As Doenças Negligenciadas, de Afonso André de Paiva Cavalcante

O Programa das Grandes Doenças Negligenciadas da Humanidade, inaugurado em 1977 pela Fundação Rockfeller, foi pela primeira vez utilizado o termo “doenças negligenciadas”. De acordo com a própria linha de estudos da Fundação Rockfeller, estas englobavam essencialmente doenças tropicais(1).

Em 1999 a OMS, em conjunto com os Médicos sem Fronteiras, lançou um programa para lutar contra essas doenças, assim oficializando a categorização(2). As doenças consideradas negligenciadas pela OMS são 17:Úlcera de Buruli, doença de chagas, cisticercose, dengue, doença do verme-da-guiné, equinococose, fasciolíase, doença do sono, leishmaniose, lepra, filaríase linfática,oncocercíase, raiva, esquistossomose, tracoma, bouba e parasitoses transmitidas pelo solo(3) . Em 2012 se estimava que essas doenças afetassem as vidas de 1 bilhão de pessoas(4).

Por meio da denominação e da definição de um grupo de doenças que deveriam ser melhor estudadas foi possível obter vários avanços no combate a essas doenças. Essa tipificação, no entanto, falha em considerar somente as doenças com maior incidencia e permanencia nas sociedades, um recorte específico de doenças. Muitas outras doenças que poderiam ser consideradas “negligenciadas” não figuram nesta lista e por isso não recebem quase nenhuma atenção da comunidade internacional apesar de afetarem um grupo largo de pessoas e terem um potencial infeccioso grande. Ao observar com mais atenção o significado de negligencia é possível extrair um significado mais abrangente e que pode nos ajudar a lidar melhor as políticas publicas e a atenção mundial às várias doenças negligenciadas.

As Doenças Que São Negligenciada

s.f.

  1. Qualidade de negligente.
  2. Incúria, falta de diligência, desleixo.
  3. Falta de atenções, menosprezo. (5)

Negligenciar, então, significa tratar com desleixo e desatenção, menosprezar. No linguajar jurídico a negligência decorre de não realizar uma ação que é adequada à situação, não cumprir um dever é negligência.Por exemplo, se o dono de um carro deixa de verificar os freios de seu carro isso é considerado negligencia, e muitas vezes pode resultar em um acidente.

A negligência muitas vezes é derivada da sensação de custo que vem da atenção aos detalhes requeridos, outras vezes é simplesmente o menosprezo como se aquilo não apresentasse ameaça.

Usando uma definição ou outra, dizer que certas doenças são negligenciadas é muito grave. Não significa especificamente que não hajam recursos para tratar as doenças ou que não haja tratamento, mas que essas doenças são colocadas de lado, ignoradas apesar de interferirem com milhares de vidas por ano.

A Organização Mundial da Saúde também explica que as doenças negligenciadas são chamadas assim porque “afetam as populações mais pobres, vivendo em áreas rurais remotas, favelas ou zonas de conflito. Essas doenças persistem sob condições de pobreza e se concentram quase exclusivamente nas populações empobrecidas dos países em desenvolvimento.”(4)

Porém, usando essa definição em conjunto com o conceito de negligência, as doenças que poderiam ser classificadas como “negligenciadas” é muito maior do que a lista colocada ao início deste texto. As doenças que são negligenciadas são aquelas que não afetam os que têm o poder e os recursos para promover a luta contra elas, apesar de afetarem parcelas grandes da população. As doenças negligenciadas são as doenças dos negligenciados, são as doenças que são tratadas com menosprezo e descaso, certamente não por todos, mas por uma grande parte daqueles que não são afetados por elas.

Por quê certas doenças são negligenciadas

Talvez, mais do que simplesmente negligência, o que ocorra com essas doenças que são postas de lado seja que, como elas não afligem diretamente as pessoas com poder, se forme um recalcamento com relação a elas, da mesma forma como descreveria Norbert Elias.

A ilusão de imortalidade e segurança, a sensação de que nossa sociedade consegue curar a maior parte das doenças e que essas mazelas são exceção, é geradora de um processo pelo qual a morte e os próprios moribundos são colocados de lado pela sociedade, inconscientemente. Esse recalcamento leva a um afastamento entre os grandes tomadores de decisões e aqueles que sofrem as mazelas dessas doenças, que muitas vezes têm tratamento. Dessa forma, apesar de as doenças serem bem reais e terem efeitos terríveis elas são tratadas com menosprezo e desatenção, pois esse mecanismo psicológico de afastar de si a imagem da morte incorre no afastamento dos doentes e, em um caso extremo, no afastamento da própria consciência de que sequer exista a doença. (6)

É possível usar esse conceito ampliado de doenças negligências e recalcadas para analisar a Febre de Lassa e a Ebola, e verificar como essa lógica se aplica de maneira bem claro à segunda.

