Descobridor do Ebola critica OMS por resposta lenta

Peter Piot descobriu o ebola em 1976 no Congo (Foto: Peter Piot)

Peter Piot descobriu o ebola em 1976 no Congo (Foto: Peter Piot)

G1 – Para o belga Peter Piot , medidas tradicionais preconizadas pela organização não foram eficazes e sugere liberação de uso de drogas experimentais.

Descobridor do vírus ebola, em 1976, o pesquisador belga Peter Piot criticou em entrevista à BBC a maneira como a OMS vem lidando com o atual surto da doença, que já matou quase mil pessoas neste ano no oeste da África, e defendeu o uso de um medicamento experimental, ao qual a organização se opôs.

Dois americanos infectados na Libéria e transferidos aos Estados Unidos estão sendo tratados com a droga experimental e vêm apresentando melhoras.

Até agora, a OMS vem se opondo ao uso de drogas cujas eficácia e segurança não foram adequadamente testadas, sob o argumento de que não é “ético, viável ou sensato”. No entanto, a organização vai decidir se muda sua posição.

“Quando você tem uma doença que mata 90% dos indivíduos infectados, eu acho que é justificável usar, do ponto de vista ético”, afirmou Peter Piot, que atualmente é diretor da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical, em Londres.

“Eu acho que uma coisa é clara, se tivéssemos uma epidemia desse tipo aqui (Reino Unido), era o que iria acontecer: haveria uma convocação para usar, o mais rápido possível, qualquer droga experimental”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Piot reconheceu as dificuldades específicas de utilização de novas drogas na Guiné, na Libéria e em Serra Leoa, os países mais afetados pela epidemia.

“O que eu concordo com a OMS é que nós temos que discutir com as pessoas nesses países se isso é possível, especialmente em um clima de extrema desconfiança, que beira a paranóia, se os médicos ocidentais poderiam experimentar a droga com a população local”, disse.

Nesta sexta-feira, a OMS declarou emergência internacional por conta do surto de ebola e pediu uma série de medidas para melhorar a detecção do vírus e a contenção da transmissão, mas não impôs restrições à circulação de pessoas nem tocou na questão dos medicamentos.

A falta de dinheiro
Os dois americanos que experimentaram uma melhoria aparente foram tratados com a droga ZMapp, desenvolvida pela empresa de biotecnologia Mapp Biofarmacêutica Inc., previamente utilizada apenas em macacos.

Piot aponta que há algum tempo têm se experimentado vacinas e medicamentos para os quais não há mercado.

“Por falta de dinheiro, não se fez mais testes, e a única maneira de provar que ele é eficaz é testar em seres humanos. Esta não é uma droga na qual as empresas farmacêuticas vão investir centenas de milhões de dólares”, disse, notando a necessidade de buscar financiamento para o seu desenvolvimento.

“Não devemos esperar até a próxima epidemia para começar a tratar pacientes. É preciso ter o apoio do público para que possamos estar prontos quando ocorrer o próximo surto”, disse.

O médico americano Kent Brantly, que foi infectado pelo ebola na Libéria, em foto sem data (Foto: Joni Byker / SAMARITAN'S PURSE / AFP)
O médico americano Kent Brantly, que foi infectado pelo ebola na Libéria, em foto sem data (Foto: Joni Byker / SAMARITAN’S PURSE / AFP)

 

“Resposta lenta”
Piot também enfatizou que, diante o tamanho do surto, o maior até hoje, a abordagem tradicional de isolar os pacientes e acompanhar os contatos do paciente não foi eficaz.

“A OMS está finalmente se atentando sobre a resposta dada”, disse ele. Esta epidemia provavelmente começou em dezembro, foi confirmada em março na Guiné e somente na semana passada tivemos uma real mobilização”.

Piot disse que está confiante de que o surto não se torne global.

Ele explicou que o vírus necessita de um “contato muito próximo” para se espalhar. No entanto, reconheceu estar preocupado com a situação atual.

“Quando eu trabalhava em 1976, no primeiro surto de ebola conhecido, nunca imaginei que chegaria a envolver quatro países e que seria tão difícil de parar”, disse.

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