E agora, professor?

Ciência Hoje – Estudiosos discutem o papel do professor e da escola diante da popularização de novas mídias, que facilitam o acesso à informação e colocam em xeque o antigo lugar do educador como um guardião do saber.

Por: Sofia Moutinho

E agora, professor?

Com a popularização de novas mídias que facilitam o acesso a informações, o papel do professor é repensado. (foto: Fernando Marroni/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Se até a década de 1990 os estudantes tinham que se valer de livros didáticos e grossas enciclopédias de papel para ter uma resposta decorada na ponta da língua, hoje a informação é obtida em segundos com uma simples busca na internet, que pode oferecer dados novos até para o professor. Celulares com acesso à rede, computadores e tablets já fazem parte do ambiente escolar – queiram pais e educadores ou não. E qual é o papel do professor diante desse cenário?

A questão que não quer calar foi tema de discussão na semana passada durante o evento ‘Intervalo: mídia-educação em debate’, que reuniu professores e estudiosos da educação no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). Para a professora Lucia Santella, especialista em mídias da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que participou dos debates, estamos vivendo uma nova era midiática e os professores precisam se adaptar a ela.

“As novas mídias provocaram um abalo sísmico na hegemonia e na soberania do mundo do livro; já não podemos mais pensar em educação sem pensar nos meios que temos disponíveis”, afirmou. “Hoje vivemos o apogeu da inteligência coletiva, nossa inteligência está muito mais fora da nossa cabeça que dentro dela: estão aí para mostrar isso o Google e todos os outros aplicativos que estendem a nossa capacidade de conhecimento.”

No atual cenário tecnológico, o professor perdeu o papel de autoridade do conhecimento que tinha durante o século 19

No atual cenário tecnológico, em que o acesso às informações é cada vez mais facilitado pela internet e por aparelhos eletrônicos que podemos carregar no bolso, a pesquisadora acredita que o professor perdeu o papel de autoridade do conhecimento que tinha durante o século 19.

“O educador não é mais uma pessoa da qual a educação depende”, frisou. “Existe agora uma forma de aprendizagem que é a ubíqua; qualquer criança pode ter mais acesso ao conhecimento sobre determinado assunto que o seu professor.” E continuou: “Não existe mais autoridade do conhecimento, por mais que uma pessoa tenha passado a vida acumulando informações, ela não pode competir com o Santo Graal que é o Google.”

A educadora Rosália Duarte, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), destacou que, apesar da disponibilidade tecnológica e dos novos paradigmas que se apresentam, grande parte das escolas ainda opera com a lógica do modelo positivista de educação concentrado nas disciplinas e na repetição de conteúdo.

“A escola que conhecemos nasceu no século 18, quando conhecer era repetir e memorizar os enunciados dos que nos antecederam, conhecer era se apropriar de um enunciado e repeti-lo de forma mais aproximada possível”, lembrou Duarte. “Hoje, conhecer é elaborar, pensar é estabelecer relações.”

Enciclopédia
O professor deixou de ter o lugar de guardião do saber para ser considerado um mediador do conhecimento. (foto: Marco D/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Para a estudiosa, ganha relevância atualmente o papel do professor como mediador – figura que estabelece conexões junto com o aluno e participa ativamente da construção do saber.

“Enquanto acharmos que conhecer é consumir informação e repetir informação, estaremos abrindo mão do papel fundamental do professor, que é o de mediador”, argumentou. “Entrar na internet e achar as equações da física que explicam o Big Bang não é suficiente para operar com os conceitos da física; é tarefa dos professores levar o aluno a compreender a lógica a partir da qual a ciência é feita.”

Duarte: “Enquanto acharmos que conhecer é consumir informação e repetir informação, estaremos abrindo mão do papel fundamental do professor, que é o de mediador”

Para o professor de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF) Cezar Migliorin, coordenador do projeto ‘Inventar com a diferença’ – que usa o cinema como base para capacitar professores e refletir sobre os direitos humanos com os alunos –, outra mudança fundamental na escola é acabar com a hierarquização da inteligência entre professores e alunos.

“A escola tem que ser democrática, temos que partir do princípio da igualdade de inteligências e isso não quer dizer que todos têm a mesma capacidade para tudo, mas que todos têm o potencial de inventar algo, tanto professores quanto alunos”, pontuou Migliorin.

Mundo jovem

Todos os dias novas mídias são lançadas. Diante do rápido desenvolvimento tecnológico, o professor tem a difícil empreitada de se manter atualizado e acompanhar não só as plataformas mais recentes, mas também o modo pelo qual seus alunos se apropriam delas.

“O aparelho fonador que está em nosso próprio corpo ainda cumpre uma função insubstituível, mas hoje temos vários outros tipos de mídias com os quais interagimos e convivemos cotidianamente e dos quais os professores devem estar cientes”, diz Rosália Duarte. “Temos que fazer um esforço para sentir e pensar o mundo dos jovens.”

Com esse propósito, foi lançado durante o evento o site Prisma, um espaço de reflexão que reúne textos e materiais diversos sobre o universo jovem e sua interseção com a educação. Na página, direcionada a educadores, há dicas de cursos de aperfeiçoamento, livros e encontros voltados para o debate sobre a educação e as novas mídias.

Site Prisma
Na página virtual Prisma, o professor encontra material sobre o mundo jovem e a relação entre novas mídias e educação. (foto: reprodução)

Outro apoio para professores interessados em se inteirar do universo de seus alunos é a plataforma digital Latitude, criada pelo Instituto Desiderata em conjunto com o Observatório Educação e Cidade. A página, também lançada durante o evento, disponibiliza, de forma interativa, dados pedagógicos e indicadores educacionais oficiais do município do Rio de Janeiro.

Os dados são apresentados de maneira georreferenciada em um mapa, no qual é possível consultar, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de uma escola específica. A ferramenta é uma boa opção para professores que queiram conhecer melhor a realidade da educação em sua vizinhança.

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

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