Amor e Solidão, de Dan Novachi, Júlia Yuri e Victor Biagioni

“O problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos”

A frase acima de Norbert Elias no livro A Solidão dos Moribundos[i] resume bem o embate que se dá entre espectador e a obra fílmica de Amor, do diretor austríaco Michael Haneke com os atores franceses Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Em Amor, a personagem de Emmanuelle Riva (Anne) sofre um derrame e decide fazer uma intervenção cirúrgica, com alto índice de sucesso, para prevenir complicações futuras. Entretanto, acontece o inverso. Georges, seu marido, informa à filha que seu caso se colocara nos 5% de probabilidade de fracasso. O que vemos a seguir é uma sucessão de cenas, com lapsos temporais indeterminados, em que a condição de Anne degrada-se continuamente. O espectador não é poupado de cenas banais de seu cotidiano: o banho, a alimentação, a fisioterapia; cenas cujo tempo é estendido além do limite fílmico esperado, e que trazem uma profunda sensação de incômodo a grande parte dos espectadores. Cenas em que a perda das funcionalidades mais básicas do corpo de Anne exige que Georges dedique-se inteiramente à esposa, mas que também o levam a testemunhar sua triste degradação moral e espiritual, incapaz de revertê-la.

Conhecido por filmes polêmicos e muitas vezes violentos, que abordam temas especialmente caros ao público europeu (colonialismo, imigração, preconceito),  Haneke já foi definido pela crítica mundial como “cineasta da crueldade”. No entanto, interessa-nos no caso de Amor, em especial, sua definição dada pelo crítico brasileiro Tiago Tata Machado a respeito de A Professora de Piano: sintomatologista de uma civilização moribunda[ii]. Tal definição nos leva a uma aproximação entre a obra de Elias e Haneke:

“A fragilidade [dos moribundos] é muitas vezes suficiente para separar os que envelhecem dos vivos. Sua decadência os isola. […] O fato é que, sem que haja especial intenção, o isolamento precoce dos moribundos ocorra com mais frequência nas sociedades mais avançadas é uma das fraquezas dessas sociedades”

O filme passa-se quase exclusivamente no interior de um apartamento em Paris. A degradação física de Anne leva o casal a uma condição de isolamento. Não há possibilidade de diálogo com a filha ou com o jovem pupilo de Anne; o diálogo leva a situações de constrangimento, pudor ou incapacidade de compreensão. Há uma enfermeira que a maltrata, e que insulta Georges ao ser demitida; a filha senta-se ao lado da mãe, já incapaz de falar, para monologar a respeito de investimentos em ações.

Norbert Elias diz que a sociedade de hoje trata a morte de maneira “recalcada” tanto no plano individual como social. O que antes era público é confinado ao âmbito privado, e os moribundos  são ocultados da vida social: “Há um desconforto peculiar sentido pelos vivos na presença dos moribundos”.

Amor traz à tona questões muito duras a uma Europa e um mundo ocidental em pleno processo de envelhecimento. Sem o amparo do Estado, resta a Georges tomar para si a decisão de terminar com o sofrimento de Anne. Enquanto conta ela uma história de seu passado, subitamente ele a sufoca com um travesseiro. Vemos as pernas de Anne sacudindo no ar em seus últimos momentos de vida. O tempo mais uma vez é estendido.

Até quando a sociedade poderá renegar a morte ao privado e recalcar o debate sobre a eutanásia?

A expressão eutanásia (do grego ευθανασία – ευ “bom”, θάνατος “morte“) por si mesma nos leva à ideia de ‘boa morte’, ou seja, de uma morte sem dor ou sofrimento, consistindo em abreviar a vida de um indivíduo cujo estado de doença é crônico, normalmente associado a um imenso sofrimento físico e psíquico, de maneira controlada e assistida por um especialista, ou seja, consistiria em um alívio e desta maneira, algo bom – não deveria ser renegado. Entretanto, independentemente da forma de eutanásia praticada, seja ela legalizada ou não, a questão envolve diversos princípios morais e éticos, colocando-se como controversa nos contextos da bioética e do biodireito.

Dentre os argumentos contra a sua prática, coloca-se primeiramente o de teor religioso, para o qual a eutanásia seria uma usurpação do direito à vida, este por sua vez um exclusivo reservado a Deus. O próprio Vaticano elaborou uma Declaração sobre este tema, alegando que a dor do paciente é uma extensão do sacrifício de Jesus pela Humanidade, à qual Ele não se furtou, obedecendo sempre os desígnios divinos. Assim, no sofrimento, o Homem se irmanaria a Cristo, partilhando de suas dores na Cruz.

