Resgatar saúde pública é caminho para que os Brasis se encontrem, de Marcelo Semer

Blog do Marcelo Semer – As reações aos movimentos de protestos podem nos dar uma oportunidade ímpar de fazer com que os nossos Brasis se encontrem.

Entre os manifestantes que exigem ‘hospitais públicos padrão-Fifa’ e os postos de saúde vazios interior afora, há uma distância gigantesca.

A distância de dois países que mal se comunicam e pouco se conhecem.

Quem sabe não é o momento de apresentá-los?

Porque, afinal de contas, não basta sair às ruas. É preciso reconhecer quem vive nelas.

A hora também exige cautela para que o movimento que nasceu libertário e na lógica da solidariedade não se contamine pelo egoísmo.

O exemplo fornecido pela última edição da revista Veja é um sinal de alerta: sua sugestão para excluir direito de voto a beneficiários do Bolsa-Família é uma despudorada evocação do voto censitário, que nos remete nada menos que ao Império. Como, aliás, já havia sido a campanha de memória escravocrata em reação à PEC das Domésticas.

Jogar a classe média contra a pobreza só interessa mesmo a quem fatura com a miséria.

Na área da medicina, por exemplo, a degradação da saúde pública nas últimas décadas acabou por vitaminar justamente as instituições financeiras que controlam a saúde privada.

Salvo raras exceções, os médicos vêm abandonando a profissão liberal para viver como empregados mal remunerados de companhias seguradoras. Não só por comodidade, mas também por interesses de mercado das próprias empresas, é que trabalham nas áreas onde existe clientela e, portanto, faturamento.

Os planos de saúde pouco regulados conseguiram a proeza de, excluindo desde logo a pobreza, castigar a classe média dos dois lados do estetoscópio.

Só isso já seria motivo suficiente para que houvesse um maior envolvimento de todos os interessados, médicos e pacientes, no fortalecimento da saúde pública.

O modelo da área jurídica, com dedicação integral e exclusiva e salários atraentes, possibilitou povoar o interior com serviços da Justiça. Quem sabe a proposta do governo não avance para esse caminho.

O modelo privatista, como em outras áreas, é excludente e se imanta ao dinheiro –ou seja, está sempre onde menos é necessário.

Resgatar a saúde pública como paradigma do sistema e atuar para reduzir as desigualdades regionais nem deveriam ser consideradas propostas de governo: são determinações expressas da Constituição Federal.

Fazer a população mais carente se apropriar do que é público é o sentido básico da ideia de República que, de uma forma ou de outra, acabou lembrada, ainda que inconscientemente, nas avenidas do país.

Não haverá mais educação, mais saúde, mais transporte se prevalecer a lógica do serviço como mercadoria. Os limites do mercado são estreitos demais para atender a todos.

Essa é a conclusão a que manifestantes, governos e partidos acabarão por chegar mais cedo ou mais tarde: um ataque à corrupção é também um ataque aos corporativismos e à submissão a margens incontroláveis de lucro.

Porque a República só será de todos se não for apenas de alguns.

 

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