A doença chamada Ebola foi descoberta em 1976, no então chamado Zaire, por um médico belga em expedição. Em um primeiro surto a doença teve 318 casos, dos quais 280 resultaram em morte. Este primeiro surto foi contido pelo governo do Congo em conjunto com a Organização Mundial da Saúde. Outros surtos ocorreram até 2013, com um número de mortes de: 151 em 284 casos, no Sudão em 1976; 254 em 315, no Congo em 1995; 224 em 425, Uganda em 2000; 128 em 143, no Congo em 2003; e 187 de 264, novamente no Congo em 2007. Os surtos subsequentes foram menores, indicando talvez uma evolução nas condições de contenção da doença, os numeros de casos nos surtos seguintes foram: 149 casos em Uganda em 2007, 31 casos em Uganda em 2012 e 57 no Congo em 2012, as mortes totais desse período foram 87. De 1976 até 2013 a Doença Ebola teve 1590 mortes confirmadas. A taxa de mortalidade variou entre 25 e 90 por cento.(7)

Já nesse ponto é possível afirmar que apesar de a Ebola ser considerada uma doença rara ou doença órfã pela OMS(ou pelo menos ter caído nessa definição anteriormente)(8), ela guarda muitas das características que a levariam a ser considerada uma doença negligenciada. O fato de ela afetar majoritariamente uma região tropical, países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento e principalmente populações carentes gera um questionamento se essa doença, assim como muitas outras, não cairia na definição de doenças negligenciadas, merecendo um tratamento condizente. Apesar de ser estudada, poucas medidas foram tomadas para impedir um ressurgimento da doença.

O novo surto de 2014, provou ser ainda mais assustador por conseguir superar o número de mortes acumuladas ao longo de quase 30 anos em menos de 6 meses. Este crescimento súbito do número de incidencias e de mortes, seguido pela apreensão da comunidade internacional a respeito da possibilidade de a doença se espalhar para mais países trouxe nova atenção sobre o assunto, mas ações internacionais foram lentas e somente quando o surto tomou proporções excepcionais o assunto tornou-se pauta urgente das discussões. Em 8 de setembro o número de casos estimado pela OMS era de mais de 4.000, com mais de 2.000 mortes estimadas(9), uma taxa de mortalidade em torno de 50%.

A Febre de Lassa guarda algumas semelhanças com a Ebola: é uma febre hemorrágica viral; seu nome também é derivado do local de sua descoberta – a cidade de Lassa; foi descoberta perto da mesma época, 1969(16); e sua incidencia é restrita à Africa(10). Ao contrário da Ebola, a taxa de mortalidade da Febre de Lassa é baixa, em torno de 5%, mas devido à incidência alta, variando entre 300.000 e 500.000 casos por ano, o número de mortes anual da doença chega a 5.000.(4)

Muitas pessoas atribuem a nova atenção recebida pela Ebola ao número de mortes, mas o número anual de mortes por febre de Lassa ainda é maior do que todas as mortes contabilizadas por Ebola. O crescimento exponencial do número de casos e mortes é um argumento consistente para a maior atenção à doença, pois é necessário conter o surto antes que ele piore, mas esse motivo para alarme corrobora para a interpretação derivada do recalque.

Doenças que afetam um número constante de pessoas e não se espalham pelo mundo possibilitam a prorrogação da ilusão de imortalidade e imunidade, de segurança com relação às doenças e enfermidades, assim como as doenças que diminuem em número, pois a possibilidade de extravasarem de suas regiões endemicas é pequena. Já as doenças que crescem em número e afetam grandes centros, próximos a aeroportos, possuem a capacidade de afetar as pessoas próximas de nós, e nós mesmos. Estas doenças constituem um risco, afetam nosso recalque da morte e nossa sensação de proteção, gerando panico e um frenesi de contenção que parece uma caricatura tirada de filmes, mas que infelizmente é real.

É desse modo que a Ebola, uma doença com um número de mortes relativamente pequeno e até então quase totalmente ignorada pela mídia e opinião pública da comunidade internacional, torna-se o centro das atenções e possível alvo de uma intervenção(11). Ao quebrar a ilusão de distanciamento e de que essa doença era localizada ela deixou de ser negligenciada para se tornar uma emergência global de ameaça à saúde publica(12). A grande ilusão relativa a todo o caso é a de que o problema será resolvido ao se conter o surto atual da doença.

Afonso André de Paiva Cavalcante é aluno da disciplina de Saúde Global

Referencias

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/prioridades_invest/i2_tela4_2.html Último acesso em 19/09/2014 11:05(1)

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14579454 Último acesso em 19/09/2014 11:05(2)

http://www.who.int/neglected_diseases/diseases/en/ Último acesso em 19/09/2014 11:06(3)

http://www.who.int/features/qa/58/en/ Último acesso em 19/09/2014 11:07(4)

http://www.dicionariodoaurelio.com/neglig%C3%AAncia Último acesso em 19/09/2014 11:09(5)

Elias, Norbert- A solidão dos Moribundo Editora Zahar, 2014 https://www.copy.com/s/eSZZ7CIhPP0p/ELIAS%2C%20Norbert.%20A%20Solid%C3%A3o%20dos%20Moribundos.pdf Último acesso em 19/09/2014 11:11(6)

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/ Último acesso em 19/09/2014 11:11(7)

http://www.plosntds.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pntd.0001546 Último acesso em 19/09/2014 10:49 (8)

http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/132834/1/roadmapupdate8sept14_eng.pdf?ua=1 Último acesso em 19/09/2014 11:15(9)

http://www.cdc.gov/vhf/lassa/resources/Lassa-FactSheet.pdf Último acesso em 19/09/2014 11:10(10)

http://www.aljazeera.com/news/americas/2014/09/obama-announce-plan-beat-ebola-201491664237417853.html Último acesso em 19/09/2014 11:05(19)

http://online.wsj.com/articles/ebola-virus-outbreak-is-public-health-emergency-world-health-organization-says-1407481875 Último acesso em 19/09/2014 11:05(20)

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