Comissão da Verdade da Reforma Sanitária em debate na aula inaugural da Fiocruz

ABRASCO – Vozes embargadas marcaram a aula inaugural da Fiocruz nesta terça-feira, 18 de março, no auditório da Escola Nacional de Saúde Pública. Sob o tema Ciência e Democracia: a Fiocruz e a Comissão da Verdade da Reforma Sanitária (Abrasco/Cebes), o debate foi pontuado pela emoção de quase todos os participantes que, muitas vezes, tiveram o discurso interrompido por lágrimas.

 

‘1964 está muito perto de nós’

 

Na mesa de abertura, Paulo Gadelha (presidente da Fiocruz); Nísia Trindade Lima (vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz); Justa Franco (vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz) e ainda Norhan Sumar (Associação de Pós-Graduandos da Fiocruz) detalharam o tema deste ano, trazendo luz ao tema Ciência e democracia, com base na Comissão da Verdade da Reforma Sanitária. “Nosso objetivo é sempre falar aos estudantes que nossa escola vai muito além da ciência, saúde e tecnologia: nós somos cidadania”, lembrou Nísia que pontuou ainda estes 50 anos de golpe civil militar com a frase ‘1964 está muito perto de nós’.  Paulo Gadelha frisou o compromisso da instituição com este recorte da história do país “ainda impregnado de medo. Podemos ainda resgatar as possibilidades do Brasil que ficaram pelo caminho, acredito que podíamos ser agora um país melhor”, arrematou Gadelha.

 

 

 

“O maior inimigo do pensamento totalitário é o pensamento livre”

 

Ainda durante o debate da manhã, houve o Painel: Os Anos de Chumbo na Fiocruz e a Comissão da Verdade da Reforma Sanitária (Abrasco/Cebes) com a participação de Lia Geraldo (representante da Abrasco na Comissão da Verdade da Reforma Sanitária), Ana Costa (presidente do Cebes), Hermano Castro (diretor da Ensp e membro da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária), Anamaria Tambellini (presidente da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária) e ainda Renato Cordeiro (pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz). O Painel foi coordenado por Umberto Trigueiros (diretor do Icict e integrante da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária) que iniciou a apresentação lembrando quem é o maior inimigo do pensamento totalitário: “é o pensamento livre”. Ainda para Umberto, o Brasil já foi um país onde nomes como San Tiago Dantas, Darcy Ribeiro e Celso Furtado assumiram importantes ministérios, “hoje remexemos nessas cinzas da ditadura, que ainda não são cinzas, para entendermos que continuamos sendo um país excludente, onde uma auxiliar de serviços gerais, que morreu após ser baleada numa uma operação na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi ainda arrastada por um carro da Polícia Militar”,  pontuou Trigueiros.

 

Anamaria Tambellini abriu sua explicação sobre a Comissão, enfatizando que sabemos muito pouco de coisas que pensamos saber ““Temos o direito e dever de contribuir para a restauração dessa verdade que conduza à reparação dos atos de violação e suas consequências, as pessoas querem contar suas experiências, discutir a questão”, pontuou Anamaria. O objetivo principal da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária é investigar as violações dos direitos humanos por agentes do Estado entre 1964 e 1985 contra profissionais e trabalhadores da Saúde.

 

 

Representando a Abrasco, a professora Lia Giraldo (membro do GT Saúde e Ambiente) lembrou a trajetória da Associação Brasileira de Saúde Coletiva “que nasceu nos anos de chumbo da ditadura militar, em 1979, sob a iniciativa de intelectuais sanitaristas de esquerda, a maioria organizados na época no Partido Comunista Brasileiro. A Abrasco foi uma trincheira de luta, por um lado contra a ditadura militar e pela redemocratização do país, e por outro, por políticas de saúde capazes de garantir o direito humano universal à saúde de nosso povo” enfatizou Lia.

Fechando a manhã de debates, houve a conferência Arquivos da Ditadura, proferida pela professora da UFMG e coordenadora do Projeto República, Heloisa Starling. “Estou muito feliz mas ao mesmo tempo muito nervosa, hoje vou falar para quase toda minha bibliografia!” brincou Heloisa. Recentemente a historiadora  listou o que ela classifica como “silêncios” da sociedade atual a respeito do período ditatorial. O primeiro desses silêncios, segundo ela, diz respeito à participação dos empresários no golpe e nas estruturas que sustentavam a ditadura, como o aparato repressivo. O segundo é sobre as ações dos militares contra alguns setores específicos da sociedade: “Sabemos pouco sobre o que aconteceu com os camponeses e nada sobre o que fizeram com os índios”, afirmou. Outra lacuna são os arquivos documentais de órgãos de segurança e inteligência daquela época, “material que os militares até hoje se recusam a entregar”. O último silêncio, segundo ela, é com relação ao alcance e as estruturas do próprio aparato de repressão.

 

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