Da perspectiva da ética médica, tendo em conta o juramento de Hipócrates, segundo o qual considera a vida como um dom sagrado, sobre a qual o médico não pode ser juiz da vida ou da morte de alguém, a eutanásia é considerada homicídio. Cabe assim, ao médico, cumprindo esse juramento, assistir o paciente, fornecendo-lhe todo e qualquer meio necessário à sua subsistência.

Além disso, a eutanásia também entra em choque com as orientações do Estado, que tem por obrigação resguardar a vida dos seus tutelados. Tem-se, então, o “direito à vida”, mas não o “direito à morte”.

amour (1)

Para quem argumenta a favor da eutanásia, acredita-se que este seja um caminho para evitar a dor e o sofrimento de pessoas em fase terminal ou sem qualidade de vida, um caminho em que quem morre não perde o poder de ser ator e agente digno até ao fim. Como bem retratado em Amor, quando uma pessoa passa a ser prisioneira do seu corpo, dependente na satisfação das necessidades mais básicas; o medo de ficar só, de ser um “fardo”, a revolta e a vontade de negar-se ao novo estatuto, levam-na a pedir o direito a morrer com dignidade. Estes são raciocínios que se inserem na defesa da autonomia absoluta de cada ser individual, na alegação do direito à autodeterminação, consistindo, também, no direito à escolha pela sua vida e pelo momento de sua morte. A partir deste argumento assume-se, então, a defesa do interesse individual acima do da sociedade.

Neste sentido, observa-se que a eutanásia não defende a morte, mas a escolha pela mesma por parte de quem a concebe como única ou a melhor opção. Nesta decisão, as componentes biológicas, sociais, culturais, econômicas e psíquicas têm que ser avaliadas de forma a assegurar a verdadeira autonomia do indivíduo que, alheio de influências exteriores à sua vontade, certifique a impossibilidade de arrependimento.

Mas e a Europa que envelhece?

Anne e Georges possuíam uma vida absolutamente movimentada, de intensa participação na vida cultural da metrópole parisiense. A ascensão numérica deste grupo figura bastante relevante na atualidade, especialmente nos países mais desenvolvidos. Restam dúvidas, porém, sobre o preparo do Estado e de suas políticas para abarcar tamanha população: diversos países já sofrem com a extensão dos fundos de previdência social e as campanhas têm convergido no sentido de incentivar o aumento das taxas de natalidade e mais frequentemente em debates sobre a possibilidade de uma aposentadoria mais tardia. A própria França durante o governo Sarkozy havia empreendido reforma para aumentar para 62 anos a idade de aposentadoria, retornando para os 60 anos[iii] sob determinada circunstância, quando da vitória da esquerda de Hollande.

Com previsões para 2050, segundo dados da ONU[iv], a proporção seria de um idoso entre cada cinco pessoas no planeta, em uma população que somaria 2 bilhões de pessoas, traria a necessidade de um sistema de saúde com outras especialidades e mesmo modificações nos padrões de vida da população, visando  maior acompanhamento médico e qualidade de vida à longo prazo. A Organização das Nações Unidas já vem denotando o assunto desde meados da década de 1980, quando lança a primeira ‘Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento’, coincidindo em uma primeira perspectiva para que os Estados começassem a agir. No ano de 2002, após poucos avanços e a percepção mais presente desta realidade, ocorre a segunda assembleia, que lança o Plano Internacional de Ação no Envelhecimento de Madri[v], que dentre importantes constatações passa a sugerir que os Estados se preocupem mais fortemente com a qualidade de vida que acompanha o envelhecimento dessas populações, resultando muitas vezes em uma vida solitária.

Os personagens do filme de Haneke advêm claramente de uma classe social com melhores recursos, com acesso a tratamentos médicos e maiores possibilidades de cuidado, realidade bastante diferente da maioria das populações idosas no mundo. Os idosos, quando convalescentes, muitas vezes além da falta de acesso a tratamentos de saúde adequados também sofrem violência familiar. E em tempos de crise econômica, mesmo Estados tradicionalmente possuidores importantes populações sexagenárias, como o próprio Japão[vi], protagonizam atitudes bastante negligentes no que se refere amparo estatal ao idoso, relacionando as despesas geradas no cuidado a essas populações como mais um dos fardos que o Estado deveria carregar.

E se em um primeiro momento as fortes imagens de Amor nos chocam por prolongar o sofrimento, um olhar e uma reflexão mais atentos nos permitem a percepção de que no quesito social o sofrimento vem de longa data e irá se estender ao futuro caso não ocorra uma profunda reorientação do Estado e da sociedade em relação ao tratamento conferido a sua população idosa.


[i] ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos. São Paulo: Zahar ,2001.

[iv] Para mais dados e informações. http://social.un.org/index/Ageing.aspx

[vi] Declaração do ministro das finanças japonês sobre o pressão exercida ao Estados nas despesas médicas das populações idosas. http://www.guardian.co.uk/world/2013/jan/22/elderly-hurry-up-die-japanese

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