Favela em quarentena é símbolo da gravidade do ebola na Libéria

Membro de grupo humanitário distribui sacos de água para moradores de West Point, na Monróvia (Foto: AP Photo/Abbas Dulleh)

Membro de grupo humanitário distribui sacos de água para moradores de West Point, na Monróvia (Foto: AP Photo/Abbas Dulleh)

Com mais de 70 mil moradores, West Point tem falta de água e comida. Bairro de Monróvia foi isolado após invasão a centro e fuga de pacientes.

G1 – Com cerca de 75 mil moradores, a favela de West Point, em Monróvia, se tornou uma espécie de símbolo da gravidade da epidemia de ebola que atinge a Libéria. Na última semana, o bairro da capital registrou o saque de um centro de isolamento, de onde fugiram pacientes em tratamento, conflito de moradores com a polícia e falhas graves no fornecimento de água e comida.

Os problemas causados pela doença começaram antes mesmo de a presidente do país, Ellen Johnson Sirleaf, decretar que West Point (assim como Dolo Town, em Margibi) entraria em quarentena na quarta-feira (20).

No sábado (16), um centro de isolamento foi invadido por homens armados, que assustaram e provocaram a fuga de 17 internos. O ato aconteceu após o surgimento de boatos de que o governo estaria levando para lá doentes de outras cidades. Além disso, existem ainda liberianos que desconfiam da gravidade ou mesmo da existência da epidemia de ebola, argumentando que essa seria uma “invenção” das autoridades para desviar a atenção em relação a outros problemas. Durante o ataque ao centro, havia inclusive pessoas gritando que o “ebola não existe”, segundo testemunhas citadas pela revista “Time”.
Na terça-feira (19), todos os pacientes foram localizados em casas de parentes e enviados para outro centro. A preocupação das autoridades em relação ao contágio, no entanto, não se restringiu ao período em que eles tiveram contato direto com pessoas saudáveis, mas também com o fato de que os invasores teriam levado colchões, lençóis e outros materiais potencialmente contaminados.

A invasão ao centro fez com que a presidente determinasse para West Point uma vigilância ainda mais severa do que o toque de recolher aplicado ao restante do país. Mas os moradores afirmam terem sido pegos de surpresa. A repórteres de agências como BBC e Associated Press, eles disseram não terem sido informados com antecedência e não terem tido tempo para estocar alimentos, por exemplo, além de estarem impossibilitados de trabalhar ou mandar os filhos para a escola.

Já no primeiro dia da quarentena, ruas de acesso a West Point começaram a ser bloqueadas com arame farpado, grades e até mesas e cadeiras. Nesse mesmo dia, policiais escoltaram uma funcionária do governo e sua família para fora da área restrita. Isso provocou uma revolta de moradores, que atiraram pedras e atacaram os oficiais. Estes, por sua vez, lançaram bombas de gás lacrimogêneo para conter a multidão. Ao menos um homem foi baleado.

Nos dias seguintes, os moradores passaram a contar com a distribuição de comida e água por grupos humanitários, mas se queixam de quantidades insuficientes e falhas na entrega. Os preços de mantimentos nos pequenos mercados dentro da favela dispararam e muitos itens essenciais já estão esgotados.

2014-08-21t223606z_10069400Forças de segurança se posicionam em frente a
manifestantes após confrontos na favela West
Point, em Monróvia, na Libéria, na quarta-feira (20)
(Foto: Reuters/2Tango)

Para o escritor liberiano e pesquisador da Universidade de Londres, Robtel Neajai Pailey, a situação em West Point não é simplesmente causada pelo ebola, mas sim uma demonstração do que chama de crise de cidadania em um país que não atende às necessidades dos mais pobres, e que compara a “um caldeirão em ebulição”.

Em artigo publicado sexta-feira (22) no jornal britânico “The Guardian”, é a isso que Pailey atribui a desconfiança de famílias que preferem esconder seus doentes em casa, profissionais de saúde que se recusam a trabalhar por temerem condições inapropriadas e até mesmo daqueles que invadiram o centro de isolamento e dos que duvidam da gravidade da epidemia e acreditam em uma mera conspiração do governo para arrecadar doações internacionais.

Mas, também do ponto de vista sanitário, West Point é um lugar que deixa claro por que a Libéria é assim tão vulnerável e soma a maior parte dos 2.615 casos confirmados no continente (Guiné,Serra Leoa e Nigéria também registram casos).

Poucas casas na favela têm (precários) banheiros próprios e os mais de 70 mil moradores contam com apenas quatro banheiros públicos. Segundo dados do site da Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas, cerca de 500 pessoas por dia usam as latrinas comunitárias e o mau cheiro dessas instalações pode ser sentido a 50 metros de distância. No lugar de papel higiênico há apenas jornais, que são recolhidos em carrinhos de mão por funcionários e despejados em um rio que margeia a favela. As águas são ainda o destino dos dejetos acondicionados em sacos plásticos por aqueles que preferem não usar os banheiros públicos.

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