letargia com a qual a comunidade internacional lidou com o Ebola, levando meses para tomar uma atitude mais enérgica em relação à crise. Contudo, o discurso dele só serviu para criar diversas notícias de jornais ao redor do globo sobre os perigos do Ebola transmissível pelo ar.

E o mais importante: o cerne da questão não deveria ser a mutação do vírus. É da natureza de tudo que é vivo a mutação.  O ponto central de todo o debate deveria ser o fortalecimento os sistemas de saúde, melhorando o acesso da população, a qualidade infraestrutura, o número de recursos humanos. Não é à toa que Laurie Garrett, um dia antes desta declaração de Banbury, disse que a maior vulnerabilidade dos EUA ao Ebola são os 43.3 milhões de americanos que não têm acesso ao sistema de saúde.  Só com um sistema de saúde forte e estruturado é que a humanidade poderá lidar com qualquer crise, seja ebola, seja gripe aviária, seja a mutação do vírus que for.

Fernanda Aguilar Perez é mestre em saúde pública e doutoranda em Relações Internacionais da USP

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